A Guerra de Canudos foi um conflito ocorrido no sertão da Bahia entre 1896 e 1897, que colocou o Estado brasileiro recém proclamado contra uma comunidade popular formada por sertanejos pobres, ex-escravizados, indígenas e camponeses, organizada em torno da liderança religiosa de Antônio Conselheiro. Essa comunidade se estabeleceu no arraial de Canudos, também chamado de Belo Monte, e passou a viver de forma relativamente autônoma, com práticas comunitárias, forte religiosidade e rejeição às estruturas oficiais do Estado, como impostos, cartórios e algumas leis republicanas, especialmente o casamento civil (Cunha, 1902/2016; Sevcenko, 2003).
O conflito não começou como uma guerra, mas como uma tensão social e política crescente. A população de Canudos era vista pelas elites locais, pela imprensa e pelo governo como uma ameaça à ordem da recém-instalada República Brasileira, sendo acusada de fanatismo religioso, atraso, monarquismo e perigo à estabilidade nacional. Na prática, Canudos representava algo muito mais profundo: a recusa de uma população historicamente excluída em se submeter a um Estado que nunca havia garantido direitos básicos, terra, proteção social ou cidadania efetiva. O sertão vivia sob miséria extrema, secas constantes, coronelismo e abandono estatal, e a comunidade de Conselheiro oferecia pertencimento, proteção simbólica, organização coletiva e sentido de vida para pessoas que estavam à margem da sociedade (Schwarcz, 2019; Sevcenko, 2003).
O governo enviou quatro expedições militares contra Canudos. As três primeiras foram derrotadas pelos sertanejos, que conheciam o território, resistiam com estratégias locais e lutavam pela própria sobrevivência. A quarta expedição, muito maior, com milhares de soldados, armamento pesado e apoio político direto do governo central, destruiu completamente o arraial em 1897. O massacre foi brutal: homens, mulheres, idosos e crianças foram mortos, e Canudos foi literalmente arrasada do mapa. O episódio tornou-se um dos maiores símbolos da violência do Estado brasileiro contra sua própria população pobre e excluída, revelando a distância entre o Brasil oficial, urbano, letrado e republicano, e o Brasil real, sertanejo, analfabeto, miserável e abandonado (Cunha, 1902/2016).
A interpretação mais profunda da Guerra de Canudos mostra que ela não foi apenas um conflito militar ou religioso, mas um choque entre dois projetos de Brasil: de um lado, o projeto moderno, republicano e centralizador do Estado; de outro, uma forma popular de organização social baseada na solidariedade, na fé e na sobrevivência coletiva. É por isso que Canudos se tornou um marco histórico e simbólico, especialmente através da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, que transformou o episódio em uma reflexão sobre desigualdade, exclusão social, violência institucional e formação do país (Cunha, 1902/2016; Sevcenko, 2003; Schwarcz, 2019).
Para saber mais:
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Nova Aguilar, 2016.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
OPENAI. Explicação sobre a Guerra de Canudos. ChatGPT, modelo GPT-5.2, 23 fev. 2026. Disponível em:https://chat.openai.com/ . Acesso em: 23 fev. 2026.