No artigo Édipo, latência e puberdade: a construção da adolescência, Diana Corso propõe uma leitura da adolescência não como uma fase isolada do desenvolvimento, mas como o efeito de um longo processo psíquico que se inicia no período edípico, atravessa a latência e se reorganiza na puberdade. A autora se afasta de uma visão linear e biologizante da adolescência, compreendendo-a como uma construção simbólica, subjetiva e histórica, produzida a partir das elaborações anteriores do sujeito. Nessa perspectiva, cada etapa do desenvolvimento não se encerra em si mesma, mas deixa marcas, restos e inscrições psíquicas que funcionam como “ganchos” para reorganizações futuras, de modo que o sujeito não “entra” na adolescência a partir do zero, mas a partir de uma bagagem simbólica já constituída (Corso, 2002). Essa leitura dialoga diretamente com Freud, especialmente com a ideia de que a sexualidade não nasce na puberdade, mas é estruturalmente infantil, sendo reorganizada ao longo do desenvolvimento (Freud, 1905/1996).
Corso atribui à latência um papel central nesse processo, rompendo com a noção de que esse período seria apenas uma pausa pulsional. Ao contrário, a latência é compreendida como um tempo de elaboração simbólica intensa, no qual o sujeito organiza, recalca, desloca e reinscreve os conflitos edípicos em formas socialmente aceitáveis, como o investimento no saber, nas regras, nos vínculos sociais e na cultura. É nesse momento que se constrói uma espécie de “arquitetura psíquica provisória”, que permite ao sujeito sustentar uma estabilidade relativa até a irrupção das transformações pubertárias (Corso, 2002). Essa elaboração silenciosa prepara o terreno para a puberdade, que não surge como ruptura absoluta, mas como reativação e reorganização daquilo que já estava inscrito no psiquismo. Freud já indicava que a puberdade não inaugura a sexualidade, mas reorganiza as pulsões parciais sob a primazia genital, dando uma nova forma ao desejo (Freud, 1905/1996).
A adolescência, nesse sentido, aparece como o tempo em que o sujeito é convocado a dar corpo, ato e realidade àquilo que foi simbolicamente elaborado ao longo da infância. Corso sustenta que é com os “restos” do Édipo e da latência (conflitos não resolvidos, identificações ambíguas, fantasias recalcadas) que o sujeito constrói sua posição sexuada e sua forma singular de desejar. A adolescência torna-se, assim, um momento de passagem do simbólico ao existencial, do psíquico ao vivido, no qual o sujeito precisa transformar heranças psíquicas em experiência concreta, em escolhas, em laços, em práticas e em identidade (Corso, 2002). Trata-se menos de uma fase etária e mais de um trabalho subjetivo profundo de reorganização do eu, do corpo e do desejo, no qual a sexualidade, o pertencimento social e a identidade se entrelaçam de forma indissociável. Dessa forma, a autora constrói uma compreensão da adolescência como processo, e não como etapa fixa, reafirmando a ideia de que o sujeito é sempre um efeito histórico de suas próprias elaborações psíquicas (Freud, 1915/1996; Corso, 2002).
Para saber mais:
CORSO, Diana Myriam Lichtenstein. Édipo, latência e puberdade: a construção da adolescência. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n. 23, dez. 2002. Porto Alegre: APPOA, 1995. Disponível em: http://www.appoa.com.br/uploads/arquivos/revistas/revista23.pdf . Acesso em: 12 fev. 2026.
OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.