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Engels e as questões de gênero

Friedrich Engels sustentava que as relações entre homens e mulheres não são naturais nem imutáveis, mas historicamente determinadas pelas formas de organização econômica e social. Em sua obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), Engels argumenta que, em muitas sociedades sem classes, especialmente aquelas baseadas em formas comunitárias de produção, as mulheres desfrutavam de maior autonomia e reconhecimento social. Isso ocorria porque o trabalho feminino (ligado à subsistência, ao cuidado e à organização da vida cotidiana) era socialmente necessário e valorizado no interior da comunidade (Engels, 2019).

Segundo Engels, essa situação se transforma com o surgimento das sociedades de classe, que se consolidam historicamente com a formação da propriedade privada e, mais tarde, com o capitalismo. À medida que a produção econômica passa a se organizar em torno da acumulação de riqueza, o trabalho considerado “produtivo” passa a ser aquele que gera excedente econômico e mercadorias para o mercado. Esse tipo de trabalho ocorre majoritariamente na esfera pública e foi historicamente associado aos homens (Engels, 2019).

No capitalismo, essa distinção se aprofunda. O sistema passa a valorizar quase exclusivamente o trabalho assalariado, visível e mensurável em termos monetários. Em contrapartida, o trabalho reprodutivo e doméstico, responsável por garantir a sobrevivência cotidiana e a reprodução da força de trabalho, é deslocado para a esfera privada e naturalizado como dever feminino. Por não ser remunerado nem gerar mercadorias diretamente, esse trabalho passa a ser considerado secundário ou improdutivo, apesar de ser indispensável ao funcionamento do próprio sistema capitalista (Marx, 2013; Engels, 2019).

Engels argumenta que esse processo resultou na perda de status social das mulheres, fenômeno que ele chama de “a grande derrota histórica do sexo feminino”. A subordinação feminina não decorre, portanto, de diferenças biológicas, mas do fato de que o capitalismo e as sociedades de classe passaram a conferir prestígio, poder e reconhecimento ao trabalho público, produtivo e proprietário (espaços historicamente monopolizados pelos homens) enquanto relegaram o trabalho feminino à invisibilidade (Engels, 2019).

Além disso, a consolidação da família monogâmica patriarcal é interpretada por Engels como uma instituição funcional à preservação da propriedade privada e da herança. O controle da sexualidade feminina e da reprodução torna-se central para garantir a transmissão dos bens, reforçando a dependência econômica das mulheres e sua subordinação aos homens (Engels, 2019).

Em síntese, para Engels, a desigualdade de gênero não é uma condição universal da humanidade, mas uma consequência histórica do surgimento das sociedades de classe e do modo capitalista de produção, que redefiniu o valor do trabalho, a organização da família e as relações entre os sexos.

Para saber mais:
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019 [1884].
MARX, Karl. O capital, livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa. São Paulo: Elefante, 2017.
HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, 2007.
OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.



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