Pensemos na palavra trabalho não apenas como algo que fazemos hoje, mas como uma ideia que foi sendo construída historicamente. No latim, tripalium era o nome dado a um instrumento formado por três estacas de madeira. Inicialmente, ele servia para imobilizar animais, especialmente durante tarefas agrícolas ou de ferraria. Com o tempo, porém, esse instrumento passou a ser também associado a práticas de punição e tortura, pois prendia o corpo e provocava dor.
A partir desse uso, surgiu o verbo tripaliare, que significava literalmente “submeter ao tripalium”, ou seja, fazer alguém sofrer fisicamente. Esse sentido de sofrimento e esforço penoso acabou se ampliando e deixando de se referir apenas à tortura corporal, passando a designar qualquer atividade que exigisse grande desgaste, dor ou sacrifício. Quando o latim evoluiu para as línguas românicas, essa carga simbólica permaneceu. Assim, tripaliare deu origem a palavras como trabalho em português, trabajo em espanhol e travail em francês, todas carregando, desde a origem, a ideia de esforço árduo e sofrimento (Houaiss, 2001; Le Goff, 1984).
Essa etimologia ajuda a entender por que, durante muitos séculos, o trabalho foi visto como algo negativo ou inferior. Nas sociedades antigas e medievais, o trabalho manual era associado à dor, à necessidade e à punição, sendo destinado aos escravos, servos ou classes mais baixas, enquanto as atividades intelectuais ou contemplativas eram valorizadas. Mesmo hoje, quando o trabalho pode ser fonte de identidade e realização, a origem da palavra lembra que ele também esteve historicamente ligado à ideia de sacrifício e desgaste, o que explica por que o trabalho continua sendo, ao mesmo tempo, um espaço de criação e de sofrimento humano (Houaiss, 2001; Le Goff, 1984).
Para saber mais:
HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Estampa, 1984.