A filosofia feminista contemporânea é um campo plural, crítico e interdisciplinar, que problematiza as formas como o conhecimento, o poder e a subjetividade foram historicamente construídos a partir de perspectivas masculinas, eurocêntricas e excludentes.
Um dos temas centrais é a crítica feminista ao sujeito universal da filosofia. A filosofia moderna construiu a ideia de um sujeito racional abstrato, apresentado como neutro e universal, mas que, na prática, correspondeu ao homem branco, europeu e proprietário. Autoras feministas demonstram que essa suposta neutralidade encobre relações de poder e exclusão, defendendo a necessidade de reconhecer a situacionalidade do conhecimento, isto é, o fato de que todo saber é produzido a partir de posições sociais concretas (Beauvoir, 1949; Harding, 1991).
Outro tema fundamental é a epistemologia feminista, que questiona os critérios tradicionais de objetividade e racionalidade. Em vez de rejeitar a ciência ou a razão, a filosofia feminista propõe uma objetividade crítica, atenta às desigualdades de gênero, raça e classe que moldam a produção do conhecimento. Conceitos como “saberes situados” afirmam que reconhecer a posição do sujeito que conhece pode tornar o conhecimento mais rigoroso, e não menos científico (Haraway, 1988).
A relação entre corpo, gênero e subjetividade constitui outro eixo contemporâneo central. O feminismo filosófico critica a separação clássica entre mente e corpo, mostrando como o corpo feminino foi historicamente controlado, normatizado e medicalizado. Autoras como Judith Butler problematizam o gênero como uma essência natural, defendendo sua compreensão como uma prática performativa, produzida por normas sociais reiteradas (Butler, 1990). Esse debate tem impactos diretos sobre temas como identidade, sexualidade, maternidade e autonomia corporal.
Também se destaca o tema da interseccionalidade, que analisa como diferentes formas de opressão (gênero, raça, classe, sexualidade, colonialidade) se articulam de modo inseparável. A filosofia feminista contemporânea critica abordagens universalizantes do “ser mulher” e enfatiza que as experiências femininas são múltiplas e historicamente situadas. Esse conceito, formulado inicialmente no campo jurídico, tornou-se central na reflexão filosófica feminista (Crenshaw, 1989; Collins, 2019).
Outro campo relevante é a ética do cuidado, que questiona modelos morais baseados exclusivamente na autonomia individual e na racionalidade abstrata. Essa perspectiva valoriza a interdependência, a vulnerabilidade e as relações de cuidado como dimensões centrais da vida ética, historicamente invisibilizadas por estarem associadas ao trabalho feminino. Trata-se de uma crítica profunda às bases tradicionais da ética normativa (Gilligan, 1982; Tronto, 1993).
Por fim, a filosofia feminista contemporânea dialoga intensamente com debates sobre poder, linguagem e resistência, analisando como discursos jurídicos, científicos e culturais produzem hierarquias de gênero e como podem ser transformados. Influenciada por autores como Michel Foucault, essa vertente entende o feminismo não apenas como uma luta por direitos, mas como uma prática crítica de transformação das formas de vida e dos modos de subjetivação (Federici, 2017).
Para saber mais:
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1949.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003 [1990].
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019.
CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex. University of Chicago Legal Forum, 1989.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa. São Paulo: Elefante, 2017.
GILLIGAN, Carol. Uma voz diferente. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1982.
HARAWAY, Donna. Situated knowledges. Feminist Studies, v. 14, n. 3, 1988.
HARDING, Sandra. Whose science? Whose knowledge? Ithaca: Cornell University Press, 1991.
TRONTO, Joan. Moral boundaries. New York: Routledge, 1993.