A relação entre práxis e motricidade humana ganha profundidade quando deixamos de ver o movimento apenas como algo mecânico e passamos a entendê-lo como ação significativa no mundo. Nesse sentido, a motricidade humana não é só deslocamento corporal, mas expressão de intencionalidade, consciência e relação com o outro, ou seja, ela se aproxima diretamente da ideia de práxis.
Inspirado em Aristóteles, podemos dizer que a práxis é uma ação cujo fim está nela mesma, carregada de sentido ético e existencial. Quando aplicada à motricidade, isso significa que o movimento humano não é apenas um meio para atingir um fim externo (como ganhar uma competição ou executar uma tarefa), mas também uma forma de realização do sujeito. O corpo, ao agir, expressa escolhas, valores e formas de estar no mundo.
Autores da área da motricidade, como Manuel Sérgio, reforçam essa visão ao defender que o movimento humano deve ser compreendido como um fenômeno complexo, intencional e carregado de significado. Para ele, a motricidade é sempre uma ação consciente e situada, o que a aproxima diretamente da práxis, pois envolve reflexão, decisão e transformação, tanto de si quanto do meio.
Além disso, sob a influência de Karl Marx, a práxis também pode ser entendida como ação transformadora da realidade. Nesse sentido, a motricidade humana, quando vivida de forma crítica e consciente, torna-se uma forma de intervenção no mundo: seja no esporte, na educação física ou nas práticas corporais do cotidiano, o movimento pode reproduzir padrões ou questioná-los.
Assim, a motricidade humana pode ser vista como uma forma concreta de práxis: não é apenas movimento, mas ação carregada de intenção, reflexão e possibilidade de transformação. O corpo, nesse contexto, deixa de ser instrumento e passa a ser sujeito da ação.