Na teoria literária e nas ciências humanas, cânone refere-se ao conjunto de obras, autores e textos considerados fundamentais, exemplares ou “clássicos” dentro de uma determinada tradição cultural, literária ou artística. São textos que, ao longo do tempo, passaram a ser legitimados como modelos de valor estético, intelectual ou moral e, por isso, costumam ocupar um lugar central no ensino, na crítica e na história literária (Bloom, 1994).
O cânone não surge de forma neutra ou espontânea. Ele é historicamente construído por instituições como escolas, universidades, academias, editoras e pela crítica especializada. Ao selecionar certas obras como “obrigatórias” ou “superiores”, o cânone estabelece critérios de valor que refletem relações de poder, visões de mundo e contextos sociais específicos. Por isso, o que é considerado canônico em uma época pode ser questionado ou transformado em outra (Williams, 1977).
Na literatura, o cânone tradicional ocidental foi formado majoritariamente por autores homens, brancos e europeus, o que levou teóricos contemporâneos a criticar sua pretensa universalidade. Estudos feministas, pós-coloniais e decoloniais argumentam que muitas vozes — mulheres, pessoas negras, indígenas e escritores de regiões colonizadas — foram historicamente excluídas do cânone, não por falta de valor literário, mas por desigualdades sociais e políticas (Said, 1993; Spivak, 1988).
Assim, hoje o cânone é entendido não apenas como uma lista fixa de grandes obras, mas como um campo de disputa simbólica, no qual se discutem critérios de valor, representação e legitimidade cultural. Questionar o cânone não significa negar a importância dos clássicos, mas compreender que a literatura é plural e que diferentes tradições e experiências também produzem obras fundamentais (Eagleton, 2003).
Um tema contemporâneo central da teoria literária é o debate sobre a literatura a partir das perspectivas decoloniais, especialmente a crítica ao cânone literário eurocêntrico e às formas tradicionais de interpretação.
A teoria literária contemporânea tem questionado a ideia de que existe um cânone universal, neutro e esteticamente superior. Autores decoloniais argumentam que o cânone foi historicamente construído a partir de relações de poder coloniais, que privilegiaram produções europeias e marginalizaram literaturas africanas, indígenas, afro-diaspóricas e latino-americanas. Assim, o valor literário não é apenas estético, mas também político e histórico (Said, 1993; Quijano, 2005).
Nesse contexto, a literatura passa a ser analisada como um campo de disputa simbólica, no qual narrativas podem tanto reproduzir quanto questionar estruturas de dominação. A teoria literária decolonial propõe a leitura de textos a partir de seus lugares de enunciação, isto é, considerando quem fala, a partir de onde fala e quais experiências históricas atravessam essa fala. Isso desloca a crítica literária do foco exclusivo na forma para uma análise que articula estética, história e poder (Mignolo, 2011).
Outro aspecto fundamental desse tema é a valorização de epistemologias outras, ou seja, modos de narrar e interpretar que não seguem necessariamente os modelos literários europeus clássicos. Oralidade, memória coletiva, escrita híbrida, autobiografia e testemunho tornam-se centrais na análise literária contemporânea, especialmente em contextos marcados pela violência colonial, pela escravidão e pelo silenciamento histórico (Glissant, 1997).
Além disso, a teoria literária contemporânea discute como a leitura pode funcionar como uma prática ética. Ler textos de autores historicamente marginalizados implica confrontar silêncios, rever interpretações consagradas e reconhecer que a literatura participa ativamente da construção de imaginários sociais. Assim, a crítica literária deixa de ser apenas uma técnica de análise textual e passa a ser também uma prática política de escuta e reconhecimento (Spivak, 1988).
Em síntese, o tema contemporâneo da teoria literária ligado à perspectiva decolonial questiona quem pode falar, quem pode ser lido e quais histórias são consideradas literárias, propondo uma reconfiguração do cânone e das formas de leitura à luz das desigualdades históricas globais.
Para saber mais:
BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 1994.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the subaltern speak? In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (orgs.). Marxism and the interpretation of culture. Urbana: University of Illinois Press, 1988.
GLISSANT, Édouard. Poética da relação. São Paulo: Editora 34, 2011 [1997].
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. GLISSANT, Édouard. Poética da relação. São Paulo: Editora 34, 2011 [1997].
MIGNOLO, Walter D. Desobediência epistêmica. Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2011.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
OpenAI, ChatGPT para Rita Cruz, Output, 17 de fevereiro de 2026.