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A suplementação em dietas veganas

A vitamina B12 (cobalamina) desempenha um papel essencial no funcionamento do sistema nervoso e na manutenção da saúde mental. Ela participa diretamente da síntese de neurotransmissores, da formação das bainhas de mielina (estrutura que reveste e protege os neurônios) e do metabolismo adequado do sistema nervoso central. Quando há deficiência dessa vitamina, processos neuroquímicos fundamentais são comprometidos, o que pode resultar em alterações cognitivas, emocionais e comportamentais.

O estudo clássico de Lindenbaum et al. (1988) demonstrou que a deficiência de vitamina B12 pode estar associada a sintomas neuropsiquiátricos significativos, como confusão mental, irritabilidade, depressão, delírios e alucinações, mesmo na ausência de anemia grave. Esse achado foi particularmente importante porque evidenciou que os efeitos da deficiência de B12 não se restringem ao sistema hematológico, afetando diretamente o cérebro e o comportamento. A desmielinização neuronal causada pela falta dessa vitamina compromete a transmissão dos impulsos nervosos, explicando a gravidade dos sintomas observados.

No contexto do veganismo, essa questão ganha relevância porque a vitamina B12 é naturalmente encontrada, em quantidades adequadas, quase exclusivamente em alimentos de origem animal. Dietas veganas não suplementadas, portanto, apresentam risco aumentado de deficiência ao longo do tempo. No entanto, isso não significa que o veganismo seja incompatível com a saúde. Ao contrário, a literatura científica contemporânea reconhece que dietas veganas bem planejadas são nutricionalmente adequadas, desde que haja atenção específica à suplementação de nutrientes críticos, especialmente a vitamina B12 (Craig; Mangels, 2009).

Assim, a suplementação de B12 não representa uma falha da dieta vegana, mas uma estratégia nutricional racional, baseada no conhecimento científico atual. Além da B12, outros nutrientes (como ferro, zinco, cálcio, ômega-3 e vitamina D) podem exigir planejamento cuidadoso ou suplementação, dependendo do caso individual. Esse acompanhamento é fundamental para garantir que a alimentação vegana sustente adequadamente as funções biológicas, sem comprometer a saúde física ou mental (Melina et al., 2016).

Desse modo, ser vegano é plenamente possível e saudável, desde que a alimentação seja planejada com base em evidências científicas e acompanhada por profissionais da nutrição. A substituição adequada de nutrientes permite que o indivíduo mantenha suas motivações éticas, ideológicas e ambientais, sem abrir mão da saúde. O veganismo, nesse sentido, não é apenas uma escolha alimentar, mas uma prática que exige responsabilidade informada e cuidado contínuo com o próprio corpo.

Para saber mais:
CRAIG, Winston J.; MANGELS, Ann Reed. Position of the American Dietetic Association: vegetarian diets. Journal of the American Dietetic Association, v. 109, n. 7, p. 1266–1282, 2009.
LINDENBAUM, John et al. Neuropsychiatric disorders caused by cobalamin deficiency in the absence of anemia or macrocytosis. The New England Journal of Medicine, v. 318, n. 26, p. 1720–1728, 1988.
MELINA, Vesanto; CRAIG, Winston; LEVIN, Susan. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: vegetarian diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 116, n. 12, p. 1970–1980, 2016.
O’LEARY, F.; SAMPSON, J. Vitamin B12 in health and disease. Nutrients, v. 2, n. 3, p. 299–316, 2010.



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