feminismo - filosofia

O trabalho doméstico não remunerado

A antropóloga norte-americana Karen Sacks critica o modo como o capitalismo desvaloriza e torna invisível o trabalho doméstico realizado majoritariamente por mulheres. Para ela, essa invisibilidade não é um acidente, mas um elemento estrutural do sistema econômico. O trabalho doméstico (cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos e doentes, organizar a vida cotidiana) não é remunerado e, por isso, costuma ser excluído das estatísticas econômicas e da noção tradicional de “trabalho produtivo” (Sacks, 1979).

No entanto, Sacks demonstra que esse trabalho é fundamental para a reprodução da força de trabalho. É no espaço doméstico que os trabalhadores são alimentados, cuidados, recuperam suas energias e têm suas condições básicas de existência garantidas. Sem esse trabalho cotidiano, a força de trabalho simplesmente não poderia se apresentar diariamente ao mercado. Assim, embora não apareça como produção de mercadorias, o trabalho doméstico sustenta indiretamente toda a produção capitalista (Sacks, 1979).

A crítica de Sacks dialoga com o marxismo feminista, que amplia a análise de Marx ao mostrar que o capitalismo depende não apenas do trabalho assalariado, mas também de uma vasta quantidade de trabalho não pago, realizado fora da esfera do mercado. Ao naturalizar o trabalho doméstico como “amor”, “vocação feminina” ou “obrigação moral”, o sistema econômico consegue se beneficiar dele sem precisar remunerá-lo, reduzindo os custos da reprodução da força de trabalho (Federici, 2017).

Desse modo, a desvalorização do trabalho doméstico está diretamente ligada à divisão sexual do trabalho, que associa os homens à produção remunerada e as mulheres à reprodução da vida. Essa divisão não é natural, mas histórica, e serve para manter desigualdades de gênero ao mesmo tempo em que sustenta a acumulação capitalista. Sacks enfatiza que reconhecer o trabalho doméstico como trabalho é um passo fundamental para compreender as bases reais da economia e para questionar a desigualdade estrutural entre homens e mulheres (Sacks, 1982).

Portanto, quando Karen Sacks afirma que, sem o trabalho doméstico, o sistema econômico não se sustentaria, ela está mostrando que a economia capitalista se apoia em uma base invisível de trabalho feminino não remunerado, essencial à sua reprodução. Tornar esse trabalho visível é, ao mesmo tempo, um gesto teórico e político, pois revela que aquilo que parece “fora da economia” é, na verdade, uma de suas condições centrais de existência.

Para saber mais:
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
SACKS, Karen. Engels revisited: Women, the organization of production, and private property. In: LEACOCK, Eleanor; SAFA, Helen (orgs.). Women’s work: development and the division of labor by gender. South Hadley: Bergin & Garvey, 1986.
SACKS, Karen. Sisters and wives: the past and future of sexual equality. Urbana: University of Illinois Press, 1982.
HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, 2007.
MARX, Karl. O capital, livro I. São Paulo: Boitempo, 2013



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