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Quem é Silvia Federici?

Silvia Federici é uma filósofa, historiadora e ativista feminista que desenvolve uma crítica radical ao capitalismo a partir do ponto de vista das mulheres, especialmente do trabalho reprodutivo e do controle sobre os corpos femininos. Sua tese central é que o capitalismo não se sustenta apenas na exploração do trabalho assalariado, mas depende estruturalmente do trabalho reprodutivo não remunerado, realizado majoritariamente por mulheres (Federici, 2017).

Um dos conceitos mais importantes de sua obra é o de trabalho reprodutivo. Para Federici, cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos e doentes, manter a vida cotidiana e garantir a reprodução física e emocional da força de trabalho são atividades essenciais à economia capitalista, ainda que não sejam reconhecidas como “produtivas” pelo mercado. Ao não remunerar esse trabalho, o capitalismo reduz seus custos e transfere para as mulheres a responsabilidade pela sustentação da vida (Federici, 2012).

Em sua obra mais conhecida, Calibã e a bruxa, Federici propõe uma releitura da origem do capitalismo. Ela argumenta que a chamada acumulação primitiva não se limitou à expropriação de terras e à exploração colonial, mas incluiu também a subjugação dos corpos das mulheres. As caças às bruxas, ocorridas entre os séculos XVI e XVII, são interpretadas como um processo político de disciplinamento feminino, que destruiu saberes comunitários, formas autônomas de reprodução da vida e a autonomia das mulheres sobre a sexualidade e a reprodução (Federici, 2017).

Outro eixo fundamental de seu pensamento é a crítica à naturalização da maternidade e do cuidado. Federici mostra como o capitalismo transformou capacidades humanas universais — como cuidar, gerar e manter a vida — em obrigações femininas, apresentadas como naturais ou morais. Essa naturalização oculta relações de exploração e impede que o trabalho reprodutivo seja reconhecido como trabalho socialmente necessário (Federici, 2004).

Federici também é conhecida por sua participação no movimento “Salários para o trabalho doméstico”, que defendia a remuneração do trabalho doméstico não como um fim em si mesmo, mas como uma estratégia política para tornar visível a exploração invisível das mulheres. Para ela, reivindicar salário é reivindicar reconhecimento político e poder de negociação, desmontando a ideia de que o cuidado é uma dádiva feminina (Federici, 2012).

Por fim, o pensamento de Federici dialoga com debates contemporâneos sobre neoliberalismo, precarização e crises do cuidado. Ela argumenta que as políticas neoliberais intensificaram a exploração do trabalho reprodutivo, ao reduzir serviços públicos e transferir ainda mais responsabilidades para famílias — e, dentro delas, para as mulheres. Assim, a luta feminista, para Federici, deve estar ligada à luta por novas formas de organização social centradas na sustentação da vida, e não na acumulação de capital (Federici, 2019).

Para saber mais:
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.
FEDERICI, Silvia. Salários contra o trabalho doméstico. São Paulo: SOF, 2004.
MARX, Karl. O capital, livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.



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