Ignacio Martín-Baró compreendia o fatalismo como uma forma de pensamento produzida socialmente em contextos de opressão, pobreza e desigualdade. Para ele, o fatalismo não era simplesmente uma característica individual ou um traço psicológico “natural” das pessoas, mas uma construção histórica e ideológica que levava os sujeitos a acreditarem que sua realidade não poderia ser transformada.
Segundo Martín-Baró, em sociedades marcadas pela exploração e pela violência estrutural, muitas pessoas acabam internalizando a ideia de que o sofrimento, a pobreza, a exclusão e a injustiça são inevitáveis ou fazem parte do “destino”. Assim, o indivíduo passa a perceber sua condição como algo fixo e imutável, desenvolvendo sentimentos de impotência, resignação e conformismo diante da realidade social.
Para o autor, esse fatalismo era alimentado pelas estruturas sociais e pelas ideologias dominantes, pois ajudava a manter relações de poder e desigualdade. Quando as pessoas acreditam que “sempre foi assim” ou que “nada pode mudar”, tornam-se menos propensas a questionar as condições sociais que produzem sofrimento. Desse modo, o fatalismo funciona como um mecanismo de manutenção da ordem social.
Martín-Baró criticava fortemente interpretações que atribuíam o fatalismo a uma suposta inferioridade cultural ou psicológica dos povos latino-americanos. Ele argumentava que o fatalismo não nasce da essência das pessoas, mas das experiências históricas concretas vividas sob opressão, violência e exclusão. Em contextos de extrema desigualdade, repressão política e falta de perspectivas, é comum que os sujeitos desenvolvam a sensação de que não possuem controle sobre a própria vida.
Ao mesmo tempo, Martín-Baró acreditava que o fatalismo poderia ser superado por meio da conscientização crítica e da ação coletiva. Inspirado por Paulo Freire, defendia que os indivíduos precisavam compreender as raízes históricas e sociais de seu sofrimento para perceber que a realidade é produzida socialmente e, portanto, pode ser transformada. A libertação do fatalismo ocorreria quando as pessoas deixassem de enxergar a opressão como destino e passassem a reconhecê-la como resultado de relações históricas passíveis de mudança.
Nesse sentido, a Psicologia da Libertação proposta por Martín-Baró tinha como objetivo fortalecer a consciência crítica, recuperar a memória histórica dos povos e promover processos de emancipação social. Para ele, a Psicologia não deveria apenas ajudar o indivíduo a adaptar-se à realidade, mas contribuir para a transformação das condições sociais que geram sofrimento e desesperança.
Assim, o pensamento fatalista, na visão de Martín-Baró, é uma expressão psicossocial da opressão: uma forma de subjetividade marcada pela crença na impossibilidade de mudança. Combatê-lo significava fortalecer a participação coletiva, a consciência política e a esperança histórica na transformação social.
Referências
MARTÍN-BARÓ, Ignacio. Psicologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 2017.
MARTÍN-BARÓ, Ignacio. Sistema, grupo y poder. San Salvador: UCA Editores, 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.