psicologia - psicologia social

Quem foi Martín-Baró?

Ignacio Martín-Baró foi um psicólogo social, filósofo e padre jesuíta espanhol naturalizado salvadorenho, reconhecido principalmente por desenvolver a chamada Psicologia da Libertação. Nascido na Espanha em 1942, mudou-se ainda jovem para El Salvador, país onde construiu sua trajetória intelectual, acadêmica e política. Sua vida e sua obra foram profundamente marcadas pela realidade social latino-americana, especialmente pelas desigualdades sociais, pela pobreza, pela violência política e pela guerra civil salvadorenha.

Martín-Baró acreditava que a Psicologia tradicional, influenciada principalmente por modelos europeus e norte-americanos, era insuficiente para compreender os problemas vividos pelos povos latino-americanos. Para ele, muitas teorias psicológicas tratavam o sofrimento humano de maneira individualizante, desconsiderando fatores históricos, econômicos e políticos que produziam opressão e exclusão. Assim, criticava uma psicologia que buscava apenas adaptar os indivíduos a uma sociedade injusta, sem questionar as estruturas que geravam sofrimento.

A partir dessa crítica, Martín-Baró propôs a Psicologia da Libertação, uma perspectiva comprometida com a transformação social e com a emancipação humana. Inspirado pelo materialismo histórico-dialético, pela Teologia da Libertação e pelas pedagogias críticas latino-americanas, especialmente as de Paulo Freire, ele defendia que a Psicologia deveria voltar-se para a realidade concreta das maiorias populares. Isso significava ouvir os grupos historicamente silenciados — trabalhadores, camponeses, pobres, vítimas da violência estatal — e compreender como as estruturas sociais produziam sofrimento psicológico.

Um dos conceitos centrais de sua obra é o de “desideologização”. Martín-Baró afirmava que muitas vezes as ideologias dominantes fazem as pessoas aceitarem desigualdades e violências como algo natural. A Psicologia, portanto, deveria ajudar os sujeitos a desenvolver consciência crítica sobre sua própria realidade, compreendendo os mecanismos sociais de opressão e fortalecendo processos coletivos de transformação.

Além disso, Martín-Baró estudou profundamente os efeitos psicossociais da guerra e da violência. Durante a guerra civil em El Salvador (1979–1992), analisou temas como medo, trauma coletivo, repressão política, violência institucional e sofrimento das populações marginalizadas. Diferentemente de abordagens que tratavam o trauma apenas no plano individual, ele compreendia o sofrimento psíquico como resultado de processos históricos e coletivos.

Sua atuação não se restringia à produção acadêmica. Martín-Baró também era professor da Universidad Centroamericana José Simeón Cañas (UCA) e participava ativamente do debate político e social salvadorenho. Defendia os direitos humanos, denunciava injustiças sociais e criticava a violência cometida pelo Estado durante a guerra civil.

Em 16 de novembro de 1989, Martín-Baró foi assassinado por militares do exército salvadorenho junto com outros jesuítas da UCA, em um episódio que se tornou símbolo da repressão política na América Latina. Sua morte ocorreu justamente porque sua atuação intelectual e política era percebida como ameaça pelas forças autoritárias da época.

Mesmo após sua morte, suas ideias continuam exercendo grande influência na psicologia social crítica, na psicologia comunitária e em práticas comprometidas com direitos humanos e transformação social. Martín-Baró deixou como legado a defesa de uma Psicologia ética, histórica e politicamente comprometida com os povos oprimidos e com a construção de uma sociedade mais justa.



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