psicologia

Subvertendo o conceito de adolescência

Cecília Coimbra, Fernanda Bocco e Maria Livia do Nascimento, no artigo chamado “Subvertendo o conceito de adolescência”, publicado nos Arquivos Brasileiros de Psicologia (vol. 57, n. 1, Rio de Janeiro, jun. 2005), discutem criticamente o conceito de adolescência como algo natural, universal e homogêneo, mostrando que ele é, na verdade, uma construção histórica e social. Os autores analisam como, na sociedade contemporânea de controle globalizado, o termo adolescência passou a funcionar muitas vezes como instrumento de homogeneização e padronização das práticas sociais e maneiras de viver, reforçando estereótipos e modelos hegemônicos sobre jovens e seus comportamentos.

As autoras argumentam que o termo “adolescência”, tal como é usado hoje, cumpre uma função social de homogeneização e padronização dos modos de ser, existir e viver dos jovens, sendo reproduzido por discursos científicos, jurídicos, midiáticos e sociais que tratam esse período como algo fixo e normativo.

Elas destacam que a psicologia tradicional e outras áreas das ciências humanas muitas vezes reforçam um modelo desenvolvimentista inspirado na ideia de que existe um curso de vida com etapas predefinidas e características universais. Dentro dessa lógica, a adolescência passa a ser vista como uma fase marcada por “crises”, “instabilidades” e “atributos psicológicos específicos”, transformando-se quase em uma identidade a ser alcançada ou superada.

O artigo incorpora também críticas de intelectuais como Margaret Mead, mostrando que em muitas culturas e períodos históricos não existe essa fase da vida como a concebemos no Ocidente moderno, ou ela é vivida de outras formas, menos conflituosas e rigidamente definidas.

As autoras afirmam que essa naturalização da adolescência pode servir a interesses sociais e econômicos, como a criação de mercados específicos, o reforço de estereótipos e a patologização de comportamentos considerados “típicos” dessa idade. Além disso, essa visão tende a reduzir a complexidade das experiências juvenis, negando as diferenças culturais, sociais e individuais que atravessam a vida dos sujeitos.

Por isso, elas passam a sugerir a noção de “juventude” como um termo que pode ser mais flexível e aberto às multiplicidades de experiência e menos preso a uma ideia rígida de desenvolvimento padronizado, ainda que reconheçam que “juventude” também é uma construção social.

Em resumo, o artigo propõe que o conceito de adolescência seja visto como construção social e histórica, questionando suas bases universalistas e normativas. Ele aponta que esse conceito foi instituído por práticas sociais, científicas e culturais que tendem a padronizar experiências complexas e diversas, e oferece a ideia de juventude como alternativa para pensar a singularidade dos processos de vida.

Para saber mais
COIMBRA, C.; BOCCO, F.; NASCIMENTO, M. L. do. Subvertendo o conceito de adolescência. Arq. bras. psicol. Rio de Janeiro, v. 57, n. 1, p. 2-11, jun. 2005. Disponível em: https://goo.gl/z1SGsi. Acesso em: 11 fevereiro 2026.



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