delíricos de maria flor

“Não posso suportar a ideia de 18 milhões de pessoas vivendo em um mundo separado do meu.”
(Virginia Woolf)

Segunda parte

Antes de sair de casa, eu lavei a louça, limpei a pia, arrumei a cama, varri o chão, coloquei um pouco de comida aos pássaros no quintal e tranquei a porta atrás de mim. Quando eu saí, fui com tanta pressa ao encontro de mim mesma que me esqueci de levar-me junto. De algum modo, eu fui, mas fiquei no meio do caminho, à deriva, e só o meu corpo chegou. O sol estava muito forte e fez a minha sombra chegar primeiro do que mim. Então, por um instante, eu parei de caminhar, observei alguns carros passando ao meu redor e olhei para o chão: a minha sombra ainda estava lá. Era como se eu tivesse roubado uma sombra, uma sombra que eu ainda não tivesse pisado, mas que, no segundo passo, eu fosse pega em flagrante. Era como se ela tivesse se jogado no asfalto, exausta da luz do sol, procurando alguma coisa que nem mesmo eu sabia. De qualquer modo, aonde quer que eu fosse, a minha sombra se arrastava pelo asfalto, esfolando-se, machucando a sombra de minha face no chão. Então, eu parei no meio da rua, com a mão no rosto, esperando que ela se retirasse, enquanto os carros buzinavam e xingavam e tentavam se desviar de mim. Apesar do barulho que eles faziam, a minha sombra não conseguia se levantar sozinha. Então, eu andei o mais rápido que eu pude, longe de casa, longe de tudo, pois não poderia aparecer em lugar algum com aquela sombra colada na sola dos meus pés. Por isso, ao encontrar o banco de uma praça, eu me sentei e esperei até o meio-dia, verificando, de minuto em minuto, se eu já conseguia pisar na minha sombra por completo. Quando isso aconteceu, senti uma breve vitória, o meu todo sobressalente, pois, de algum modo, eu sentia que tinha vencido o obscuro que ainda existia em mim, e que o sol me ajudaria a ocultar a minha sombra de todo mundo. Mas, depois, quando as horas passaram, quanto mais a luz incidiu sobre mim, mais a minha sombra se projetou no chão e nas outras pessoas, e eu não soube mais o que fazer. Justo eu que não podia mais roubar a sombra de ninguém, justo eu que não podia mais trocar de sombra com quem quer que fosse, justo eu que não podia mais deixar a minha sombra trancada em casa, antes de sair. Não, não podia, estava aprisionada nela, e precisava de que alguém me perdoasse. Perguntei se Paulo me perdoaria, mas ele tampouco me respondeu. Quando uma nuvem estacionou no céu, eu tentei me desvencilhar daquela penumbra, tentei andar mais rápido do que a minha sombra, tentei realmente fugir dela, tentei me despistar e correr, mas a sombra sempre me encontrava sozinha, na sola dos meus pés. Então, suspirei fundo, pensando que não conseguiria recuperar o meu corpo aprisionado naquela penumbra, pois tinha a impressão de que a sombra é que tinha vontade própria, era ela que me dominava no chão impuro. Já um pouco resignada, acompanhei-a, tentando carimbar no asfalto a minha figura adormecida, mas a cada passo que eu dava, mais a sombra se desgrudava do chão, refrescando as formigas do calor do sol, e se colava novamente em meus pés.

Em certo momento, eu parei de andar, pois percebi que tinha urinado um pouco, não ao ponto que alguém visse, mas ao ponto de me ruir. Eu não podia encontrar Aureliano cheirando a urina. E pensei que só uma grande nuvem poderia me salvar, mas o céu estava limpo, e eu não estava preparada para o azul, de modo algum. Por isso, decidi que voltaria para casa, ora, que doideira era aquela, fugir de casa, fugir da sombra, se eu contasse para alguém, ninguém nem mesmo acreditaria em mim. Pensei por um instante: a cada dia que passasse, eu iria um pouco mais longe, só um pouco, de modo que ninguém percebesse a minha fuga. Fugiria por alguns metros, todos os dias, até que eu encontrasse Aureliano no local combinado. Ele que esperasse. De certo, ele me reconheceria. De certo, ele viria falar comigo. Ora, claro que sim. Então, voltei para casa, enquanto escutava as vozes que riam e zombavam do meu frágil estado.

Quando cheguei em casa, tomei um banho, lavei os cabelos e alguns pensamentos escorregaram pelo ralo. Por isso, o ralo entupiu. Depois, quando usei o condicionador, pensei que, há vários séculos, a cultura condicionava os meus pensamentos e os meus olhos, e tudo o que eu enxergava era sobreposto por olhares muito antigos que não os meus. De certo modo, comecei a me incomodar com a água que não descia pelo ralo, e tentei retirar alguns pensamentos enganchados aos meus cabelos. Estavam um tanto nojentos. É que eu nunca conseguia enxergar pelo cerne das coisas. Eu nunca conseguia ser eu mesma, apenas eu, sem tudo o que o mundo já tinha vivido antes que eu existisse. Eu só conseguia ser depois. Eu só era alguém depois de toda a humanidade já ter sido. Eu tinha nascido em um lugar tardio na fila do mundo, e só então eu tinha ganhado os meus olhos. Os meus olhos eram adoecidos de eternidades, condicionados. Pensei tudo isso e parei. Às vezes, eu tentava parar de pensar para que as vozes não usassem os meus pensamentos em livros e histórias alheias, mas eu não conseguia frear o curso dos meus pensamentos. De certo modo, eu pensava que havia uma escritora que escrevia sobre mim, e que, às vezes, ela repetia os meus pensamentos. Fosse lá como fosse, eu não queria me transformar em personagem. Eu queria ser escritora também – eu dizia em voz baixa para que aquela voz me escutasse. “Escritora, escritora, escritora, entendeu bem? Não, não escrava dos pensamentos.” De algum modo, quanto mais a água caía sobre a minha pele, mais eu pensava que a minha vida, a minha pequena vida, estava sempre por um triz. Eu poderia ter sido atropelada quando parei para olhar a minha sombra no chão. Eu poderia ter cortado os meus pulsos naquela noite. Eu poderia ter pulado da janela no apartamento da minha madrinha. Mas eu abria o chuveiro, procurando uma água que não fosse nem muito fria, nem muito quente, e quando eu a encontrava, eu fechava os meus olhos, deixando que a água do chuveiro sobrescrevesse a chuva que eu ainda trazia em mim. E elas, aos poucos, foram enfim se misturando. Mas a água do chuveiro era ainda mais forte do que eu. Era da mesma temperatura de um ventre antes de nos apresentar ao mundo. E a água que escorria sobre o meu corpo também levava uma camada do meu desamparo, e porque eu me dissolvia na força centrípeta do ralo, a água também se esvaía circular. Havia no mundo torneiras que controlavam a força explosiva da água, mas se eu pudesse instalar no mundo uma ternura, agora sim, agora não, eu acordaria com um olhar menos impuro sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre mim mesma – era o que eu sempre pensava, com os meus braços encolhidos ao redor do meu corpo. E pensava também que a coisa mais estranha do mundo era chorar. Era incrível como os mares existiam, assim como existiam as lágrimas, e que ambos fossem salgados. Era incrível como um escorria pelo chão enquanto o outro pela face. E era incrível: a água podia tanto cair em uma lágrima como em uma cachoeira. O que será que tudo aquilo queria dizer? – eu me perguntava enquanto as minhas lágrimas se dissolviam em meio às águas.

Mas, naquele dia, depois de desligar o chuveiro, eu senti os dedos de Aureliano em minha pele, como sulcos profundos. O arrepio acontecia quando – por serem tão leves – os seus dedos conseguiam, em cada um dos meus poros, soerguer uma flor. Mas não era só isso. Os dedos de Aureliano em minha pele eram arrepios. Todos os pelos do ventre, curiosos, levantavam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanhavam os seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Aqueles dedos que, de tão leves, escorregavam sobre a minha pele, cortando-me em quadro pedaços.

De certo modo, eu pensava assim: existia o frio e o calor para a pele, e o morno e o gelado. Existia o doce e o amargo para a língua, o azedo, o estragado. Existia o ruído e o silêncio para os ouvidos, a música e os latidos. Existia a claridade e a escuridão para os olhos, a penumbra e o opaco. O mundo estava sempre querendo se expressar de alguma forma, era eu que, às vezes, não prestava muita atenção. Por isso, percorria os olhos ao redor, olhando tudo com força, guardando cada imagem em meus olhos, para quando Aureliano me olhasse por dentro, para quando Aureliano lesse os meus pensamentos, e eu lhe dissesse que o encontraria no dia seguinte, e no dia seguinte, e no dia seguinte, mais um pouco.

Depois de tomar banho, eu consegui pentear os meus cabelos. Por serem tão compridos, eles estavam tão embaraçados quanto estavam as minhas ideias naquele momento. De algum modo, eu pensava que os meus cabelos em desalinho eram os meus pensamentos confusos, mas, ao menos, enquanto eu os penteava, havia alguma ordem na minha cabeça, mesmo que ela estivesse para o lado de fora. Então, de repente vi os meus cabelos se esparramarem no assoalho, dando voltas e mais voltas no chão. Fechei os olhos para não vê-la, mas a loucura continuava por dentro de mim. Por isso, os meus cabelos não paravam mais de crescer, e de crescer, e a escova de cabelos estava cheia de pensamentos enganchados. Com alguma dificuldade, eu tentei enrolá-los por dentro de um coque, mas eu já não sabia o que era real e o que era sonho, e me apressei em ser.

Mais tarde, quando Paulo chegou, não contei a ele que tinha saído com a intenção de viajar, ou de ficar alguns dias fora de casa. Mesmo assim, ele não me abraçou como antes. Então, eu não sabia mais o que fazer com os meus braços. Eu não tinha os braços do tamanho do mundo, mas eles eram do tamanho exato de abraçar alguém. E, por isso, fui até a calçada e tentei abraçar um transeunte. O moço se assustou e tentou se desvencilhar, enquanto eu, muito constrangida, tentei lhe dizer que abraçar era encostar um coração no outro e que o sol nunca faltava ao dia de amanhã. O moço perguntou se eu estava doida e eu, por alguns segundos, parei de existir. Vi o moço se afastar, arrastando os passos por entre as folhas da calçada, vi os seus sapatos enormes, vi as folhas gigantescas que caíam no chão, e suspirei. Então, eu era doida mesmo. Mais alguém tinha dado o seu veredicto. E pensei, assim por mim, que ele só tinha me chamado de doida porque ele não conhecia o porão do mundo. Não, ele nunca tinha encontrado as escadas para o abismo. “Você já encontrou?” – eu perguntei em voz baixa para o moço que já estava longe, atravessando a rua. Não, ele não respondia. Ele não parecia escutar o que eu dizia em balbucios. Tudo o que eu escutei de volta foi o vento levantar os meus cabelos e a barra do meu vestido – e continuei pensando, parada no meio da calçada. Que eu soubesse, ninguém nunca tinha mandado construir escadas para o abismo. E ficar abismado, entretanto, era cair para um dentro sem fundo, era cair e cair, até o longe que nos separa de um outro alguém. Ele tinha me chamado de doida de um lugar distante, de onde mais ninguém conseguia me escutar. Só por isso ele tinha me chamado daquilo. Então, eu pensei que eram essas as distâncias que os meus passos não alcançavam mais, como eu não alcançava mais Paulo, nem Paulo me alcançava também. Parecia inútil correr atrás daquele moço para lhe dizer que eu não era doida, correr atrás dele com os meus pés de pássaros ou as minhas asas de bule. E mostrar-lhe que não, eu não era doida, não. Para sempre, ele me levaria para si como doida, para sempre ele acharia isso de mim. Ele levaria isso com ele, pois a primeira impressão é a que fica. Se ele me encontrasse no meio da rua, ele apontaria para mim e diria aos seus amigos: “Está vendo aquela moça? Ela é doida. Ela me abraçou no meio da rua”. E todos me chamariam de doida, doida, doida. Paulo seria o noivo de uma moça doida. Eu era doida, mesmo. Estava sacramentado. Olhei para os meus pés que nunca aprenderam a andar e a se firmar sobre a terra. Olhei para os meus pés com lágrimas nos olhos. As lágrimas despencaram sobre eles como inundações para as formigas, e foi um deus nos acuda. Por isso, também em voz baixa, eu disse ao moço que caminhava ao longe: “Ainda não é a hora para eu descobrir a morte, moço, eu ainda não quero, pois nós só morremos quando entramos no amanhã, quando o amanhã finalmente chega, sem ser deixado para o dia seguinte, quando o amanhã já é agora, entende?” Sim, eu tive coragem de lhe dizer tudo isso em meus pensamentos, como se todos os unicórnios existissem realmente. Não, eles não existiam, eu sabia que eles não existiam. Aureliano tinha me dito, em um dos programas de rádio: eles não existiam mais. Ainda assim, mesmo que as palavras daquele moço se dissolviam no vento, eu fiquei ressentida como um dragão, como um grifo, como um minotauro à beira do esquecimento. Ele deveria ter ficado feliz porque eu lhe dava um lugar nesse mundo para existir: eu lhe dava um coração para se importar com as suas palavras tão duras. Ainda assim, eu sabia que ele tinha de voltar a ninguém; ele e todas aquelas vozes tinham de me deixar em paz.

De algum modo, quando eu fechava os meus olhos, eu percebia que eu era toda uma pessoa adentro. Então, “calma”, eu dizia a mim mesma, “o eu que me invade é só eu mesma, sem conseguir escapar”. Mas, naquele momento, um carro buzinou com força, para que eu saísse do meio da rua, e eu voltei a mim mesma, dizendo que não, eu não era Macabéa, não. Eu era Maria Flor, e queria viver. E tentei frear os meus pensamentos para que eu não me tornasse a personagem de ninguém. Não, ninguém me escreveria. Eu não seria personagem de ninguém. Respirei fundo e parei de pensar, quase em meditação, para que ninguém escrevesse a minha história, para que ninguém me traduzisse.

Depois, quando o moço sumiu pela estrada, eu voltei para dentro de casa, sem contar nada para Paulo. Peguei uma velha caixa de fotografias e, dentro dela, fiquei procurando os motivos pelos quais Paulo se afastava de mim. Talvez, fosse algum brilho no olhar, alguma inclinação do corpo. Olhei cada uma das fotos, procurando os meus próprios olhos por dentro delas, o universo por dentro deles, mas uma das fotografias começou a envelhecer, como se ela abrisse um espaço para o tempo transitar entre os seus sais. Não, eu nao entendia mais as fotos daquela caixa. Com a minha câmera de fotografar o iminente, eu só conseguia aprisionar uma fração do tempo, nunca conseguira aprisionar sequer uma fagulha do espaço, e era por isso que eu me via em fotos, mas eu era toda sem lugar. Revirei a caixa e procurei uma outra fotografia, mas a fotografia começou a enlouquecer, e uma voz me disse que não, aquilo já não era mais a realidade aprisionada numa fração de segundo, aquilo já era uma pintura, uma pintura surrealista.

Então, quando eu levantei a cabeça e enxerguei o meu rosto no espelho do quarto, eu percebi que tinha os olhos marejados de tinta. Dois fios azuis escorreram dos meus olhos e mancharam a minha blusa. Eu limpei as lágrimas com as costas da mão, e a mão manchou-se de tinta também. Paulo entrou no quarto para pegar o celular, mas não se espantou com o meu estado. Então, eu me lembrei de que a tinta também não queria se mostrar a ele, assim como os pássaros, assim como os vultos, assim como as frases do meu braço, assim como as borboletas. Mostrei as mãos azuis para Paulo, mas ele me disse que elas estavam secas por causa do detergente. Então, eu continuei olhando para elas, borradas de azul, e percebi que as minhas unhas cresciam rapidamente, insistiam, insistiam, nunca se davam por findas. A princípio, eu não me incomodei muito, mas guardei as mãos no bolso para que Paulo não visse aquelas unhas enormes. Afinal, faltavam-me garras para apanhar a vida no ar. Mas, quando elas cresceram demais, eu peguei o cortador de unhas e tentei cortá-las. Era espantoso como elas não desistiam de crescer por mais que eu lhes cortasse. Elas chegavam a ser inconvenientes. As cutículas agarravam-se a elas, em sua função de impermeabilizar o meu interior, e eu estava, de algum modo, protegida. Finalmente – eu pensava – eu tinha unhas para me agarrar à vida, unhas para agarrar o que quer que fosse. Garras. Por isso, fui até a escrivaninha e comecei a escrever mais uma carta para os Paulos desconhecidos, a escrever com as mãos cerrando os dedos, com toda a força do mundo conhecido, num grande esforço de tradução da loucura. Quem sabe, algum deles pudesse me explicar o caminho de volta? Quem sabe, algum deles pudesse me encontrar? Em que parte do mundo eu havia me perdido? Num brinquedo no meio da chuva? Numa palavra quebrada ao meio? Num livro na estante: inalcançável? – eu não sabia. Por isso, escrevi a Paulo que eu estava num lugar onde o tempo ainda não tinha chegado, e todo dia era antes. É que eu sempre me lembrava: antes, no quintal onde nós brincávamos, eu enfrentava as amoras com as mãos vazias, deixava a vida sangrar até o fim. Como se eu as trouxesse escorrendo entre os dedos, e isso fosse tudo o que eu pudesse lhe dar: as amoras esmagadas da minha loucura, o invisível fruto diluindo-se no nada, sorvido com a língua que eu também inventava, aquela língua sem tradução. Então, quando escrevi tudo isso a Paulo, senti o cheiro das amoras esmagadas entre os dedos, e escrevi com ainda mais urgência. Escrevi para Paulo, para todos os Paulos que existiam no mundo: a fúria do meu amor, a fúria da minha infância, a fúria da minha inocência.

Depois, percebi que a minha casa estava vazia como um país sem fronteiras deixado aos pássaros. Pela janela, eles iam e voltavam, ao contorno dos ventos, pousando aos bandos sobre a cabeceira da cama, carregando os ventos janela afora. Desde que o meu pai tinha se levantado da minha cama, eu via os pássaros, muitos pássaros, pássaros que traziam o vento no bico, pássaros que já tinham o vento no nome, pássaros que rasgavam um dos ventos ao meio. E, depois de tudo, eram tão vastos os vazios que Paulo deixava ao meu lado, que eu precisava me encolher à noite, em um lado do colchão, num espaço onde eu coubesse inteira. A ausência dele era tão grande que quase me derrubava do mundo, que quase tinha me derrubado, na outra noite. Como se tudo em minha vida resultasse para mim mesma, mas eu tivesse de voltar às pressas de uma terra estrangeira, onde eu já não compreendia nem a sua língua nativa nem o seu silêncio. Era um silêncio intraduzível. Um silêncio calado em português muito antigo. Por isso, eu escrevia aquelas cartas com urgência, qualquer coisa que eu ainda me lembrasse, qualquer coisa que não me tornasse ainda mais louca. Um caderno inteiro para o mundo, mesmo que o mundo não o lesse. Se eu não podia ser escritora, então, eu escreveria cartas para o mundo, e saíria por aí deixando aquelas cartas espalhadas pelo caminho, com o meu vestido lilás. Onde você leu? Lilás. Desse modo, era como se eu ainda pudesse conversar com alguém, de alguma forma, pois do que eu mais sentia falta – dos tempos de namoro com o Paulo – era das conversas que atravessavam as noites sobre os caminhos que se abriam para dentro. Então, eu escrevia naquele caderno para não importuná-lo mais, nem desabar em seus braços com meus escombros, para responder ao mundo que estava tudo bem, mesmo quando não estava: ninguém sabia dos tormentos que eu embalava por dentro. E eu também escrevia naquele caderno para não dormir à porta de Aureliano como um cão cego que desconhecesse as rotas do mundo. Eu escrevia para me aproximar de suas belezas tão humanas porque eu ainda precisava delas. Não se pode derrubar a beleza sem aviso. Mas eu bem sabia: o precisar era me aproximar milimetricamente do que me fazia falta. Era me acercar do que eu ainda não era e procurava ser fora de mim como se, dos meus bolsos furados, eu tivesse deixado cair um eu, e alguém o encontrasse primeiro. Por isso, eu ainda não era. Por isso, eu ainda não era.

Percebi que, naquele exato instante, se o tempo se alongasse de um jeito que já não existia mais, eu veria uma flor se abrindo na minha janela, uma flor que acabava de escolher a vida, todas as flores me confrontavam com isso. Por isso, eu tinha decidido que viveria tão intensamente o momento presente a quase chegar atrasada ao momento seguinte. E isso era tudo – eu me despedia de Paulo com um grande abraço, um abraço que eu tinha sobrando nos braços.

Então, depois de dobrar a carta e guardá-la num envelope, eu abri a porta da sala e atravessei a rua. Em frente à minha casa, havia uma pequena praça, onde alguns bancos estavam dispostos por entre as árvores. Então, eu me sentei na ponta de um deles, coloquei a carta ao meu lado, sob uma pedra pesada, e fiquei olhando para os meus pés, escutando o que as vozes tentavam me dizer. De algum modo, encurtei a respiração para que o ar não chegasse ao mais fundo de mim mesma, para que o fundo permanecesse intocável, e não se revelasse a nenhuma delas. Eu queria entregar a carta para alguém, não apenas deixá-la no banco, mas eu nunca tinha escrito para abismos, eu tinha medo do que me puxava para baixo: aquela flor ao lado do banco, talvez. A minha vida esbarrava-se naquela flor, diluindo a amplidão dos meus olhos, mas só a solidão sabia de cor onde eu existia, e por isso eu suspirei. Resignada, pensei que todas as outras pessoas tinham de consultar um mapa de si mesmas, mas eu, eu entrava lentamente na solidão como se, em mim, ela existisse em duas, como se ela se dividisse ao meio para não se derramar no vazio. A distância entre mim e aquela flor era tão brutal que éramos imiscíveis, mas, ali, era ela, era ela, era eu, era eu: estávamos tão naturalmente sozinhas que inventávamos várias pessoas de nós mesmas para nos fazer companhia naquela existência tão solitária.

Eram as vozes, mais uma vez. Elas iam e voltavam, mas quando iam, eu até sentia falta. No meu silêncio, cabiam muitas discussões e, às vezes, eu até achava estranho não dividi-las com elas, ficar com aquele silêncio só para mim, pendurado na ponta da língua. No meu ser, cabiam outros seres e, por isso, eu me afastava um pouco para o lado para coexistir com o outro em minha própria loucura. Às vezes, eu dividia com as vozes os meus olhos, deixava que elas vissem o que eu estava vendo, estendia no ar os meus pensamentos, deixava que elas soubessem o que eu estava pensando, como quem pudesse matar a fome ou dividir o pão com um faminto. Depois, quando as vozes voltaram a gritar, eu me afastava para o lado de mim, mas eu estava tão próxima do vazio que eu ainda não era – que me aquecia na grande incompreensão do mundo. Eu estava ali, diante do mundo, diante de todas as vozes, com o meu ser puído, com o que eu tinha conseguido existir de uma vida que eu sequer entendia.

De algum modo, eu tentava compreender o caminho que faria no dia seguinte, que faria todos os dias em minha pequena viagem, e percebia que rejuvenescia muito mais rápido do que eu podia compreender. Naquele instante, sentada naquele banco, senti que Paulo iria embora a qualquer momento, e que eu estava ao meio de tantas partidas. Senti que ele tinha razão, pois todas as noites, eu o traía com Aureliano. Eu o enganava em seu momento de maior vulnerabilidade, e, por isso, ele estava ao meio de tanto partir. Há alguns dias, o meu pensamento estava muito confuso, mesmo que o sol entrasse pela janela, mesmo que uma nuvem não se pusesse entre mim e o incompreensível. Por isso, a iminência da sua partida era tão dolorida, que eu até parava um pouco de respirar. De algum modo, eu sabia: quando ele partisse, eu seria devolvida ao relento do mundo, aonde eu fui parar desde que nasci. A iminência da sua partida vinha me lembrar que eu era sempre um, e que eu estava sozinha de mim. Não havia mais onde me escorar para existir, existir era sempre solto, era sempre solo, era sempre à beira do nada, especialmente, quando as vozes não estavam mais dentro de mim, e quando eu não estava mais perto de Paulo. Perguntei-me por que diabos eu pensava tanto, meu Deus, mas lembrei-me de que os meus pensamentos é que moviam os meus pés, assim como os pensamentos de todos os homens e mulheres é que moviam o mundo. Eles construíam os edifícios, as catedrais, as máquinas, as obras de arte e até relações humanas com base nos seus pensamentos. Eu não tinha para onde fugir. Como é que algumas células e substâncias químicas podiam desencadear a história humana? As células neurais não tinham ciência dos seus empreendimentos porque a consciência lhes ultrapassava. Por isso, eu pensava que, talvez, os seres humanos também não tivessem ciência dos seus empreendimentos porque o universo lhes ultrapassava. Pensei em tudo isso enquanto algumas gotas de chuva caíam do céu. Então, tentei proteger a carta por dentro da blusa, mas deixei que algumas gotas me atravessassem da cabeça aos pés. Por isso, eu estava assim, perfurada de chuva, alvejada de transparentes. Respirei fundo antes de voltar para casa, pensando que não poderia amar Paulo sem respirar. Eu não poderia amar ninguém a pulmão vazio. Eu precisava de voltar para casa. Uma carta já tinha sido longe demais para mim. Então, olhei a árvore que não se dobrava. Que todos os Paulos a compreendessem – eu pensava: uma árvore era feita para ficar ao relento, ninguém precisava trazê-la para dentro. Sob a terra, ela germinava e se iniciava em outras árvores, mas eu, não. Eu precisava de voltar para casa e sorrir. Então, quando a chuva parou, eu deixei a carta no banco, sob a pedra pesada, e voltei para casa. Algum Paulo a encontraria, pois todos éramos paulos naquela cidade.

Então, quando entrei em casa, fui até o banheiro para escovar os meus dentes. Eu, que fazia isso com tanta frequência, estava há vários dias sem fazê-lo, e trazia muitos gostos amanhecidos, sobrepostos uns aos outros: gostos do nada, gostos da inércia, gostos do vazio. Os meus dentes estavam, sobretudo, sujos do silêncio e das palavras que eu guardava só para mim. Então, eu me lembrei de quando eu era criança e, com muita dificuldade, tentava alcançar a pia do banheiro ou abrir a torneira ou colocar a pasta dental sobre a escova. E, quando eu conseguia, era uma alegria, por conhecer o mundo e aprender os hábitos das pessoas adultas. A vida era alegre porque era sempre para depois, uma promessa de amanhãs. Mas, ali, com a escova na mão, eu me perguntava se a vida era só isso. Eu não sabia responder. Justo eu, que era mais fraca do que a água que descia pela torneira e se esvaía pelo ralo. Justo eu, que não sabia o que fazer dos laços que os ponteiros do relógio faziam sobre o tempo. Então, do outro lado do espelho, eu vi a minha imagem indo embora, e fiquei ali pensando, enquanto escovava os dentes de lá para cá, de cá para lá. Eu tinha vindo do nada, e tinha um amanhã encravado, a ponto de transbordar a qualquer aurora. Eu vivia no nada quando ainda nem existia. Até nascer, eu não tinha vida alguma, mas, depois de nascer, eu me agarrava à vida como se ela sempre tivesse existido, e fosse eterna, sem começo, meio e nem fim. Eu agia como se a vida não pudesse mais acabar. Todos os que nasciam lutavam desesperadamente para continuar vivos, apesar de terem vindo do nada. E eu, eu também não queria me desgarrar do mundo. De algum modo, eu percebia que tudo corria para se fundir, até um espermatozoide, de tamanho microscópico, desencadeava uma busca cega pela existência. Um dia, antes da concepção, quando eu estava separada em dois corpos, eu sabia como não existir, mas depois de unida no corpo da minha mãe, eu já não sabia mais como morrer. Morrer não era tranquilo. Eu não ficava tranquila para morrer como ficava tranquila no tempo em que eu ainda nem existia, e nem sabia de vida alguma. Morrer era separar os meus pais um do outro, pela segunda vez, era separar os meus pais do mundo e de mim. E eu não sabia como morrer o miolo de mim. Eu não sabia como morrer o filho que eu nunca tinha tido – eu continuava pensando essas coisas, enquanto fechava aquele pálido armário do banheiro e sempre notava nele alguns borrões.

Depois, fui até a cozinha e consegui lavar a louça. Para mim, foi um trabalho de Hércules, pois havia uma sujeira intransponível sobre a pia, a sujeira de vários séculos. Eu não tinha qualquer coragem para vencê-la, a esponja sumindo entre as minhas mãos, à espera de uma força que viesse de minhas ancestrais, de um mundo maravilhoso, de um passe de mágica, qualquer coisa assim. Mas era eu que deixava a água cair sobre os copos e os pratos transparentes, enquanto a água, também transparente, esvaía-se devagar. O vidro era também uma água, uma água muito dura, quiçá, demasiadamente embrutecida e, por isso, quebrou-se entre os meus dedos quando eu o apertei, talvez de propósito. Eu apertei a vida entre os meus dedos e os cacos caíram pelo chão. Eu olhei a vida partida em duas. Olhei o vidro da janela. O ser humano não era impressionante? – eu pensava, enquanto via o sangue escorrer pelo dedo. Um dia, ele tinha juntado um punhado de areia e de cálcio e acabou inventando algo tão transparente quanto o vidro. O vidro era algo sólido, mas um mundo inteiro lhe atravessava até alcançar os meus olhos. Não, o vento não atravessava o vidro, e ambos eram transparentes. Mesmo sendo também invisíveis, o vidro da janela e o vento lá fora eram duas transparências que se esbarravam, e do choque entre elas devia nascer o vazio, quiçá os meus pensamentos – eu continuava pensando.

Então, por um momento, devido ao corte que eu fiz no meu dedo, o sangue misturou-se à água da torneira, mas eu pensei – mais uma vez – que se pudesse inventar no mundo uma ternura, assim tão cândida, assim tão inocente, eu não teria vontade de me esvair pelas veias. É que, para existir, eu tinha de ser impermeável, mas eu não era, não. Aquele corte em meu dedo era uma prova disso. Fosse lá como fosse, era incrível o milagre que estava acontecendo ali. De algum modo, existia o milagre de me estancar, de criar cicatrizes que não me deixavam esvair por completo porque feridas abertas eram como abismos por dentro. O ser humano, que era tão frágil, inventava objetos ainda mais frágeis do que ele: objetos que podiam se quebrar. Que Paulo não me deixasse cair no chão, nem me espatifar na calçada, ao que eu não poderia mais me reunir ou me juntar. Por isso, ao pensar nisso, eu me senti um pouco tonta e me segurei contra o mármore da pia para não desabar no chão. Por isso, eu não saí da cozinha do mesmo modo como eu havia entrado. Eu estava tonta. Mas não estava pronta para existir. Aquelas paredes eram de cimento mas, nelas, havia muitas rachaduras. As paredes podiam desabar sobre mim a qualquer momento, soterrando-me a três mil versos de profundidade. Era isso, era isso, sim.

De repente, uma voz me chamou, dizendo-me que se chamava Paulo. Pelo tom de voz, eu soube que não era o meu noivo, mas presumi imediatamente que fosse um dos Paulos desconhecidos, o Paulo para quem eu tinha escrito a última carta. Sem que eu dissesse nada, sem que eu sequer pensasse em qualquer coisa, Paulo me chamou de louca, gritou-me louca várias vezes. Então, eu lhe respondi, entre murmúrios quase inaudíveis, que os loucos eram aqueles que já tinham visitado o porão do mundo, que sabiam onde esse porão se escondia no mapa, que chegavam da rua garoados, alvejados de transparente, alvejados com a emoção da noite. Disse-lhe, bem devagar, que os loucos tinham um mecanismo enguiçado para crescer para cima, que eles cresciam enviesados, como um elevador parado por onde subiam e cresciam as trepadeiras na primavera…

De qualquer modo, fiquei abismada com o que Paulo me dissera. Então, era assim que ele agradecia a minha carta? Ele tinha atravessado o meu silêncio para me chamar de louca? Ele não pedia licença para estar no meu ouvido. Ele não pedia licença para ler os meus pensamentos. Era um ultraje! Ah, eu não queria encontrar aquele Paulo por dentro, como se eu tivesse esquecido a vida aberta, e piscado os olhos, e ver que ele já estava no interior de mim, de repente, com todos os seus navios aportados ao mar, colonizando-me. Eu precisava de, ao menos, atender a porta, caminhar até ele, abraçá-lo, convidá-lo para se sentar, e depois lhe perguntar como é que ele estava, se estava bem. Aquele Paulo precisava de me trazer um alguém até os meus olhos. Ah, era assim que eu tinha me acostumado a viver, era assim que eu tinha me acostumado a encontrar as pessoas: pelo lado de fora. Aquele Paulo precisava de me trazer algum enigma em silêncio, algo que eu não vislumbrasse de imediato, mas que eu tentasse buscar com os meus olhos fechados. Era essa a distância que me permitia conhecer um estranho. Mas, não, aquele Paulo já estava no interior de mim mesma, no ser que ainda era meu por direito, no ser que eu tinha encontrado no mundo em abandono. E ele não vinha sozinho ao meu dentro, ó não, ele trazia outras vozes barulhentas que discutiam sobre a cor das paredes. Ah, que ele saísse, eu pedia em murmúrios, que saíssem todos os outros, pois eu já estava por demais povoada de mim. Não, aquele Paulo não era confortável de ser. Ele tentava me expulsar de mim, mas para onde eu iria, meu Deus? De algum modo, eu não sabia se aquele Paulo estava me puxando para baixo ou para o fundo, mas eu sentia que, para ele, eu era o seu inimigo mais externo. Por outro lado, era preciso abrir os braços para Paulo porque ele estava se deixando ver, ele estava sendo tomado à sua própria visão. Eu corria o risco de vê-lo por inteiro sem amá-lo, e esse era o grande medo de qualquer um. Por isso, aquele Paulo me doía. Eu não tinha forças para arrastar aquela dor para longe de mim, a dor que Paulo me provocava quando eu, simplesmente, existia. Ele sabia o que eu pensava, assim como eu sabia o que ele pensava também. E tanto eu quanto ele estávamos invadidos de nós mesmos. Ah, naquele momento, eu estava nua de espírito e, por isso, eu tentava ser o mais discreta possível: eu tentava ser só o que me cabia, sem me transbordar para o que não existia, porque o que não existia pertencia a Paulo. Agora, eu precisava de uma ponte para atravessar os dois mundos, uma ponte para o que nunca tinha existido. Que eu me atravessasse para o outro lado de mim porque aquele Paulo conseguia chegar mais em mim do que eu mesma, e ele estava sedento de ternura. Ah, mas não adiantava eu lhe dar o meu caderno vermelho, a única ternura que eu possuía porque as coisas que estavam ali escritas já tinham sido pensadas, e agora era tarde demais. Aquele Paulo teria de vasculhar por baixo de outras pedras, para encontrar as suas próprias ideias, mas as ideias se mexeriam como minhocas descobertas na terra. E agora, e agora? Aquele Paulo exigia que eu me desocupasse, mas para onde eu iria, meu Deus? Desde que eu tinha nascido, aquele corpo tinha sido a única pessoa que eu encontrei para ser. Eu estava de mim mesma na borda, era de mim mesma marginal. Ah, se eu tivesse de me abandonar, eu não encontraria outro ser vazio para ocupar. E onde eu acomodaria as minhas lembranças, os meus pensamentos? Não, eu não sabia, mas sentia que, de repente, a minha solidão ficava povoada de pessoas, de pessoas que eu não conhecia, e eu não conseguia mais ficar sozinha de mim. Em murmúrios, eu disse para aquele Paulo intruso que a lou-cura tinha uma cura por dentro de si, e que a realidade queria alinhavar os sãos. Disse-lhe que eu tinha testemunhas de que eu existia, que as traças, as aranhas e as muriçocas viviam naquela casa por compaixão, para que nem tudo fosse solidão ao meu lado. Sim, eu existia, eu existia, eu existia, sim – eu murmurava enquanto apertava os dentes. E não, eu não seria a personagem de ninguém. Então, aquele Paulo começou a rir, e eu fui entrando no canto do mundo, fui entrando, entrando até enlouquecer por três centímetros de exaustão.

Ainda assim, eu tentei lhe dizer que não era em mim mesma aquela vida, que era fora de mim, e que eu já estava molhada da chuva que nunca tinha caído. Então, pelo modo como ele tinha dito o meu nome, eu entendi que aquele Paulo queria saber o que a chuva tinha a ver com tudo aquilo, mas eu apenas lhe disse: “Você não está vendo o céu? A chuva desaba, a chuva é iminente, a chuva não se sustenta no céu. Como posso, então, cortar os meus pulsos, Paulo? Por que você quer isso de mim?” Foi só então que aquele Paulo me compreendeu, e ficou em silêncio também, esperando a chuva desabar. Ah, quando o futuro era do pretérito, o presente ficava estagnado num agora interminável, e isso podia estragar o inexplicável, estragá-lo com respostas. Mas, enfim, a chuva caiu.

Depois de pensar isso e de dizer essas coisas, eu fui correndo para o quintal com o meu dedo ensanguentado, enquanto começava a chover e a trovejar de verdade. O vento sacudia as árvores, querendo levantar o chão e as folhas e a poeira porque a poeira era só a vontade que o chão tinha de voar, e era isso. Mas, por mais que eu tentasse voltar para casa, e tentasse, e tentasse, eu estava sempre à espreita de um trovão. Era como um trovão que eu tivesse ouvido pela primeira vez na vida, sem saber muito bem o que era aquilo: o desmoronar do futuro, amontoado no chão, ou uma rachadura no meio do mundo, meu Deus. De todo modo, eu sabia que um trovão não me obedecia, tampouco a chuva me obedecia. Pelo contrário, a chuva manchava o seco de transparentes. A chuva afunilava-se no céu e caía apenas sobre a minha cabeça. Era inútil fugir. Então, eu me lembrei de que os trovões que eu tinha ouvido na infância nunca me fizeram mal, nem me mataram, nunca, nunca, não. Por isso, eu pensei que não deveria ligar para os seus estrondos, pois eu tinha memórias antigas de trovões. Eu me lembrava de trovões envelhecidos, e sabia que eles eram tão inofensivos quanto gatinhos que acabavam de nascer. Sabia, eu sabia, sim. Respirei fundo, esperando que os trovões do agora fossem tão indefesos como todos os outros que eu já tinha escutado. De algum modo, eu pensava que bastava construir do tempo mecanismos para me acalmar dos trovões. Mas o mundo – eu suspirei – o mundo era tão mais antigo do que eu. Eu não tinha memórias para lembrar-me dele, para lembrar-me dos tempos em que eu ainda nem existia, ou para me acalmar dos seus imprevistos. Sim, eu tinha medo, como todos os povos que não reduziam os trovões às páginas de um livro. Eu tinha medo daquele Paulo, de todos os Paulos daquela cidade, de todos os Paulos que existiam no mundo, tinha medo da loucura e de tudo o que eu não entendia, como um cachorro que não compreende os trovões, por mais que alguém tente lhe explicar. “Sou eu esse cão, não sou?” – eu perguntei para o Paulo da minha cabeça, ainda em murmúrios, mas ele silenciou, enquanto eu tentava enxugar os olhos encharcados de chuvas e de lágrimas e de não sei mais o quê.

Então, eu me perguntei: e se o mundo que eu via também não existia? E se ele só acontecia nos olhos de quem o via? E se as coisas tinham combinado de acontecer ao mesmo tempo, e os outros chamavam aquilo de realidade? E se essas coisas não existiam em si mesmas, e tudo fosse uma grande ilusão? E se todo mundo estava sonhando o mesmo sonho ao mesmo tempo? E se todos tivessem ficado loucos ao mesmo tempo? E se os pássaros que se amontoavam ao meu lado fossem a única realidade que, de fato, existia? E se o mundo da loucura fosse o único mundo que realmente existia? E se, ao enlouquecer, como Paulo dizia que eu estava enlouquecendo, eu tinha colocado um pé no verdadeiro mundo? E se aquele outro Paulo existia em algum outro mundo, incomunicável a todos os outros? E se eu, Maria Flor, também era incomunicável para eles, mas existia em paralelo, encostada neles? E se eu própria não existia, se eu tinha sido inventada? E se alguém me tivesse escrito? E se, quando as portas da loucura se abriram, os mundos se misturaram, e agora, eu e o intruso Paulo estávamos atrapalhados, sem saber o espaço de cada um? Então, era tudo tão confuso que eu comecei a chorar. Mas por que eu estava chorando era difícil de dizer. Talvez, de mim mesma ou contra mim mesma, eu chorasse. Talvez, contra o meu abrandamento: uma presa apanhada no sono sob o morno do sol, contra o indefeso em mim mesma, eu chorasse. Ou, talvez, pela esperança: um cacto encharcado de água à revelia da chuva e do sol, do inesperado dele, por uns espinhos já tão flexíveis e vulneráveis, eu chorasse, meu Deus. Não, eu não sabia por que eu estava chorando, por mais que eu buscasse respostas, e me cansei de ser. Talvez, eu chorasse apenas pela falta de defesa naquele instante, pela exposição repentina do meu dentro mais vulnerável. Então, quando Paulo, o verdadeiro Paulo, aproximou-se de mim, no meio da chuva, sem me chamar de louca, sem me olhar com furor, eu fechei os meus olhos até enxergar a escuridão. Ele não estava nervoso por me ver encolhida no quintal, mas ao contrário, foi diminuindo os passos até que eles não fossem mais brutos do que umas folhinhas pousando no chão, e me apanhou pelas mãos, levando-me para dentro de casa, também coberto de chuva. Que ele não me olhasse com força, eu continuava pensando, pois eu poderia desmoronar ao mínimo sopro de uma criança. Por isso, dentro dos meus olhos fechados, eu guardei o escuro que consegui roubar de algumas noites sem fim, e tive de apertar os olhos muito bem porque, dentro deles, já existia o medo comprimido. Alguma estrela devia ter ido junto, o canto de algum pássaro. Com certeza, o silêncio dos pássaros adormecidos, ou a paz de dormir sem acordar no meio da noite em sobressalto. As minhas noites de insônia eram tão longas, mas tão longas, que eu amanhecia delas muito envelhecida, pois muitos anos se passavam até o outro dia chegar. Mas, de qualquer modo, Paulo me olhou com infância, e não conseguiu adentrar a mão em meu peito para esmagar flor alguma que tivesse nascido entre as pedras e os musgos. Parecia até que ele achava injusto com a esperança ou desleal com a resistência. Parecia até que compreendia. Então, eu suspirei aliviada por não ter sido chamada de louca. Sentia que havia uma força me puxando para o centro. Isso era o que me deixava virar de cabeça para baixo quando o mundo dava voltas, sem que o oceano se derramasse sobre mim, sobre mais ninguém, e suspirei com esperanças. Paulo ligou o chuveiro, esperou que eu tomasse banho, e então, tomou o seu. Depois, colocou-me na cama e me cobriu com uma coberta, e por esse gesto, contudo, eu soube que estava enlouquecendo, estava, sim. Tudo poderia acontecer com quem estivesse enlouquecendo. Paulo poderia me atirar uma certeza, assim vinda de longe, assim vinda não se sabe de onde, de qual ontem ou anteontem, e me acertar bem no meio do peito. Mas ele não me acertou certeza alguma. E então, Paulo poderia me acertar tantas vezes quanto quisesse, com a realidade, que eu ficaria com o meu peito todo perfurado, atravessado de vazios. Mas ele não disse nada, ele apenas me olhou com ternura, ele apenas me cobriu com a coberta e alisou os meus cabelos, tentando tocar a minha escuridão com a ponta dos dedos. Então, eu procurei uma saída, mas não sabia onde é que a escuridão começava, nem onde é que a noite findava. Uma era por dentro da outra, mas podia ser que eu, ao tocar a mão de Paulo também, tivesse deixado as minhas impressões digitais sobre a escuridão, e isso seria a prova irrefutável de que eu não sabia viver no escuro, de que eu precisava me amparar a todo instante, tateando a realidade como um cego, enquanto pedia, por dentro dos meus pensamentos, para que as vozes me deixassem viver por mais um ou dois para sempres, só para que Paulo me levasse pelas mãos, ou até que ninguém mais percebesse o impossível escondido entre as palmas das minhas. E isso era tudo. Então, eu soube que um de nós dois estava ficando louco, estava, sim. Provavelmente, Paulo. Provavelmente, Paulo. Eu tinha certeza disso, mas eu também sabia que eu nunca tinha sido a maioria, e que não tinha mais ninguém para endossar o que eu tinha conseguira ser ao longo dos anos. A minha avó tinha morrido, e eu estava tão sozinha com as minhas certezas e o amor de Paulo, como se elas fossem realmente as leis da loucura. Então, pela primeira vez, eu comecei a considerar as coisas que eu pensava como sendo uma loucura, como sendo uma certeza que só se passava em meus olhos. Sim, talvez, fosse isso: talvez, eu tivesse os olhos particulares para mim mesma. Se eu tivesse os olhos particulares para mim mesma, ninguém mais poderia me entender. Eu teria olhos olhando para dentro, para as veias e os tecidos moles, não para o mundo, não para a cidade de São Paulo, não para Paulo, meu Deus. E isso era tudo. Se fosse assim, a louca seria eu. A escuridão era isso, era estar sempre esbarrando num abismo. Sim, havia muitos abismos ao meu redor, e, em silêncio, eu estava tentando gritar bem do meio de mim. Quem sabe, alguém conseguisse me escutar? Quem sabe, Paulo conseguisse me escutar? Como se eu estivesse me desmontando aos poucos e, logo, alguém teria de me guardar em uma caixa de lembrança, ao alcance de todas as aranhas do quarto. Era como se eu tentasse ficar em pé, mas o mundo girasse depressa demais, e eu caísse para um dos lados, sem nunca conseguir me firmar ao centro. Então, pensei que enlouquecer era tão solitário, mas eu tinha Paulo ao meu lado. Ele não arrombava o meu lado de dentro. Ele apenas se encostava em minhas portas, esperando que eu abrisse. E que isso era tudo, meu Deus. Por isso, naquela noite, eu dormi profundamente sonhando com Paulo.

(a terceira parte continua em breve)

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