À parte os benefícios para a saúde, ao fazermos dieta, raramente está em jogo apenas a alimentação. O que se mobiliza é um conjunto complexo de sentidos que envolve o corpo, a identidade, o afeto e o lugar que ocupamos socialmente. Em muitas culturas, a dieta aparece como promessa de controle e correção do corpo, como se fosse possível resolver conflitos emocionais, inseguranças e sofrimentos psíquicos por meio da disciplina alimentar. Assim, comer deixa de ser apenas um ato de nutrição e passa a carregar culpa, mérito, sucesso, fracasso ou punição.
Do ponto de vista psicológico, a dieta frequentemente ativa relações profundas com o desejo, a falta e a autoimagem. Restringir a comida pode ser vivido como tentativa de recuperar controle em momentos de instabilidade emocional, luto ou sensação de desordem interna. Ao mesmo tempo, dietas rígidas tendem a intensificar a obsessão pelo alimento e a percepção de fracasso quando o corpo não responde como o esperado, reforçando ciclos de culpa e autodepreciação (Polivy & Herman, 2002).
Socialmente, fazer dieta também é uma forma de se alinhar a normas culturais que associam magreza a valor, sucesso e saúde. O corpo que “faz dieta” sinaliza esforço, responsabilidade e autocontrole, enquanto o corpo que não emagrece é frequentemente estigmatizado. Nesse sentido, o que está em jogo não é apenas o peso, mas o reconhecimento social e a tentativa de pertencimento. Questionar a dieta, portanto, é também questionar os padrões que transformam o cuidado com o corpo em exigência moral, deslocando o foco do controle para a escuta, do castigo para o cuidado e da estética para a saúde integral. Isso é o que me parece estar em jogo.
Para saber mais:
POLIVY, J.; HERMAN, C. P. If dieting makes people fat. American Psychologist, 2002.
BORDO, Susan. Unbearable weight. Berkeley: University of California Press, 1993