Engordar, na nossa cultura, costuma ser interpretado muito além de uma simples mudança corporal. O aumento de peso é frequentemente associado a ideias morais, como falta de controle, preguiça ou desleixo, o que transforma o corpo em um marcador de valor social. Em vez de ser compreendido como resultado de múltiplos fatores, como os biológicos, emocionais, sociais, econômicos etc., o corpo gordo passa a ser lido como um “erro” que precisa ser corrigido. Essa lógica produz vergonha e silêncio, afastando as pessoas do cuidado real com a saúde.
Culturalmente, vivemos sob um ideal de magreza que funciona como promessa de aceitação, sucesso e felicidade. A mídia, a indústria da beleza e até discursos médicos reforçam a ideia de que o corpo “adequado” é aquele que ocupa menos espaço, é jovem, disciplinado e produtivo. Nesse contexto, engordar pode ser vivido como fracasso pessoal ou perda de valor simbólico, especialmente para mulheres, cujos corpos sempre foram mais vigiados e regulados socialmente (Bordo, 1993; Foucault, 1975).
Do ponto de vista psicológico e social, engordar também pode carregar significados afetivos profundos. Para algumas pessoas, o ganho de peso aparece em momentos de luto, estresse, exaustão ou tentativa de proteção psíquica, funcionando como resposta a experiências difíceis. Quando a cultura transforma isso em estigma, impede que o corpo seja escutado como linguagem e experiência. Por isso, repensar o significado de engordar envolve deslocar o olhar do julgamento para a compreensão, reconhecendo que corpos mudam, resistem e contam histórias, e que saúde não pode ser reduzida a uma forma corporal.
Para saber mais:
BORDO, Susan. Unbearable weight: feminism, western culture, and the body. Berkeley: University of California Press, 1993.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1975.