Arminda Aberastury compreende a adolescência como um processo psíquico de luto, reorganização da identidade e reconstrução das relações objetais, e não apenas como uma fase biológica ou etária do desenvolvimento. Para ela, a adolescência é um momento de profundas perdas simbólicas: o sujeito precisa elaborar o luto pelo corpo infantil, pela identidade infantil e pelos pais idealizados da infância. Essas perdas estruturam um processo de transformação subjetiva no qual o adolescente precisa abandonar posições psíquicas anteriores para construir uma nova forma de ser no mundo (Aberastury & Knobel, 1989).
Nesse sentido, Aberastury entende a adolescência como um período de instabilidade emocional, ambivalência, conflitos internos e oscilação identitária, que não devem ser patologizados automaticamente. As crises, os comportamentos contraditórios, a busca por pertencimento em grupos, a contestação da autoridade e a flutuação entre dependência e autonomia são vistos como expressões normais de um processo de reorganização psíquica profunda. O adolescente, ao mesmo tempo em que precisa se separar simbolicamente dos pais, ainda depende deles afetivamente, o que gera tensões internas e externas constantes.
Além disso, Aberastury articula a adolescência diretamente ao processo de construção da identidade, entendendo que esse período é marcado por uma redefinição do self, das identificações e do lugar do sujeito no laço social. O corpo sexualizado, a emergência do desejo, a redefinição das relações amorosas e a inserção social produzem uma reestruturação do psiquismo que exige novas formas de simbolização e elaboração emocional. Por isso, ela afirma que a adolescência é um trabalho psíquico, e não apenas uma etapa do desenvolvimento, sendo atravessada por lutos, conflitos, reorganizações narcísicas e redefinições subjetivas profundas (Aberastury & Knobel, 1989).
Para saber mais:
Aberastury, A.; Knobel, M. (1989). Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas.