psicologia escolar - psicopedagogia

Como as ideias de Vigotski relacionam-se à Psicologia Escolar?

Para Lev Vigotski, o desenvolvimento psicológico acontece por meio da mediação social e da linguagem, e a escola é justamente o espaço institucional em que essa mediação ocorre de forma sistemática, intencional e organizada. Se a linguagem constrói o pensamento, como Vigotski defende, então educar não é apenas transmitir conteúdos, mas organizar experiências sociais e simbólicas que transformam a forma como o sujeito pensa, sente, interpreta o mundo e a si mesmo. A aprendizagem, nessa perspectiva, não é consequência automática do desenvolvimento biológico, mas um motor do próprio desenvolvimento psíquico (Vigotski, 2001; Leontiev, 1978).

Na Psicologia Escolar, isso muda completamente o modo de compreender dificuldades de aprendizagem, comportamento, atenção, linguagem e desenvolvimento. O problema deixa de ser visto como algo exclusivamente “da criança” (déficit, incapacidade, limitação interna) e passa a ser compreendido como resultado das relações pedagógicas, das práticas escolares, da organização do ensino, da linguagem utilizada em sala de aula e das mediações oferecidas pela escola. Se o pensamento se forma pela linguagem e pelas interações sociais, então dificuldades cognitivas também são, em grande parte, dificuldades de mediação, de acesso aos instrumentos culturais e simbólicos, de qualidade das interações pedagógicas e das condições concretas de aprendizagem. A Psicologia Escolar, nesse sentido, não atua apenas sobre o indivíduo, mas sobre o contexto educativo como um todo (Meira, 2003; Patto, 1990).

Na Psicologia Educacional, essa concepção fundamenta práticas pedagógicas que compreendem o ensino como processo ativo de formação psíquica. O professor deixa de ser apenas transmissor de conteúdo e passa a ser mediador do desenvolvimento, alguém que organiza situações de aprendizagem capazes de produzir novas formas de pensamento. A escola passa a ser entendida como espaço de formação das funções psicológicas superiores (como pensamento abstrato, atenção voluntária, memória lógica, autorregulação e consciência crítica) e não apenas como espaço de instrução. Assim, a teoria de Vigotski sustenta uma educação que não é adaptativa, nem tecnicista, mas formativa, crítica e emancipadora, porque entende que formar o sujeito é formar sua consciência, sua capacidade de compreender a realidade e agir sobre ela de modo transformador (Vigotski, 2001; Saviani, 2008; Meira, 2003).

Em termos simples: se o pensamento se constrói pela linguagem e pelas relações sociais, então a escola é um espaço de construção da mente, e a Psicologia Escolar e Educacional tem como tarefa central compreender, intervir e transformar as condições sociais, pedagógicas e simbólicas que produzem o desenvolvimento psicológico. Não se trata apenas de “ajudar o aluno”, mas de transformar o processo educativo para que ele seja, de fato, produtor de desenvolvimento humano.

Para saber mais:
VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte, 1978.
MEIRA, M. E. M. Psicologia escolar: teorias críticas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
PATTO, M. H. S. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. São Paulo: T.A. Queiroz, 1990.
SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. Campinas: Autores Associados, 2008.



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