No primeiro capítulo de A construção do pensamento e da linguagem, Lev Vigotski está tentando responder a uma pergunta básica: como pensamento e linguagem se relacionam no desenvolvimento humano? A crítica inicial que ele faz é às teorias que diziam que pensar e falar são coisas separadas, como se o pensamento existisse pronto na mente e a linguagem fosse apenas uma “roupagem” para expressar esse pensamento. Para Vigotski, essa ideia está errada, porque ela não explica como a mente humana se desenvolve nem como surgem formas complexas de raciocínio, reflexão e consciência.
Ele propõe algo diferente: no início da vida, realmente existem dois caminhos separados. A criança tem um pensamento sem linguagem (ligado à ação, à percepção, às emoções) e uma linguagem sem pensamento organizado (fala para se comunicar, pedir coisas, interagir). Esses dois processos começam separados, mas, em certo momento do desenvolvimento, eles se encontram. Quando isso acontece, a linguagem passa a mudar o modo como a criança pensa. Ou seja, a fala deixa de ser só comunicação com os outros e passa a ser também uma forma de organizar o próprio pensamento. A criança começa a pensar com palavras, a usar a linguagem internamente para planejar, lembrar, refletir, resolver problemas.
Assim, a linguagem não serve apenas para expressar o pensamento: ela constrói o pensamento. A partir do momento em que a linguagem é internalizada, ela reorganiza toda a vida mental da pessoa. É por isso que, para Vigotski, o desenvolvimento da mente humana não é apenas biológico, nem apenas individual: ele é social e cultural. A criança aprende a pensar porque aprende a falar com os outros, porque participa de relações sociais, porque se apropria da linguagem, dos símbolos e da cultura produzidos historicamente. Assim, o pensamento humano nasce do social para o individual: primeiro entre as pessoas, depois dentro da própria pessoa. Essa é a base da ideia vigotskiana de que a consciência é construída socialmente, por meio da linguagem e das relações humanas (Vigotski, 2001).
Nesse sentido, o primeiro capítulo estabelece o fundamento teórico de toda a obra: a ideia de que as funções psicológicas superiores são históricas, sociais e mediadas, e não naturais ou puramente biológicas. O pensamento humano, para Vigotski, não se desenvolve de dentro para fora, mas a partir das relações sociais, da cultura e dos sistemas simbólicos produzidos historicamente, entre os quais a linguagem ocupa lugar central. A linguagem é compreendida como instrumento de mediação cultural, que reorganiza o funcionamento psíquico e permite a formação da consciência humana em sua forma especificamente social e histórica. Assim, o capítulo inaugura uma concepção materialista e histórico-cultural do psiquismo, na qual mente, linguagem e sociedade são dimensões indissociáveis de um mesmo processo de desenvolvimento humano.
Para saber mais:
VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LURIA, A. R. Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais. São Paulo: Ícone, 1986.
LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte, 1978.