linguística - neuropsicologia

Como Chomsky concebe a linguagem?

Noam Chomsky concebe a linguagem como uma capacidade mental inata, própria da espécie humana, profundamente enraizada na estrutura biológica e cognitiva do cérebro. Para ele, a linguagem não é primordialmente um produto da cultura ou da interação social, mas uma faculdade natural do ser humano, que se desenvolve a partir de disposições internas já presentes desde o nascimento. Assim, os indivíduos não aprendem a linguagem apenas por imitação ou condicionamento, mas ativam um aparato cognitivo pré-existente que lhes permite adquirir qualquer língua humana a partir de estímulos limitados do ambiente. Essa concepção rompe com as abordagens empiristas e behavioristas, instaurando uma perspectiva inatista e mentalista da linguagem, na qual o foco se desloca da experiência externa para as estruturas internas da mente (Chomsky, 1971; 1998).

Nesse horizonte teórico, Chomsky formula a teoria da gramática gerativa, segundo a qual a linguagem consiste em um sistema de regras e princípios abstratos internalizados, capazes de gerar um número infinito de enunciados a partir de um conjunto finito de elementos. O objetivo da linguística, portanto, não seria apenas descrever frases produzidas socialmente, mas explicar os mecanismos mentais que tornam essa produção possível. A distinção entre competência e desempenho expressa essa visão: a competência refere-se ao conhecimento linguístico internalizado e inconsciente que o falante possui, enquanto o desempenho corresponde ao uso concreto da linguagem, atravessado por fatores como memória, atenção, contexto e limitações cognitivas. O verdadeiro objeto científico da linguística, nesse sentido, passa a ser a estrutura mental da linguagem, e não seu uso social imediato (Chomsky, 1971).

O conceito de gramática universal sintetiza essa concepção, ao afirmar que todas as línguas humanas compartilham princípios estruturais profundos comuns, derivados da própria organização cognitiva da mente humana. As diferenças entre as línguas seriam, assim, variações superficiais de parâmetros de um mesmo sistema universal. Com isso, Chomsky desloca o centro explicativo da linguagem da sociedade para o sujeito cognoscente: a linguagem deixa de ser entendida como uma construção simbólica coletiva e passa a ser compreendida como uma propriedade biológica da espécie humana. Sua teoria funda uma linguística de base cognitiva, racionalista e naturalista, na qual estudar a linguagem é, em última instância, estudar a própria estrutura da mente humana (Chomsky, 1998; Lyons, 1981).

Para saber mais:
CHOMSKY, Noam. Linguística cartesiana: um capítulo da história do pensamento racionalista. Petrópolis: Vozes, 1971.
CHOMSKY, Noam. Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente. São Paulo: Editora UNESP, 1998.
LYONS, John. Linguagem e linguística: uma introdução. Rio de Janeiro: LTC, 1981.



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