Para Simone de Beauvoir, a condição feminina, tal como foi historicamente construída, leva muitas mulheres a fazer escolhas que não partem de seus próprios desejos ou projetos, mas da definição que o homem e a sociedade patriarcal impõem sobre o que é ser mulher. Desde cedo, elas são educadas para se perceberem como o “Outro”, isto é, como seres cuja existência ganha sentido apenas em relação ao masculino. Nesse processo, a mulher é incentivada a orientar sua vida em função do casamento, da aprovação masculina e da dependência afetiva e econômica, em vez de desenvolver uma existência autônoma e criadora (Beauvoir, 1980).
Como consequência, Beauvoir argumenta que muitas mulheres acabam sendo reduzidas à condição de objeto, privadas da possibilidade de se afirmarem como sujeitos livres. Essa posição de dependência produz vidas marcadas pela repetição, pelo tédio e pela frustração, já que seus projetos pessoais são constantemente adiados ou anulados em nome das expectativas alheias. A perda de autonomia não aparece como imposição direta, mas como algo naturalizado, vivido como destino. Para Beauvoir, essa aceitação não decorre de uma “natureza feminina”, mas de um condicionamento social profundo, que limita a liberdade das mulheres e as afasta da realização existencial que só pode surgir quando o sujeito escolhe a si mesmo e assume sua própria transcendência (Beauvoir, 1980; Moi, 1999).
Para saber mais:
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
MOI, Toril. Teoria feminista e Simone de Beauvoir. Campinas: Papirus, 1999.