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O que se passa na Epopeia de Gilgamesh?

A Epopeia de Gilgamesh é um dos textos mais antigos da humanidade, escrito na Mesopotâmia por volta de 2100 a.C. A narrativa começa apresentando Gilgamesh como um rei poderoso, dois terços divino e um terço humano, cuja força e autoridade se transformam em arrogância e tirania. Ele oprime seu povo, ignora limites e acredita estar acima das leis humanas e divinas. Para conter esse excesso, os deuses criam Enkidu, um ser selvagem, ligado à natureza, que surge como um contraponto a Gilgamesh: enquanto o rei representa a cidade, a ordem e o poder, Enkidu encarna o mundo natural, instintivo e não civilizado (George, 2003).

O encontro entre Gilgamesh e Enkidu, inicialmente marcado pela luta, é profundamente simbólico. A briga não termina com a destruição de um pelo outro, mas com o reconhecimento mútuo. Ao perceberem que são equivalentes em força, eles se tornam amigos, e essa amizade transforma Gilgamesh. Pela primeira vez, ele experimenta um vínculo que não é de dominação, mas de igualdade. Juntos, realizam feitos heroicos, desafiando monstros e até os próprios deuses, o que, paradoxalmente, intensifica o conflito entre o humano e o divino. A morte de Enkidu, decretada como punição divina, rompe esse equilíbrio e marca o ponto de virada da narrativa (Tigay, 2002).

A morte do amigo confronta Gilgamesh com aquilo que ele sempre tentou negar: sua condição mortal. O luto revela o limite intransponível entre deuses e humanos. A partir daí, a busca pela vida eterna não é apenas um desejo de poder, mas uma resposta existencial ao medo da morte e à dor da perda. Gilgamesh parte em uma jornada em busca de Utnapishtim, o único humano que recebeu a imortalidade, mas descobre que a eternidade não está ao alcance dos homens. Mesmo quando encontra a planta da juventude, ele a perde, reforçando a ideia de que a morte faz parte da condição humana (George, 2003; Eliade, 1998).

Assim, a epopeia não é apenas um relato heroico, mas uma reflexão profunda sobre limites, amizade, perda e finitude. Enkidu funciona como o espelho humano de Gilgamesh: sua morte obriga o herói a amadurecer e a compreender que o verdadeiro legado não é a imortalidade física, mas aquilo que se constrói na vida — as relações, a memória e as obras deixadas no mundo. A narrativa ensina que a arrogância é punida, não por crueldade divina, mas porque ignorar a própria mortalidade impede o humano de viver plenamente (George, 2003; Eliade, 1998)

Para saber mais:
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1998.
GEORGE, Andrew. The Epic of Gilgamesh. London: Penguin Classics, 2003.
TIGAY, Jeffrey H. The evolution of the Gilgamesh epic. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2002.



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