Acredita-se que a criação de um “mundo invisível” pelo ser humano pré-histórico não tenha sido fruto de fantasia ingênua, mas de uma experiência concreta e repetida com estados limítrofes da consciência. A alternância cotidiana entre sono e vigília, bem como a experiência radical da vida e da morte, colocava diante desses grupos uma questão fundamental: como alguém podia estar presente em sonhos, falar, agir e sentir, mesmo com o corpo imóvel? E como um corpo aparentemente semelhante ao dos vivos tornava-se, após a morte, vazio de movimento e intenção? Essas vivências sugeriam que a realidade não se esgotava no que era visível e palpável (Eliade, 1992).
Os sonhos tiveram um papel central nesse processo. Para muitos estudiosos, eles foram uma das primeiras “provas” de que existia algo além do corpo físico. Durante o sonho, o indivíduo via pessoas mortas, visitava outros lugares, enfrentava perigos e emoções reais, apesar de seu corpo permanecer imóvel. Isso favoreceu a ideia de que havia uma parte do ser (uma alma, sopro ou duplo) capaz de se desprender temporariamente do corpo. As alucinações, os estados de transe e as experiências extáticas, comuns em contextos rituais ou de privação, reforçavam essa percepção de uma dimensão invisível que coexistia com o mundo sensível (Tylor, 1871; Lewis-Williams, 2002).
A morte aprofundava ainda mais essa necessidade explicativa. Diante de um corpo sem vida, mas formalmente igual ao de antes, tornava-se necessário pensar o que havia partido. O mundo invisível surge, então, como um espaço simbólico onde as almas dos mortos continuam existindo, onde forças e entidades explicam o que escapa ao controle humano, como doenças, desastres naturais ou a própria fertilidade da terra. Esse além invisível não se opunha ao mundo visível, mas o completava, oferecendo sentido, continuidade e alguma forma de ordenação da experiência humana (Durkheim, 1996).
Assim, a criação desse mundo invisível pode ser entendida como uma resposta existencial e cognitiva às grandes perguntas da condição humana. Ela nasce da observação, da experiência sensível e da tentativa de dar sentido ao desconhecido. Mais do que uma crença religiosa no sentido moderno, trata-se de uma estrutura fundamental de pensamento, que permitiu aos seres humanos articular a vida, a morte, o medo e o mistério dentro de um sistema simbólico compartilhado. Nesse sentido, o mundo invisível não é uma fuga da realidade, mas uma forma “primitiva” (e profundamente sofisticada) de compreendê-la (Eliade, 1992; Descola, 2005).
Para saber mais:
DESCOLA, Philippe. Além da natureza e cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LEWIS-WILLIAMS, David. The mind in the cave: consciousness and the origins of art. London: Thames & Hudson, 2002.
TYLOR, Edward B. Primitive culture. London: John Murray, 1871