Desde o final da Idade Média, o termo queer circula na língua inglesa para designar aquilo que é estranho, incomum ou fora do esperado. Derivado do alemão quer (oblíquo, atravessado), o vocábulo não possuía inicialmente um conteúdo sexual, sendo empregado para qualificar comportamentos, objetos ou situações percebidas como excêntricas ou desviantes em relação à norma. Ao longo dos séculos, essa noção de estranhamento foi sendo progressivamente associada a pessoas e práticas que não se conformavam às expectativas sociais dominantes, preparando o terreno para seu uso posterior no campo da sexualidade (OED; Weeks, 2011).
No início do século XX, queer passa a ser utilizado de maneira explicitamente pejorativa como ofensa dirigida a homens homossexuais e, mais amplamente, a qualquer pessoa cuja expressão de gênero ou sexualidade fugisse da heteronormatividade. Nesse contexto, o termo funcionava como um instrumento de estigmatização, reforçando fronteiras morais e sociais entre o que era considerado normal e aceitável e aquilo que era visto como desvio. A palavra condensava medo, desprezo e violência simbólica, sendo parte de um vocabulário que sustentava práticas de exclusão, patologização e criminalização das dissidências sexuais (Foucault, 1976; Sedgwick, 1990).
A partir do final do século XX, sobretudo nos anos 1980 e 1990, ocorre um movimento político e cultural de ressignificação do termo. Em meio à crise da AIDS e ao fortalecimento de ativismos LGBTQIAPN+, queer é reivindicado como um marcador identitário positivo, justamente por sua carga histórica de estranhamento e recusa da norma. Assumir-se queer passa a significar desafiar categorias fixas de identidade, rejeitar modelos assimilacionistas e afirmar formas de existência que não buscam legitimação nos padrões heterossexuais ou binários. Trata-se de uma estratégia política que transforma o insulto em ferramenta de resistência e orgulho (Butler, 1993; Halperin, 1995).
Nesse mesmo período, o termo é incorporado ao campo acadêmico para nomear a chamada teoria queer. Mais do que uma teoria unificada, trata-se de um conjunto de abordagens críticas que questionam a naturalização do sexo, do gênero e da sexualidade, mostrando como essas categorias são historicamente construídas e reguladas por relações de poder. A teoria queer desloca o foco da identidade estável para os processos de normatização, performatividade e exclusão, propondo uma crítica radical às hierarquias que definem quais vidas são consideradas legítimas ou inteligíveis. Assim, queer deixa de designar apenas sujeitos e passa a nomear uma forma de pensar, de interrogar e de desestabilizar normas sociais (Butler, 1990; Sedgwick, 1990; Foucault, 1976).
Para saber mais:
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Civilização Brasileira, 2003.
BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo“.São Paulo: M-1 edições, 2020.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1976.
HALPERIN, David M. Saint Foucault: towards a gay hagiography. New York: Oxford University Press, 1995.
SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemology of the closet. Berkeley: University of California Press, 1990.
WEEKS, Jeffrey. Sexuality. London: Routledge, 2011.