O fenômeno conhecido como desaparecimento das áreas naturalmente escuras do planeta é causado principalmente pela expansão da iluminação artificial noturna. Durante bilhões de anos, a vida na Terra evoluiu em um ciclo regular de luz e escuridão, determinado pelo movimento do Sol e da Lua. Animais noturnos, insetos e até plantas desenvolveram seus ritmos biológicos, comportamentos reprodutivos, estratégias de alimentação e mecanismos de sobrevivência em profunda relação com a noite escura, e não com a noite iluminada artificialmente (Hölker et al., 2010).
Quando se fala em “áreas escuras desaparecendo”, significa que a noite, tal como existia historicamente, está se tornando rara. A poluição luminosa (proveniente de postes, fachadas iluminadas, anúncios, estradas e cidades) transforma a noite em um ambiente artificialmente claro, alterando ecossistemas inteiros. Para muitos animais noturnos, a escuridão não é ausência de vida, mas condição essencial para a orientação, a caça, a fuga de predadores e a comunicação. Insetos, por exemplo, utilizam a luz natural da Lua e das estrelas para navegação; a iluminação artificial os desorienta, levando-os à exaustão ou à morte, o que afeta toda a cadeia alimentar (Longcore; Rich, 2004).
As plantas também são impactadas. A luz artificial noturna pode interferir nos ciclos de floração, crescimento e dormência, pois muitas espécies dependem da duração da noite para regular processos fisiológicos. Assim, a alteração da escuridão modifica o ritmo circadiano não apenas de animais, mas de ecossistemas inteiros, produzindo desequilíbrios que não são imediatamente visíveis, mas que se acumulam ao longo do tempo (Gaston et al., 2013).
O ponto central da reflexão de Hölker é que essa transformação ocorre em uma escala extremamente recente quando comparada ao tempo evolutivo. Espécies que levaram milhões ou bilhões de anos para se adaptar à noite escura não conseguem se ajustar, no mesmo ritmo, a uma mudança imposta em poucas décadas. O desaparecimento da escuridão, portanto, não é apenas uma questão estética ou urbana, mas um problema ecológico profundo, que ameaça a biodiversidade e rompe equilíbrios fundamentais entre luz, tempo e vida (Hölker et al., 2010).
Assim, há uma inversão silenciosa: aquilo que sempre foi condição básica da vida noturna (a escuridão passa a ser tratado como algo indesejável, a ser eliminado. O resultado é um mundo onde a noite perde sua função ecológica, e onde espécies inteiras se veem privadas do ambiente para o qual foram moldadas ao longo da história da Terra.
Para saber mais:
GASTON, Kevin J. et al. The ecological impacts of nighttime light pollution: a mechanistic appraisal. Biological Reviews, v. 88, n. 4, p. 912–927, 2013.
HÖLKER, Franz et al. The dark side of light: a transdisciplinary research agenda for light pollution policy. Ecology and Society, v. 15, n. 4, 2010.
LONGCORE, Travis; RICH, Catherine. Ecological light pollution. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 2, n. 4, p. 191–198, 2004.