Henri Wallon desenvolveu seu pensamento a partir de uma formação plural que marcou profundamente sua concepção de ser humano e de desenvolvimento. Sua experiência como médico despertou um interesse direto pelo funcionamento biológico do cérebro e do corpo, levando-o a compreender que os processos psíquicos não podem ser separados das bases orgânicas. Ao mesmo tempo, sua formação filosófica fez com que ele se interrogasse sobre o sentido da existência humana, sobre a consciência, a afetividade e a condição social do sujeito. Já como psicólogo, Wallon voltou-se especialmente para o desenvolvimento da criança, buscando compreendê-lo não como um processo puramente individual, mas como algo que se constrói nas relações sociais e históricas.
Wallon viveu em um contexto intelectual fortemente marcado pelo marxismo, o que contribuiu para a adoção de uma perspectiva dialética em sua teoria. Isso significa que ele não via o desenvolvimento humano como um caminho linear ou harmonioso, mas como um processo atravessado por tensões e contradições. Para Wallon, o ser humano se forma justamente no conflito entre polos aparentemente opostos, como emoção e razão, indivíduo e sociedade, biológico e cultural. Esses elementos não se excluem nem se anulam; ao contrário, interagem constantemente, produzindo transformações ao longo do desenvolvimento.
Nesse sentido, Wallon entende que as crises, os desequilíbrios e as contradições não são sinais de falha ou desorganização, mas momentos fundamentais de mudança. É por meio dessas tensões que novas formas de organização psíquica emergem, permitindo à criança ampliar suas capacidades cognitivas, afetivas e sociais. O desenvolvimento, portanto, não é um simples acúmulo de habilidades, mas um movimento dinâmico e histórico, no qual o sujeito se constrói na relação viva entre corpo, emoção, pensamento e sociedade, ideia central da psicologia walloniana (Wallon, 2007).
Para saber mais:
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.