filosofia

Como pensava Feuerbach?

Em A essência do cristianismo, Feuerbach propõe uma inversão radical da maneira tradicional de compreender a religião. Em vez de partir da ideia de que Deus cria o homem, ele sustenta que é o homem quem cria Deus, não de forma consciente ou deliberada, mas por meio de um processo de projeção. Segundo Feuerbach, as qualidades atribuídas a Deus, como bondade, sabedoria, amor e poder, são, na verdade, qualidades humanas idealizadas. O ser humano reconhece essas capacidades em si mesmo, mas, ao percebê-las como limitadas e imperfeitas em sua existência concreta, projeta-as para fora de si, imaginando-as como plenamente realizadas em um ser infinito e perfeito (Feuerbach, 1988).

Esse movimento de projeção está profundamente ligado à condição humana de finitude. Feuerbach observa que o homem é o único ser que tem consciência de seus próprios limites: sabe que vai morrer, que não domina todo o conhecimento e que sua força é restrita. Essa consciência da finitude produz angústia, mas também impulsiona o pensamento para além do que é imediatamente dado pela experiência sensível. Embora o ser humano nunca possa experimentar o infinito com os sentidos, ele é capaz de concebê-lo intelectualmente, de pensar aquilo que ultrapassa suas próprias condições de existência. É justamente essa capacidade reflexiva que torna possível a ideia de Deus como ser absoluto e infinito (Feuerbach, 1988).

Assim, para Feuerbach, Deus não é uma realidade exterior ao homem, mas a expressão alienada de sua própria essência. Ao atribuir a um ser divino tudo aquilo que considera mais elevado e valioso, o homem acaba se empobrecendo, pois retira de si mesmo essas qualidades e passa a venerá-las como algo externo. A crítica de Feuerbach à religião não é, portanto, apenas uma negação da fé, mas um convite à reconciliação do homem consigo mesmo. Reconhecer que aquilo que se chama de “divino” é, na verdade, humano significa recuperar essas qualidades como possibilidades da própria humanidade, deslocando o centro da religião para uma ética humanista fundada no amor, na razão e na sociabilidade humana (Feuerbach, 1988).

Para saber mais:
FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. São Paulo: Vozes, 1988.



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