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Como podemos explicar a esquizofrenia?

Do ponto de vista biológico, Howes e Kapur explicam que, na esquizofrenia, ocorre uma hiperatividade da dopamina nas vias mesolímbicas, responsáveis por atribuir importância ou relevância aos estímulos. Em condições habituais, esse sistema ajuda o cérebro a distinguir o que merece atenção do que é irrelevante. Quando ele funciona de forma desregulada, estímulos neutros (como um ruído, um olhar ou um pensamento passageiro) passam a ser vivenciados como carregados de um significado intenso e urgente. Essa atribuição aberrante faz com que a pessoa tente explicar racionalmente sensações estranhas ou excessivamente marcantes, o que pode dar origem a delírios, ou que experimente percepções sem objeto real, como as alucinações (Howes & Kapur, 2009).

No plano da experiência subjetiva, Karl Jaspers descreve que essa alteração neurobiológica se manifesta como uma ruptura profunda da fronteira entre o eu e o mundo. Aquilo que normalmente é vivido como interno (pensamentos, intenções, emoções) pode ser experimentado como algo externo ou imposto. O indivíduo pode sentir que seus pensamentos não lhe pertencem, que são controlados ou comentados por vozes, e que o ambiente ao redor está carregado de sinais ocultos ou ameaças veladas. O mundo deixa de ser evidente e familiar, tornando-se enigmático, estranho e frequentemente angustiante. Não se trata apenas de “acreditar em coisas falsas”, mas de uma transformação radical na forma de estar no mundo e de se reconhecer como sujeito (Jaspers, 1997).

O tratamento da esquizofrenia procura atuar nesses diferentes níveis. Os antipsicóticos têm como principal efeito reduzir a hiperatividade dopaminérgica, diminuindo a intensidade da atribuição excessiva de significado e, consequentemente, dos delírios e alucinações. Contudo, o cuidado não se limita à medicação. A psicoterapia, a reabilitação psicossocial e o apoio familiar são fundamentais para ajudar a pessoa a compreender suas experiências, reconstruir vínculos sociais, recuperar autonomia e elaborar um projeto de vida possível. As evidências atuais mostram que, com acompanhamento contínuo, suporte social e redução do estigma, muitas pessoas com esquizofrenia conseguem estabilizar o quadro, estudar, trabalhar e alcançar boa qualidade de vida, rompendo com a ideia histórica de um destino inevitavelmente incapacitante associado ao diagnóstico (Howes & Kapur, 2009).

Para saber mais:
HOWES, O. D.; KAPUR, S. The dopamine hypothesis of schizophrenia: version III – the final common pathway. Schizophrenia Bulletin, v. 35, n. 3, p. 549–562, 2009.
JASPERS, Karl. Psicopatologia geral. São Paulo: Atheneu, 1997.



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