A visão de Judith Herman sobre o abuso sexual está centrada na compreensão do trauma como um fenômeno profundamente psíquico e relacional, e não apenas como um evento individual ou clínico. Em sua obra fundamental Trauma and Recovery (Trauma e recuperação), Herman afirma que a violência sexual produz uma ruptura na experiência subjetiva da pessoa, desorganizando a percepção de segurança, identidade, confiança e continuidade da vida. O trauma, para ela, não se limita ao acontecimento em si, mas se prolonga no tempo por meio de sintomas como dissociação, hipervigilância, vergonha, culpa e fragmentação da memória, configurando um estado duradouro de sofrimento psíquico (Herman, 1992/2015).
No artigo “Recuperação de trauma psicológico”, Herman começa apresentando uma visão ampla sobre o que constitui o trauma psicológico, destacando que ele não é apenas uma experiência interna isolada, mas algo que quebra e destrói as redes sociais e de apoio que sustentam a vida das pessoas, como segurança, sentido e conexão com os outros. Neste sentido, o trauma causa perda de poder e isolamento, deixando quem sofreu em um estado de vulnerabilidade profunda e desconexão. Para Herman, entender o trauma exige reconhecer essas rupturas sociais e emocionais que ultrapassam a simples manifestação de sintomas individuais.
A partir dessa base, Herman propõe que a recuperação não é um processo instantâneo, mas um caminho com fases claras, que começa pelo restabelecimento de um ambiente seguro onde a pessoa possa sentir controle e calma suficientes para começar a enfrentar o sofrimento. Em seguida, a recuperação envolve recontar e integrar a história traumática, permitindo que o sobrevivente reorganize a memória do evento de modo que ele perca o poder de dominar o presente. Esse processo de narrativa é um passo crucial para recuperar o senso de agência sobre a própria vida.
Por fim, Herman enfatiza que a cura também inclui a reconexão com outras pessoas e com a sociedade, restaurando a confiança e os vínculos que foram abalados pelo trauma. Isso pode significar fortalecer relações sociais, reintegrar-se a atividades da vida cotidiana e reconstruir um senso de significado e pertença. A autora também ressalta que o tratamento eficaz deve ser adaptado ao estágio em que a pessoa está no processo de recuperação, reconhecendo que diferentes fases exigem diferentes tipos de apoio e intervenções.
Para saber mais:
HERMAN, Judith Lewis. Trauma e recuperação: as consequências da violência – do abuso doméstico ao terror político. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
HERMAN, Judith L. Recovery from psychological trauma. Psychiatry and Clinical Neurosciences, v. 52, supl. 5, p. S145-S150, 1998. DOI: 10.1046/j.1440-1819.1998.0520s5S145.x