feminismo - sociologia

Mulheres que amaram mulheres

Entre os séculos XVIII e XIX, o avanço da industrialização e a expansão do comércio contribuíram para uma reorganização profunda da vida social, marcada por uma divisão rígida dos papéis de gênero. Consolidou-se, nesse período, a separação entre esfera pública e esfera privada: aos homens foi atribuído o espaço do trabalho remunerado, da política e da vida intelectual pública, enquanto às mulheres coube o confinamento ao lar, à maternidade e ao cuidado da família. Essa divisão, apresentada como natural, foi amplamente sustentada por discursos médicos, jurídicos e morais que reforçavam a ideia de uma feminilidade voltada à domesticidade e à dependência (Scott, 1995; Perrot, 2007).

Nesse contexto, a vida das mulheres passou a ser organizada em torno de relações intensas no espaço doméstico e comunitário. Limitadas em sua circulação social e excluídas de grande parte das experiências públicas, elas passaram a depender umas das outras para apoio emocional, companhia e reconhecimento. A convivência cotidiana favoreceu a formação de vínculos profundos entre mulheres, que muitas vezes assumiam contornos afetivos e românticos, ainda que nem sempre fossem nomeados ou compreendidos a partir das categorias contemporâneas de sexualidade (Faderman, 1981; Vicinus, 1992).

Essas relações, por vezes descritas como “amizades românticas”, eram socialmente toleradas justamente por estarem inscritas no universo feminino e doméstico, considerado dessexualizado ou moralmente seguro. No entanto, ao mesmo tempo em que eram permitidas, tais ligações revelam as formas pelas quais as mulheres encontraram brechas para construir intimidade, desejo e pertencimento em um mundo que restringia severamente suas possibilidades de autonomia individual e expressão afetiva (Foucault, 1988; Perrot, 2007).

Assim, a divisão sexual do trabalho e a separação entre público e privado não apenas organizaram as relações de gênero na modernidade industrial, mas também criaram condições específicas para o surgimento e a legitimação de vínculos afetivos intensos entre mulheres. Esses laços podem ser compreendidos como respostas históricas a um regime social que isolava as mulheres do espaço público, ao mesmo tempo em que as reunia e aproximava no interior da vida doméstica (Scott, 1995; Vicinus, 1992).

Para saber mais:
FADARMAN, Lillian. Surpassing the Love of Men: Romantic Friendship and Love Between Women from the Renaissance to the Present. New York: William Morrow, 1981.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.
SCOTT, Joan W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, v. 20, n. 2, 1995.
VICINUS, Martha. Intimate Friends: Women Who Loved Women, 1778–1928. Chicago: University of Chicago Press, 1992.



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