Entre os séculos XII e XI a.C., no contexto da formação da dinastia Zhou, surgiu na China o Livro das Mutações (I Ching), um dos textos mais antigos da tradição filosófica chinesa. A obra é tradicionalmente atribuída ao rei Wen de Zhou, que teria organizado os hexagramas enquanto estava preso, refletindo sobre a ordem do mundo, o destino humano e as leis da transformação. Embora os estudiosos reconheçam que o texto resultou de um longo processo coletivo, a figura do rei Wen permanece central como símbolo de sabedoria política, moral e espiritual na cultura chinesa (WILHELM, 2006; CHENG, 1997).
O I Ching é composto por sessenta e quatro hexagramas, formados pela combinação de linhas contínuas e interrompidas, que representam situações fundamentais da existência. Concebido como um oráculo, o livro não propõe previsões rígidas do futuro, mas orientações para a ação correta diante das mudanças. Seu uso divinatório está ligado à ideia de que a realidade é dinâmica e que o ser humano deve aprender a interpretar os sinais do tempo presente para agir em harmonia com o curso dos acontecimentos (WILHELM, 2006).
Mais do que um manual de adivinhação, o Livro das Mutações é compreendido como uma obra de profunda sabedoria ética. Ele descreve a conduta ideal do “homem superior” (junzi), entendido como aquele que age com retidão, prudência e sensibilidade às circunstâncias. Essa figura não é definida por posição social, mas pela capacidade de reconhecer o momento adequado de agir ou recuar, mantendo a integridade moral em meio às transformações. Assim, o I Ching ocupa um lugar central no pensamento chinês como um guia para a formação ética e para a compreensão do equilíbrio entre ação humana e ordem cósmica (CHENG, 1997; WILHELM, 2006).
Para saber mais:
CHENG, Anne. História do pensamento chinês. Petrópolis: Vozes, 1997.
WILHELM, Richard. I Ching: o livro das mutações. Tradução de Alayde Mutzenbecher. São Paulo: Pensamento, 2006.