Tales de Mileto inaugurou uma nova forma de pensar o mundo, que se afasta das explicações míticas e religiosas e busca um princípio racional para explicar a realidade. Tales viveu no século VI a.C., em Mileto, uma cidade comercial da Jônia, onde o contato com diferentes povos e saberes favorecia uma atitude mais investigativa diante da natureza. Em vez de explicar a origem do mundo por meio de deuses e narrativas míticas, ele procurou identificar um elemento fundamental, um arché, isto é, um princípio originário a partir do qual tudo se constitui (Aristóteles, 1998).
Ao eleger a água como esse princípio, Tales não estava apenas fazendo uma afirmação empírica simples, mas tentando compreender a lógica da transformação da natureza. A água lhe parecia essencial à vida, presente nos seres vivos e capaz de assumir diferentes formas — líquida, sólida ou gasosa —, o que a tornava um elemento adequado para explicar a multiplicidade das coisas. Além disso, Tales observava que as terras emergem e se dissolvem nas margens dos rios e mares, e acreditava que a própria Terra flutuava sobre a água, o que reforçava sua ideia de que esse elemento sustentava tudo o que existe (Kirk; Raven; Schofield, 2003).
O aspecto decisivo da contribuição de Tales está menos na escolha da água em si e mais no método que ele inaugura. Ao buscar uma causa natural, acessível à razão humana, para explicar a origem e o funcionamento do mundo, ele rompe com a dependência das explicações sobrenaturais. Esse gesto funda as bases do pensamento filosófico-científico ocidental, pois estabelece que a natureza pode ser compreendida por princípios racionais, observáveis e discutíveis, e não apenas aceitos pela tradição ou pela autoridade religiosa (Jaeger, 2001).
Portanto, quando se afirma que Tales “lançou as bases do pensamento filosófico-científico ocidental”, isso significa que ele introduziu uma atitude intelectual nova: a ideia de que o mundo possui uma ordem própria (phýsis) e que essa ordem pode ser investigada criticamente pela razão. Mesmo que suas conclusões sejam hoje consideradas cientificamente incorretas, seu modo de perguntar e de explicar representa um marco fundamental na história da filosofia e da ciência (Aristóteles, 1998; Jaeger, 2001).
Para saber mais:
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 1998.
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.