Com a Revolução Industrial, consolida-se um novo ethos moral que altera profundamente a forma como a prosperidade material é percebida no Ocidente. Diferentemente da tradição medieval católica, que frequentemente associava a riqueza ao risco moral e valorizava a renúncia e a salvação pela pobreza, o protestantismo, sobretudo em suas vertentes calvinistas e puritanas, passou a interpretar o sucesso econômico como possível sinal da bênção divina. Essa mudança não significou a exaltação do luxo ou do consumo, mas a valorização do trabalho disciplinado, racional e contínuo como vocação moral, isto é, como um chamado de Deus a ser cumprido no mundo (Weber, 2004).
Max Weber demonstra que, no interior da ética protestante, especialmente no calvinismo, a doutrina da predestinação produziu uma angústia existencial profunda: como não era possível saber quem estava salvo, os fiéis buscavam sinais de eleição divina na vida cotidiana. A prosperidade obtida por meio do trabalho árduo, da disciplina e da conduta moral passou a funcionar como um indício subjetivo dessa eleição. Assim, o enriquecimento deixou de ser visto com desconfiança, desde que não fosse acompanhado de ostentação ou prazer desmedido, e passou a ser compreendido como resultado legítimo de uma vida ordenada, racional e moralmente correta (Weber, 2004).
Esse ethos teve efeitos diretos sobre a formação do capitalismo moderno. A valorização do tempo como recurso moral (“tempo é dinheiro”, a condenação do ócio, o incentivo à poupança e à reinversão dos lucros criaram as condições culturais para o desenvolvimento de uma economia baseada na acumulação sistemática de capital. Diferentemente de formas anteriores de enriquecimento, ligadas ao saque, à herança ou ao privilégio, o capitalismo industrial se apoia em uma racionalidade econômica que exige planejamento, cálculo e autocontrole, disposições subjetivas que foram amplamente reforçadas pela ética protestante (Weber, 2004; Tawney, 1926).
Nesse contexto, a prosperidade não era celebrada como fim em si mesma, mas como consequência natural do cumprimento do dever. Paradoxalmente, esse ascetismo intramundano, que rejeitava o gozo imediato, acabou por alimentar uma lógica econômica expansiva e impessoal. Com o tempo, os fundamentos religiosos desse ethos se enfraqueceram, mas sua estrutura moral permaneceu ativa, transformando-se em uma ética secular do desempenho, da produtividade e do sucesso individual. É nesse sentido que Weber afirma que o capitalismo moderno sobrevive mesmo após o desaparecimento de suas raízes religiosas, funcionando como uma “gaiola de ferro” que organiza a vida social independentemente da fé (Weber, 2004; Giddens, 2005).
Assim, a Revolução Industrial não criou sozinha o capitalismo, mas encontrou um terreno cultural já preparado por esse novo modo de pensar o trabalho, a riqueza e a moralidade. A prosperidade deixou de ser suspeita e passou a ser moralmente legitimada, desde que vinculada à disciplina, à racionalidade e à responsabilidade individual, contribuindo decisivamente para a consolidação do capitalismo como sistema econômico e forma de vida (Weber, 2004; Tawney, 1926).
Para saber mais:
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
TAWNEY, R. H. Religion and the Rise of Capitalism. London: Penguin Books, 1926.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.