Durkheim estudou o suicídio como um fato social, isto é, como um fenômeno coletivo que não pode ser explicado apenas por motivações individuais, psicológicas ou biológicas. Em O suicídio (1897), ele parte de uma crítica direta às interpretações moralistas e médicas de sua época, afirmando que, embora o ato seja cometido por um indivíduo, suas causas profundas estão nas formas como a sociedade se organiza, integra e regula a vida dos sujeitos (Durkheim, 2000).
Para sustentar essa tese, Durkheim adotou um método rigorosamente sociológico. Ele analisou estatísticas oficiais de diferentes países e grupos sociais, comparando taxas de suicídio segundo religião, estado civil, gênero, períodos históricos e contextos econômicos. O ponto central de sua análise foi demonstrar que as taxas de suicídio apresentam regularidade e estabilidade ao longo do tempo, variando conforme condições sociais específicas, o que indica que o suicídio não é um fenômeno aleatório ou puramente individual, mas socialmente condicionado (Durkheim, 2000).
A partir desses dados, Durkheim formulou sua tipologia clássica do suicídio, baseada em dois eixos fundamentais: o grau de integração social e o grau de regulação social. O suicídio egoísta ocorre quando há baixa integração do indivíduo aos grupos sociais, como na fragilização dos vínculos familiares, religiosos ou comunitários. O suicídio altruísta aparece em contextos de integração excessiva, nos quais o indivíduo se anula em favor do coletivo, como em sociedades tradicionais ou militares. Já o suicídio anômico resulta da insuficiência de regulação social, especialmente em períodos de crise econômica ou mudanças rápidas, quando as normas perdem sua força orientadora. Por fim, o suicídio fatalista, menos desenvolvido por Durkheim, decorre do excesso de regulação, quando a vida do indivíduo é rigidamente controlada e o futuro aparece como bloqueado (Durkheim, 2000).
Um aspecto central da abordagem durkheimiana é a noção de que a sociedade exerce uma força moral sobre os indivíduos. Quando essa força falha (seja por falta ou por excesso), aumenta a probabilidade de comportamentos autodestrutivos. Assim, o suicídio funciona como um indicador sensível do grau de coesão e equilíbrio moral de uma sociedade, revelando suas tensões internas e suas formas de sofrimento coletivo (Aron, 2002).
Ao estudar o suicídio dessa maneira, Durkheim não buscava minimizar o sofrimento individual, mas deslocar o olhar para as condições sociais que o produzem. Seu trabalho inaugura uma sociologia que assume a responsabilidade de compreender fenômenos íntimos a partir das estruturas sociais, mostrando que até mesmo o gesto mais solitário pode ser socialmente determinado (Giddens, 2005).
Para saber mais:
ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1897].
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.