Nas redes sociais, em grande parte, buscamos reconhecimento, pertencimento e sentido. Mais do que likes ou seguidores, o que está em jogo é o desejo humano de ser visto, validado e confirmado na própria existência, uma existência que é tão incerta e sem respostas definitivas. Curtidas, comentários e compartilhamentos funcionam como pequenos sinais de aceitação social, ativando a sensação de que fazemos parte de algo maior e de que nossa presença importa.
Também buscamos construir e sustentar uma narrativa sobre quem somos ou gostaríamos de ser. As redes oferecem um espaço onde organizamos a nossa própria imagem, selecionamos o que mostrar e silenciar, tentando reduzir inseguranças e aumentar a sensação de valor pessoal. Ao mesmo tempo, esse ambiente intensifica comparações e expectativas, o que pode gerar ansiedade e vazio quando o reconhecimento externo não vem. No fundo, as redes escancaram uma busca antiga: conexão, afeto e significado: só que mediada por telas, algoritmos e métricas.
Do ponto de vista sociológico, a busca por reconhecimento nas redes sociais pode ser entendida como uma intensificação de dinâmicas que já estruturam a vida social moderna. Erving Goffman mostrou que o convívio humano se organiza como uma encenação cotidiana, na qual os indivíduos administram impressões para serem aceitos e reconhecidos pelos outros. Nas redes, esse “palco” se expande e se torna permanente: estamos sempre em cena, escolhendo o que mostrar, o que ocultar e como narrar a nós mesmos, agora sob a mediação de imagens, métricas e algoritmos. A diferença é que, no ambiente digital, o reconhecimento deixa de ser apenas simbólico e passa a ser quantificado, o que intensifica a ansiedade e a vigilância sobre o próprio desempenho social.
Pierre Bourdieu contribui para essa análise ao mostrar que o reconhecimento social não é neutro, mas funciona como capital simbólico. Curtidas, seguidores e visibilidade operam como formas contemporâneas de prestígio, capazes de produzir distinção e valor social, mesmo fora dos circuitos tradicionais de poder. Assim, as redes não são apenas espaços de expressão individual, mas campos de disputa por legitimidade, atenção e status, nos quais determinados corpos, estilos de vida e discursos ganham mais valor do que outros (Bourdieu, 1989). Isso ajuda a compreender por que as redes tanto seduzem quanto ferem: nelas, o olhar do outro se transforma em medida de valor.
Zygmunt Bauman amplia essa reflexão ao situar as redes no contexto da modernidade líquida, marcada por relações frágeis, rápidas e facilmente descartáveis. Em um mundo onde os vínculos são instáveis e o sentimento de pertencimento é constantemente ameaçado, as redes oferecem um reconhecimento imediato, porém superficial. Elas prometem conexão, mas muitas vezes entregam apenas visibilidade; prometem pertencimento, mas reforçam a solidão quando o retorno esperado não vem (Bauman, 2001). Assim, o engajamento constante pode funcionar como uma tentativa de preencher inseguranças identitárias produzidas por uma sociedade que valoriza desempenho, exposição e consumo.
Desse modo, o que buscamos nas redes sociais não é apenas atenção individual, mas uma resposta coletiva a um contexto social que fragiliza o reconhecimento profundo e duradouro. As redes tornam visível uma necessidade humana fundamental, ser visto, validado e incluído, ao mesmo tempo em que a submetem à lógica da comparação, da velocidade e da mercantilização do eu. Elas revelam, portanto, menos sobre vaidade individual e mais sobre as condições sociais contemporâneas que transformaram o reconhecimento em um bem escasso, instável e permanentemente negociado.
Para saber mais:
GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1959.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.