Envelhecer, na nossa cultura, costuma ser vivido de forma ambígua e muitas vezes dolorosa. Por um lado, o discurso oficial afirma que envelhecer é um privilégio, sinal de experiência, sabedoria e sobrevivência; por outro, as práticas sociais insistem em associar a velhice à perda, à inutilidade e à obsolescência. Em uma sociedade profundamente marcada pelo culto à juventude, à produtividade e à velocidade, envelhecer passa a significar sair de cena, tornar-se menos visível e menos desejável, tanto no mercado de trabalho quanto nas relações afetivas e nos espaços públicos. O corpo envelhecido, sobretudo, é lido como um corpo que falha, que não corresponde mais aos ideais de desempenho, beleza e autonomia impostos pela lógica capitalista e midiática (Bauman, 2001; Byung-Chul Han, 2015).
Essa experiência não é homogênea: envelhecer é atravessado por gênero, classe, raça e território. Para as mulheres, por exemplo, o envelhecimento costuma ser acompanhado de uma penalização simbólica mais severa, já que a feminilidade ainda é fortemente vinculada à juventude e à aparência física. Enquanto homens maduros podem ser associados à autoridade e ao prestígio, mulheres envelhecidas tendem a ser empurradas para a invisibilidade ou infantilizadas (Beauvoir, 1970). Do mesmo modo, envelhecer em contextos de desigualdade social significa carregar no corpo as marcas de uma vida inteira de precariedade, trabalho exaustivo e acesso limitado a direitos, o que revela que a velhice não é apenas um fenômeno biológico, mas uma construção social profundamente política (Bourdieu, 1997).
Ao mesmo tempo, nossa cultura contemporânea tenta domesticar o envelhecimento por meio de uma promessa de “juventude prolongada”, incentivando práticas de autocontrole, medicalização e consumo incessante. Envelhecer bem passa a ser quase uma obrigação moral: é preciso envelhecer sem parecer velho, manter-se ativo, produtivo, saudável e otimista, como se o declínio fosse uma falha individual e não uma condição humana inevitável (Foucault, 2008). Esse imperativo transforma a velhice em mais uma etapa a ser gerida, corrigida e otimizada, apagando o direito ao cansaço, à lentidão e à dependência.
Apesar disso, envelhecer também pode carregar uma potência crítica. Ao confrontar os limites do corpo, do tempo e da finitude, a velhice desafia os mitos centrais da nossa cultura, como a ilusão de controle absoluto e a negação da morte. Envelhecer pode abrir espaço para outras formas de existir, de desejar e de se relacionar com o mundo, menos orientadas pela performance e mais pela experiência, pela memória e pelo cuidado. Nesse sentido, ressignificar o envelhecimento implica deslocá-lo do lugar da perda para o campo da transformação, reconhecendo-o como uma etapa legítima da vida, atravessada por fragilidades, mas também por saberes, afetos e formas singulares de resistência (Simone de Beauvoir, 1970; Elias, 1982).
Para saber mais:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1970.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1997.
ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978–1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.