Christophe Dejours é um psiquiatra e psicanalista francês que se tornou uma das principais referências no estudo da relação entre trabalho e saúde mental. Em sua obra mais conhecida, A loucura do trabalho, ele parte de uma pergunta fundamental: como o trabalho pode, ao mesmo tempo, produzir sofrimento intenso e adoecimento psíquico, mas também ser uma fonte de prazer, identidade e equilíbrio mental? A resposta de Dejours rompe com a ideia simples de que o trabalho é apenas algo que faz mal ou apenas algo que realiza o sujeito.
No início de suas pesquisas, Dejours se dedicava a estudar as doenças mentais relacionadas ao trabalho, como depressão, ansiedade, esgotamento e outras formas de sofrimento psíquico. No entanto, ao observar a realidade concreta dos trabalhadores, ele percebeu algo decisivo: muitas pessoas são submetidas a condições duras, injustas ou desgastantes e, ainda assim, não adoecem mentalmente. Isso o levou a uma mudança de foco. Em vez de perguntar apenas por que o trabalho adoece, ele passou a investigar como os trabalhadores conseguem continuar trabalhando sem enlouquecer.
A partir daí, Dejours desenvolveu a noção de que existe sempre um hiato entre o trabalho prescrito (aquilo que está nas normas, nos manuais e nas ordens da organização) e o trabalho real, que é o que o trabalhador efetivamente faz para dar conta das exigências concretas da atividade. Esse espaço entre o prescrito e o real é inevitável e exige do sujeito criatividade, inteligência prática, improvisação e envolvimento subjetivo. É justamente aí que surge tanto o sofrimento quanto a possibilidade de prazer.
O sofrimento, para Dejours, não é automaticamente patológico. Ele faz parte da experiência de trabalhar, porque o trabalho impõe limites, frustrações, riscos e conflitos. O ponto decisivo é o destino desse sofrimento. Quando o trabalhador consegue transformar o sofrimento em algo suportável e reconhecido (por meio de estratégias individuais e coletivas, do reconhecimento dos colegas e da utilidade social do que faz) esse sofrimento pode se converter em prazer, orgulho e fortalecimento da identidade. Quando isso não acontece, quando o sofrimento é negado, silenciado ou vivido de forma solitária, ele tende a se transformar em adoecimento psíquico.
Por isso, Dejours passa a estudar as chamadas estratégias defensivas, que são formas coletivas e individuais que os trabalhadores criam para se proteger psiquicamente das pressões do trabalho. Essas estratégias não eliminam o sofrimento, mas permitem que ele seja mantido dentro de limites toleráveis. O problema é que, em contextos de organização do trabalho muito rígidos, competitivos ou desumanizantes, essas defesas podem se romper, deixando o sujeito exposto ao adoecimento.
Em síntese, para Dejours, o trabalho não é em si nem bom nem mau para a saúde mental. Ele é um espaço de tensão permanente entre sofrimento e prazer. O que define se o trabalho vai enlouquecer ou equilibrar o sujeito é a forma como ele é organizado, o grau de autonomia permitido, a possibilidade de cooperação e, sobretudo, o reconhecimento simbólico do esforço e da contribuição do trabalhador.
Para saber mais:
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
DEJOURS, Christophe. Trabalho vivo: trabalho e emancipação. Brasília: Paralelo 15, 2012.