Em condições normais, a audição começa quando as ondas sonoras entram pelo ouvido externo e fazem o tímpano vibrar. Essas vibrações são transmitidas e amplificadas pelos ossículos do ouvido médio até chegarem à cóclea, uma estrutura do ouvido interno responsável por transformar o movimento mecânico do som em impulsos elétricos. Esses impulsos seguem pelo nervo auditivo até o cérebro, alcançando o córtex auditivo, localizado no lobo temporal, onde o som é reconhecido, diferenciado e interpretado como uma voz, um ruído ou uma música.
Nas alucinações auditivas, esse circuito é ativado de maneira atípica. Em vez de o estímulo sonoro vir do ambiente externo, o próprio cérebro passa a gerar a experiência auditiva internamente. Estudos de neuroimagem mostram que, quando uma pessoa relata estar ouvindo vozes, o córtex auditivo apresenta níveis de ativação semelhantes aos observados quando ela está realmente escutando um som externo. Isso ajuda a explicar por que essas vozes são vividas como reais, claras e externas, e não como simples pensamentos (Allen et al., 2008).
Além disso, costuma haver uma hiperatividade nas regiões temporais associadas à linguagem e à percepção auditiva, combinada com falhas no funcionamento do córtex pré-frontal. O córtex pré-frontal exerce um papel de monitoramento da realidade, ajudando a distinguir entre aquilo que é produzido internamente (como pensamentos, lembranças ou imaginação) e aquilo que vem do mundo externo. Quando esse controle está enfraquecido, o cérebro pode atribuir origem externa a conteúdos internos, fazendo com que pensamentos ou falas internas sejam percebidos como vozes alheias (Jardri et al., 2011).
Do ponto de vista da experiência subjetiva, as vozes costumam ter características bem definidas: podem soar masculinas ou femininas, conhecidas ou desconhecidas, próximas ou distantes. Muitas vezes, comentam ações, fazem críticas, dão ordens ou emitem julgamentos. O impacto emocional dessas experiências é significativo. Quando as vozes são hostis ou ameaçadoras, podem gerar medo, ansiedade, culpa ou confusão intensa; em outros casos, podem ser percebidas como protetoras ou reconfortantes, o que mostra que o conteúdo emocional das alucinações está profundamente ligado à história psíquica do indivíduo (Bentall, 2003).
Em síntese, as alucinações auditivas não são um “ouvir imaginário”, mas o resultado de uma ativação real dos circuitos cerebrais da audição, combinada a alterações nos sistemas que monitoram a origem das experiências mentais. Por isso, para quem as vivencia, as vozes possuem presença, identidade e força emocional comparáveis às de um som real vindo do ambiente.
Para saber mais:
Allen, P. et al. Neural correlates of the misattribution of speech in schizophrenia. British Journal of Psychiatry, v. 192, p. 178–186, 2008.
Jardri, R. et al. The neural bases of auditory verbal hallucinations in schizophrenia. The Lancet Psychiatry, v. 1, p. 79–89, 2011.
Bentall, R. P. Madness explained: Psychosis and human nature. London: Penguin Books, 2003.