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O que acontece nas alucinações visuais?

Em condições normais, a visão começa quando a luz refletida pelos objetos entra nos olhos e atinge a retina. Nela existem células sensoriais especializadas, os bastonetes e os cones, que não “veem” imagens prontas, mas convertem a energia luminosa em sinais elétricos. Esses sinais seguem pelo nervo óptico até o córtex visual primário, localizado no lobo occipital, onde ocorre o processamento mais básico da visão, como contornos, contrastes, cores e movimento. A partir daí, a informação visual se distribui para outras regiões do cérebro. O lobo temporal participa do reconhecimento do que está sendo visto, como identificar um rosto ou um objeto familiar, enquanto o lobo parietal contribui para a percepção espacial e para a integração da imagem com o corpo e o ambiente. É essa rede articulada que permite não apenas “ver”, mas compreender o que se vê.

Nas alucinações visuais, esse processo se altera de forma significativa. Em vez de a imagem começar no mundo externo, o próprio cérebro passa a gerar imagens internamente. O ponto crucial é que o córtex visual pode ser ativado mesmo na ausência de estímulo luminoso real, funcionando como se estivesse recebendo informações vindas dos olhos. Estudos de neuroimagem mostram que, durante alucinações, áreas visuais do cérebro apresentam padrões de ativação semelhantes aos observados quando a pessoa está realmente olhando para algo, o que explica por que a experiência é tão vívida e convincente para quem a vivencia (Silbersweig et al., 1995).

Além disso, entra em cena o papel do sistema dopaminérgico. A dopamina está envolvida na atribuição de relevância e significado às experiências. Quando esse sistema está hiperativo, como ocorre em alguns transtornos psicóticos, o cérebro passa a atribuir um “peso de realidade” excessivo a conteúdos internos, como imagens mentais, pensamentos ou sensações. Assim, aquilo que normalmente seria reconhecido como imaginação ou lembrança é vivido como algo externo, real e inquestionável. Esse mecanismo ajuda a explicar por que as alucinações não são percebidas como falsas pelo indivíduo, mas como algo que efetivamente está acontecendo no mundo (Howes & Kapur, 2009).

Em síntese, a alucinação visual não é simplesmente “imaginar demais”, mas um fenômeno neurobiológico complexo em que áreas cerebrais responsáveis pela visão são ativadas sem estímulo externo, enquanto sistemas de atribuição de significado reforçam a sensação de realidade. O resultado é uma experiência visual subjetivamente real, embora não corresponda a algo presente no ambiente.

Para saber mais:
Silbersweig, D. A. et al. A functional neuroanatomy of hallucinations in schizophrenia. Nature, v. 378, p. 176–179, 1995.
Howes, O. D.; Kapur, S. The dopamine hypothesis of schizophrenia: version III. Schizophrenia Bulletin, v. 35, n. 3, p. 549–562, 2009.



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