Do ponto de vista das neurociências, a criação artística é entendida como um processo complexo que emerge da interação entre diferentes sistemas cerebrais responsáveis pela percepção, emoção, memória, imaginação e controle cognitivo. Não existe um “centro da arte” no cérebro; o que há é uma coordenação dinâmica entre redes neurais que permitem ao ser humano transformar experiências internas e estímulos do mundo em formas simbólicas, como imagens, sons, gestos e palavras.
A criação de uma obra de arte começa, em geral, com a ativação de sistemas perceptivos e associativos. Áreas sensoriais do cérebro processam cores, sons, ritmos ou palavras, enquanto regiões associativas integram essas percepções a memórias, experiências passadas e conteúdos emocionais. O hipocampo e outras estruturas relacionadas à memória permitem que o artista recombine lembranças e vivências de maneira não literal, favorecendo a imaginação e a metáfora. Ao mesmo tempo, o sistema límbico, especialmente estruturas como a amígdala, participa da carga afetiva da criação, conferindo intensidade emocional à obra e motivando o impulso criativo (Kandel, 2012).
Outro aspecto central é o funcionamento do chamado sistema de recompensa. Durante a atividade criativa, há ativação de circuitos dopaminérgicos ligados ao prazer, à curiosidade e à motivação, o que explica a sensação de envolvimento profundo e, por vezes, de entusiasmo intenso durante o processo artístico. Essa liberação de dopamina não apenas gera prazer, mas também sustenta a persistência, permitindo que o indivíduo permaneça longos períodos explorando ideias, experimentando formas e refinando a obra (Zeki, 2009).
As neurociências também destacam o papel da interação entre dois grandes modos de funcionamento cerebral. De um lado, redes mais associadas ao pensamento espontâneo e à imaginação favorecem a livre associação de ideias, a introspecção e a produção de imagens mentais. De outro, regiões do córtex pré-frontal estão ligadas ao controle executivo, à organização, à avaliação estética e à tomada de decisões conscientes. A criação artística ocorre justamente na alternância e no equilíbrio entre esses dois modos: liberdade imaginativa e controle formal. Quando esse diálogo funciona bem, o sujeito consegue inovar sem perder coerência e expressividade (Beaty et al., 2016).
Além disso, as neurociências contemporâneas reconhecem que a arte não é apenas um produto individual, mas um fenômeno profundamente enraizado na biologia social do ser humano. O cérebro humano evoluiu em contextos de interação simbólica, e a capacidade de criar arte está ligada à comunicação, à empatia e à partilha de significados. Ao criar uma obra, o artista mobiliza circuitos neurais relacionados à compreensão do outro, antecipando a recepção, o impacto emocional e o sentido que aquela forma pode produzir em quem a experiencia (Damasio, 2010).
Assim, do ponto de vista neurocientífico, criar arte é um modo sofisticado de integração entre emoção, cognição e corpo. A obra de arte surge quando o cérebro humano consegue transformar afetos, memórias e percepções em estruturas simbólicas organizadas, capazes de comunicar experiências que muitas vezes não poderiam ser expressas de forma puramente conceitual. A arte, nesse sentido, não é um excesso supérfluo da mente humana, mas uma das expressões mais complexas e refinadas de seu funcionamento.
Para saber mais:
Kandel, E. R. The age of insight: the quest to understand the unconscious in art, mind, and brain. New York: Random House, 2012.
Zeki, S. Splendors and miseries of the brain: love, creativity, and the quest for human happiness. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.
Beaty, R. E. et al. Creativity and the default mode network: a functional connectivity analysis of the creative brain. Neuropsychologia, v. 64, p. 92–98, 2016.
Damasio, A. Self comes to mind: constructing the conscious brain. New York: Pantheon Books, 2010.