filosofia - psicologia

O que é o dáimon?

Na filosofia de Platão, o daimón não é um demônio no sentido cristão posterior, mas uma entidade intermediária entre os deuses e os seres humanos. Enquanto os deuses são perfeitos, imortais e plenamente realizados, e os homens são mortais, carentes e imperfeitos, o daimón ocupa um lugar intermediário, funcionando como mediador entre o mundo divino e o humano. É por meio dele que se dá a comunicação entre os dois planos, seja por oráculos, inspirações, sonhos ou impulsos espirituais (PLATÃO, O Banquete).

Platão associa diretamente essa função intermediária ao Éros (Amor). No discurso de Diotima de Mantinéia, apresentado por Sócrates em O Banquete, Éros é descrito como um daimón, e não como um deus. Isso porque o Amor não é plenamente belo nem plenamente bom: ele é desejo da beleza e do bem, e só deseja aquilo que não possui. Éros nasce da união entre Penia (Pobreza) e Poros (Recurso), o que explica sua natureza ambígua: carente, inquieto, sempre em busca, mas também inventivo e impulsionador. Ele se move exatamente no espaço entre o mundo sensível (das coisas mutáveis e imperfeitas) e o mundo inteligível (das Ideias eternas), sendo a força que conduz a alma de um ao outro (PLATÃO, O Banquete, 203b–204c).

Nesse sentido, o daimón representa a própria dinâmica do desejo humano: não somos deuses, mas também não estamos condenados à pura animalidade. Somos seres de falta que podem aspirar ao que transcende. Éros, como daimón, é o princípio que move a alma em direção ao Bem, à Beleza e à Verdade, estabelecendo uma ponte entre o finito e o infinito.

Como observa Giovanni Reale, o amor em Platão não deve ser compreendido no sentido moderno, psicológico ou sentimental. Ele não é primariamente uma emoção subjetiva, mas uma força ontológica e cósmica, responsável por tudo aquilo que tende à plenitude. Amar é desejar o que falta, e, no limite, desejar a imortalidade, seja pela geração dos corpos, seja pela geração das virtudes, das leis, do conhecimento e da contemplação do Bem em si. Assim, o amor é o motor da filosofia: o filósofo é aquele que, movido por Éros, sabe que não sabe e, justamente por isso, busca (REALE, 2002).

Para saber mais:
PLATÃO. O Banquete. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 2001.
REALE, Giovanni. História da filosofia antiga: Platão e Aristóteles. São Paulo: Paulus, 2002.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
(Verbetes: “Éros”, “Daimon”, “Platão”).



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