neuropsicologia - psicanálise

O que é o ato falho?

Na psicanálise freudiana, o ato falho (Fehlleistung) não é um simples erro casual, mas uma formação do inconsciente. Em obras como A psicopatologia da vida cotidiana, Freud sustenta que esquecimentos de nomes, trocas de palavras, lapsos de memória e pequenos enganos obedecem a uma lógica psíquica. Eles ocorrem porque conteúdos reprimidos (desejos, afetos ou pensamentos incompatíveis com o eu consciente) encontram uma via indireta de expressão. Por isso, Freud afirma que nada na vida psíquica é acidental: mesmo o erro tem sentido, pois resulta de um conflito entre a intenção consciente e uma força inconsciente que a perturba (FREUD, 1901/2019).

Nessa perspectiva, o sujeito não é senhor de si, mas atravessado pelo inconsciente. Quando alguém diz ou faz algo que o surpreende e afirma “acho que não fui eu”, a psicanálise responderia que foi, sim, o sujeito, mas não o eu consciente, e sim o eu inconsciente, que se manifesta apesar das defesas. O ato falho revela justamente essa divisão do sujeito: aquilo que ele não quer saber de si retorna sob a forma de lapso, engano ou esquecimento. Como formula Freud, o ato falho é um compromisso entre o que se quer dizer e o que se quer esconder (FREUD, 1901/2019).

Já a neurociência cognitiva explica os atos falhos de maneira distinta, sem recorrer à noção de inconsciente reprimido. Para essa abordagem, lapsos ocorrem devido a falhas nos mecanismos automáticos de controle cognitivo, especialmente em situações de sobrecarga mental, fadiga, estresse ou distração. O cérebro opera por meio de múltiplas redes neuronais que funcionam em paralelo; quando duas respostas possíveis são ativadas ao mesmo tempo (por exemplo, duas palavras semelhantes ou dois planos de ação concorrentes) pode ocorrer interferência, levando ao erro (KANDEL et al., 2014).

Segundo essa visão, o ato falho não expressa um desejo oculto, mas resulta da competição entre processos neurais e da limitação da atenção e da memória de trabalho. A pessoa erra não porque algo reprimido “quer falar”, mas porque o sistema cognitivo prioriza automaticamente uma resposta inadequada naquele contexto específico. Assim, o erro é explicado em termos de funcionamento cerebral, e não de sentido simbólico (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005).

Em síntese, enquanto a psicanálise interpreta o ato falho como uma mensagem do inconsciente, dotada de significado subjetivo e ligada à história do sujeito, a neurociência o compreende como um efeito funcional do cérebro, resultado de limites atencionais e conflitos entre processos cognitivos. As duas abordagens não falam exatamente do mesmo objeto: uma busca sentido, a outra busca mecanismo.

Referências bibliográficas:
FREUD, Sigmund. A psicopatologia da vida cotidiana (1901). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo e outros textos (1914). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KANDEL, Eric R. et al. Princípios de neurociência. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.
GAZZANIGA, Michael S.; HEATHERTON, Todd F. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.



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