Delíricos de Maria Flor

“Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me impressiona.”
(Clarice Lispector)

Primeira parte

Todos os dias, eu almoçava com um homem que abaixava o seu olhar sobre o prato, enquanto pedaços dos seus pensamentos iam se empilhando sobre a comida. E mesmo quando Paulo erguia os olhos e me elogiava, alguma coisa se esvaía pelas fendas do garfo. Depois, quase ao mesmo tempo, nós rasgávamos um pedaço de pão com a ponta dos dedos, para umedecê-lo no molho sobre o fundo do prato, mas até quando os nossos olhos se encontravam, alguma coisa se perdia junto aos farelos de pão – os farelos que eu recolhia da mesa, com todo o cuidado, para alimentar os pássaros no quintal.

Todas as noites, eu jantava com um homem que assoprava o silêncio na quentura da sopa, recolhendo das bordas o punhado mais frio. E mesmo quando Paulo erguia os olhos e me elogiava, alguma coisa evaporava do fundo do prato. Depois, quase ao mesmo tempo, nós procurávamos um guardanapo para limpar o sorriso no canto dos lábios, e quase sempre conseguíamos, recolhendo das bordas o punhado mais frio. E até quando ele erguia os olhos e me elogiava, alguma palavra se esmagava entre os dentes de trás.

Mas não era culpa dele e nem era culpa minha. Era a distância na mesa entre os farelos de pão. Era o vento levando a farinha de trigo da mesa. Era o grão que o tempo roubou da colheita, deixando secar sob o sol. Eram as flores secas enfeitando aquela ceia. Era eu, sentada num dos cantos da loucura, e Paulo no outro: o da solidão.

Sobretudo, eram os silêncios que nos traziam lembranças antigas. Lembranças de pássaros, amoras, vinhedos, brinquedos e de chuvas esquecidas. Era o invisível entre as duas cadeiras. Era a nossa existência, sempre um pouco só. E foi por ela que, um dia, eu abri as janelas do meu quarto, e algumas cartas clandestinas eu comecei a escrever. Eram cartas para os desconhecidos, mas, sobretudo, eram cartas para Paulo, que eu espalhava por toda São Paulo, para todos os Paulos que existiam no mundo.
Eu precisava de escrever cartas porque, naquela casa, não havia ninguém a quem emprestar o meu silêncio: era um silêncio que ninguém ouvia. Era o mesmo silêncio da mesa, do banco, da estante, o mesmo silêncio das poeiras no chão. Ninguém mais se surpreendia com o silêncio das coisas porque elas eram feitas para serem mudas, mas ali, naquela cozinha, eu era feita do mesmo silêncio das coisas, e tinha medo de: não-ser.

Tinha medo de empenar. Medo de ser atravessada por um fiozinho de gotas que ninguém mais veria. Medo de enferrujar os meus dedos na garoa tão fina de São Paulo. Medo das poeiras que viriam pousar bem de leve em meus ombros, e ninguém viria espanar. Medo de que as teias de aranha se enroscassem em meus cabelos, levando os meus pensamentos com elas, presos como um mosquito. E medo até do que o vento poderia levar bem devagarinho. Eu tinha medo de tudo. Eu tinha medo das árvores que cresciam para ninguém. Tinha medo do cachorro cego que tinha o dom para ser comum. Tinha medo das traças que comiam o silêncio das palavras escritas. Há alguns meses, eu tinha medo de tudo, mas tinha medo, sobretudo, de enlouquecer. De alguma forma, eu tinha me preparado para isso e, finalmente, estava pronta para que o nada jamais acontecesse. Era preciso estar preparada, era preciso sublimar-me, pois eu já tinha nascido, e agora o mundo era um útero largo demais.

Mas, às vezes, eu tinha o espanto do estreito: o de colher uma flor no meu jardim e guardá-la num copo com água, em cima da mesa, só para não morrê-la. Ah, o modo como eu olhava aquela flor… era como se eu estivesse mentindo, garantindo à flor que o raso de um copo d’água seria suficiente para revivê-la. Mas, no fundo, eu sabia: eu a tinha trazido, eu a tinha tomado para mim, apesar de todo sol lá fora, apesar de toda a terra no jardim. Era isso o que, impunemente, eu fazia todas as tardes antes de antever as estrelas.

Mas, naquela noite, depois de escutar vozes o dia inteiro, eu abri a gaveta da escrivaninha para pegar um estilete, e encontrei um caderno vazio. As páginas estavam um pouco amareladas, e havia poeira sobre a capa vermelha. Então, fiquei olhando para o estilete, depois para o caderno, depois para o estilete, e ponderei que, ao invés de cortar os meus pulsos e colocar um fim à minha vida, eu poderia escrever os meus pensamentos naquelas linhas. Pelo menos, até que o caderno acabasse.

Ainda assim, eu peguei o estilete, observei atentamente a lâmina que brilhava e, no seu reflexo distorcido, enxerguei o meu rosto pálido, as olheiras profundas, as pálpebras inchadas de tanto chorar, os meus cabelos negros, lisos e compridos, desgrenhados até a cintura. Então, com a mão ainda tremente, eu apertei o meu pulso enfraquecido e me perguntei: para onde eu queria me esvair? Até onde eu poderia escrever uma carta? Qual era a distância segura entre as palavras e o corpo? Ou entre os textos e a pele? Ou entre os tecidos e as teias? Que entre os meus olhos e os olhos de Paulo existia uma carta secreta que eu não podia abrir, e tinha medo; pois como deixar que ele enrolasse de volta as minhas linhas sem junto embaralhar as minhas veias? – eu me perguntava, um tanto confusa.

Desde que eu começara a enlouquecer, eu sentia as veias embaralhadas. E, naquele dia, a cada linha que eu escrevia, eu sentia as veias se embaralharem ainda mais. Primeiro, senti um certo formigamento nos pés. Depois, algum inchaço nas pernas. Ao final, comecei a observar pequenas linhas coloridas marcando a pele. Eram linhas que formavam frases compridas ao redor do meu corpo, feito mapas que me conduziam aos lugares mais ermos de mim mesma. Então, esfreguei a superfície da pele com álcool e água sanitária, lavei-a com água e sabão, mas nada: as palavras continuavam intactas.

Se a minha avó ainda estivesse viva, eu poderia mostrar-lhe o emaranhado de frases que se formava sobre a minha pele. E minha avó, certamente, diria apenas que as desembaraçasse porque o dia do juízo final estava para chegar. Havia algum tempo, ela não se assustava com mais nada do que eu dizia, mesmo se fossem absurdos, como se o seu passado também fosse inventado. Ela apenas concordava e me trazia soluções que eu não sabia mais como colocar em prática. Mas ali, eram tantas e tão embaralhadas linhas, que eu não distinguia mais o começo de uma ou o final da outra: e me cansei de ser.

Então, mostrei-as para Paulo, que se preparava para dormir ao meu lado, mas ele disse que não estava vendo frase alguma. Por isso, depois que ele se deitou na cama, eu fui até a sala, sentei-me no chão, encostada à parede e, com a cabeça entre as pernas, comecei a chorar. Enquanto eu pensava que estava realmente enlouquecendo, e que minha avó não estava mais por perto para reduzir o mundo às palmas de suas mãos, eu lambia as lágrimas que escorriam pela minha face, manchando a língua de tristezas. Você sabe: quando o vazio é muito grande, as lágrimas são transparentes.

Em seguida, decidi que, ao invés de cortar os meus pulsos e colocar um fim à minha vida, eu poderia pegar algumas daquelas frases e escrever cartas aos desconhecidos. Depois, eu poderia deixar essas cartas por aí: no metrô, no cinema, nos sebos e livrarias, nos museus e galerias de arte, nos cafés, nos ônibus, nos bancos das praças.

Não sei bem o que se passou comigo, mas senti o meu coração pulsar com força, a minha caixa torácica atravessada por mil pássaros, e decidi que escreveria qualquer coisa que viesse à minha mente, apenas para me manter viva e organizar os meus pensamentos, apenas para ter um corpo que abrigasse a minha mente. Então, quando eu chegasse à última linha daquele caderno, o tempo teria passado e, com mais calma, provavelmente, eu teria chegado a uma boa conclusão sobre minha vida: se ela valia a pena ser vivida ou não. Isto é: se, antes disso, eu não enlouquecesse por completo.

E porque uma das vozes que eu escutava não parava de me chamar de louca, e de me chamar, e de me chamar, eu tive vontade de gritar bem alto. Mas, como Paulo estava dormindo no quarto, eu não disse nada e também nada escrevi. Apenas olhei aquele emaranhado de palavras sobre a minha pele e suspirei. Algumas frases tinham o poder da folha em branco. Quando uma delas me acertou, eu abandonei todas as minhas respostas, pois era inútil escrever de branco sobre as folhas brancas, como eu vinha fazendo nos últimos dias. Você sabe: só o vento, quando escrito, ficava nas folhas em branco.

Depois, quando a minha caneta transparente estourou frases dentro da bolsa: foi um grande silêncio. Eu até me assustei. Então, esperei qualquer coisa sumir, alguma ideia aparecer, o vento passar… mas nada. Sem que eu fizesse coisa alguma, sem que eu gritasse, sem que eu discutisse com as vozes, sem que eu acordasse Paulo, eu escutei o silêncio. Por alguns minutos, escutei as aranhas tecendo os fios atrás do armário; escutei o sol evaporando as poças do chão, no outro lado do mundo; escutei as plantas; escutei o meu sangue correndo por dentro das veias; escutei a lagarta roendo as folhas das árvores; escutei as nuvens se movendo no céu; escutei o movimento dos planetas no espaço; escutei as poeiras pousando no chão; escutei os olhos lânguidos dos pássaros; escutei as pausas dentro dos compassos; escutei até mesmo as pausas dentro do próprio silêncio. Enfim, eu escutei o silêncio do mundo.

Então, fui até o canto da sala e procurei um dicionário na estante, um dicionário que o traduzisse, mas era um silêncio intraduzível, era um silêncio calado em português muito antigo, um silêncio muito velho, como se ele estivesse enterrado há milhares de anos, e fosse encontrado naquele momento, em meio às escavações do mundo. Não, era mais do que isso – eu pensava, enquanto procurava as palavras no dicionário, um tanto aflita. As frases do meu corpo estavam escritas em uma língua morta de uma terra devastada. Como se eu tivesse inventado uma língua estrangeira apenas para existir sozinha, ou para me comunicar com ninguém, ou para ficar em silêncio, e pudesse, com aquela nova língua, traduzir a solidão para os abismos. Você sabe: era tudo o que eu podia fazer.

Assim, voltei para o quarto, coloquei o estilete dentro da gaveta, fechei o caderno, guardei a caneta numa pequena caixa, fui até a varanda, olhei as plantas que se amontoavam perto da janela e, com muito esforço, traduzi uma das frases que cobria o meu braço: “Quem não compreende o silêncio ainda não está pronto para ser uma flor.”

Então, pensei em colocar um pouco de água nas plantas porque as plantas nunca eram ferozes. Enquanto eu as regava, eu esperava que as flores avançassem sobre mim ou sobre um copo com água, mas elas apenas murchavam para dentro, apenas ressecavam em sua sede violenta. Era um copo de sede o que eu tomava em meus lábios ressequidos? Era uma sede que não tinha mais fim? – eu me perguntava, enquanto regava uma bromélia com cuidado para a água não se espalhar sobre a mesa.

Então, umedeci os lábios com a ponta da língua e o que percebi foi que eu estava tão seca quanto uma planta em sua muda ferocidade, e que eu estava aos poucos desistindo da vida. Mas, se eu estava pensando em desistir, que não levasse junto as minhas flores – eu pensava – porque elas não queriam deixar um planeta em que, milagrosamente, chovia. Elas precisavam de água para sobreviver: e chovia. Não apenas chovia, como chovia do céu. Meu Deus. Era coincidência demais para prescindir da vida. Era inevitável que os homens primitivos tivessem inventado um Deus que explicasse tantas coincidências no mundo.

Além disso, havia uma flor naquele vaso, uma flor que me chamou a atenção: no dia anterior, ela estava quieta, recolhendo os resquícios de sol e de chuvas esquecidas, mas, ali, naquela hora, ela estilhaçava o invisível com uma pequena folha ainda verde. Eu não sabia se as vozes ainda conseguiam ver as coisas através dos meus olhos, mas aquela era uma flor para fora. Era uma flor que invadia o mundo, subitamente, com alguma beleza. Era uma flor que abria o vazio com algumas pétalas, despejando as suas cores ao redor. Era uma flor que não tinha medo. Ela existia.

Então, com muito esforço, eu apanhei o regador – aquela mentira de chuva que eu tinha de contar às flores todas as manhãs – e reguei as plantas bem lentamente, até o silêncio se molhar e se espalhar pelo chão. Depois, encostei-me na parede da varanda e fui deslizando até me sentar sobre os calcanhares, com a cabeça entre as mãos. Havia ocasiões, como aquela, em que eu escutava o silêncio se esbarrando nas coisas imóveis. Então, eu percebia que era só o silêncio: sendo o silêncio, mesmo. Em outras vezes, contudo, quando as vozes que eu escutava estavam muito irascíveis, eu me desesperava, tampando os ouvidos com as mãos. Era preciso criar um instrumento que tocasse o silêncio sobreposto ao ruído! – eu pensava. Era preciso criar um instrumento que tocasse o silêncio sobreposto a todas as vozes! Um silêncio ainda mais grave e o outro mais agudo, mais alto do que o meu ritmo cardíaco, mais alto do que todos os meus pensamentos! – eu continuava pensando, muito aflita.

Por isso, depois que as vozes se acalmaram, eu continuei traduzindo as frases que apareciam em meu braço: “A música foi a grande decisão do homem em abraçar o invisível.” E fiquei pensando muito naquilo. Todo um império do invisível fora criado e, por isso, eu podia ver a música de olhos fechados, especialmente aquelas que tocavam na rádio de Aureliano. Será que a música era uma carícia que não encostava ou era uma fenda que se abria no meio do silêncio? – eu me perguntava, enquanto retirava algumas folhas secas dos vasos.

Na primeira camada do mundo, quando tudo estava dormindo, era o silêncio quem tocava sem parar. Todas as coisas eram naturalmente silenciosas, mas, em todas elas, um som estava colado, na iminência de se transformar em ruído. Eu não podia sequer mover as coisas de lugar que elas já faziam barulho. Quando as coisas caíam no chão, gritavam estrondos. Então, o silêncio não se quebrava, ele se estilhaçava – eu continuava pensando.

Em seguida, eu me lembrei das madrugadas na casa da minha avó. Antigamente, no quintal onde eu brincava, os grilos apagavam o silêncio da noite, mas ali, na cidade de São Paulo, o silêncio havia vencido os grilos. Só as coisas imóveis e mortas conversavam no silêncio do mundo. E também as plantas. E também as árvores. E também as flores.

Por isso, eu fiquei pensando em todas as conexões do planeta: o meu aparelho auditivo não sabia que as coisas e os seres faziam barulho e, mesmo assim, eu tinha nascido com um ouvido para escutá-los. Não era incrível como as coisas e os seres faziam barulho e eu tinha ouvidos justamente para escutá-los? Não era incrível como as frutas tinham sabores diferentes e eu tinha uma língua justamente para senti-los? Não era incrível como as coisas e os seres tinham cores e formas variadas e eu tinha olhos justamente para enxergá-las? De certa forma, isso conectava o meu corpo ao funcionamento do mundo. Eu precisava de oxigênio, e o oxigênio existia no ar. Eu precisava de água, e a água existia nos rios, na chuva e no mar. Até caía do céu. A minha existência não era aleatória. De certo modo, eu não era desvinculada do planeta. Tudo estava conectado. Então, ou Deus existia de verdade ou o mundo era muito velho em coincidências.
De alguma forma, era o sentido da vida que eu estava buscando, sem conseguir encontrar. O que saíra errado no mundo era um animal comer o outro. Isso não saíra certo – eu continuava pensando, enquanto ajeitava os vasos sob a janela. Além disso, por que algo que estava tão conectado ao planeta – o meu corpo – algum dia, simplesmente iria acabar? Talvez, existisse realmente algum mistério por trás de tudo, que a minha avó chamava de Deus. Por que Deus? Talvez, porque os seus olhos só estivessem acostumados com eternidades, não estivessem conformados com o que era pequeno ou efêmero.
De qualquer modo, eram tantas as coincidências no mundo que eu fiquei pensando: morrer seria um grande desperdício. Mas, então, por que a minha vida era tão frágil? Se tudo iria acabar, afinal, por que eu não era simplesmente uma pedra? – eu me perguntava enquanto retirava alguns pedregulhos do vasos de girassol. Se ainda eu morresse e me transformasse numa flor ou numa árvore, tudo estaria certo, mas nem tudo estava certo no mundo. Afinal, se eu morresse, eu não viraria coisa alguma. Eu morreria para me acabar. E, se fosse para me acabar, por que eu pensava em tantas coisas? Por que eu sentia tanto? Por que os meus pensamentos me pareciam tão importantes? Por que eles me pareciam únicos? Então, Deus não pensava nos desperdícios de findar um pensamento tão único? Não, não pensava? Ah, por isso, eu precisava de escrever os meus diários e as minhas cartas para os desconhecidos, para que nem tudo se acabasse, para que o meu pensamento resistisse depois da minha morte, como o próprio ser humano fizera durante milênios depois de inventar a escrita. Não, eu não poderia morrer antes de escrever os meus pensamentos em algum lugar. Antes de escrever, escrever e escrever.

Por isso, no outro dia, depois que Paulo saísse para o trabalho, eu arrumaria a minha mochila e, dentro dela, guardaria o meu caderno vermelho, algumas canetas, alguma comida, algum dinheiro, as oito cartas que eu tinha escrito para os desconhecidos, os envelopes que eu havia comprado há alguns meses e sairia por aí, viajando algumas quadras até chegar à rádio de Aureliano. Enquanto eu andasse pelas ruas da cidade, eu escreveria mais algumas coisas – eu continuava pensando enquanto retirava mais alguns pedregulhos das plantas.

No quintal onde eu cultivava as minhas plantas, as pedras nunca me contavam o quanto eram velhas, tão velhas quanto o início do mundo, tampouco o modo como se gastavam tão devagar. Será que uma pedra sempre existiu? – eu me perguntava. As pedras não refletiam, não sentiam, não sofriam, mas existiam por muito mais tempo do que eu poderia existir. Qual seria a idade daquele pedregulho? Cem anos, duzentos anos, mil anos, talvez? Viera de onde, de uma grande pedreira? Viera do início do mundo? Quando era aqui?

De repente, eu me lembrei do estilete sobre a escrivaninha e pensei que eu deveria viver alguns dias a mais, para ver o que me aconteceria nos dias seguintes, enquanto eu andasse pelas ruas da cidade, colhendo as pedras do chão e as guardando no bolso, enquanto pensasse nas cartas que eu escreveria aos desconhecidos. Será que eles me responderiam? Será que eu faria uma grande amizade? Ou será que um ladrão descobriria o meu endereço e viria me assaltar? Será que o mundo também me chamaria de louca, como Paulo fizera naquela tarde? Será que todos os Paulos me chamariam de louca também? E, afinal, seria muita loucura escrever cartas às pessoas que eu não conhecia? – eu me perguntava, enquanto jogava algumas folhas secas no lixo. Aos poucos, enquanto eu trabalhava, os vasos iam ficando verdes e viçosos novamente. O meu trabalho – de jardinagem – era o que me deixava viva no mundo, e por isso eu trabalhava até de madrugada.

Se, ao menos, houvesse uma boina para eu guardar a minha loucura, eu pensava, eu não me importaria de estar enlouquecendo, como Paulo dizia que eu estava, realmente. Eu poderia usá-la somente às vezes, só quando eu tivesse o cabelo embaraçado de chuvas. Então, eu até gostei daquela ideia. Por isso, pé ante pé, fui até o guarda-roupa e, silenciosamente, revirei a gaveta e a prateleira, mas não encontrei boina alguma onde eu pudesse guardar os meus pensamentos. Eu já havia procurado por toda a parte, por dentro dos armários, da cômoda, num amontoado de roupas velhas, por dentro de uma mala debaixo da cama, mas não encontrava aquela boina em nenhum lugar: e me cansei de ser. Sacudi os ombros, pensando que sairia pelo mundo sem a boina e sem o juízo, mesmo. Com a minha loucura descoberta. Afinal, ela, a minha loucura, não se guardava dentro de casa. Por isso, eu andava com ela a céu aberto, onde as estrelas conseguiam me espiar – eu continuava pensando essas coisas, enquanto dobrava as roupas e as guardava no fundo do armário de novo.

De algum modo, a minha loucura era como sonhar acordada. Era como abrir os olhos, e o sonho continuar vivendo nas minhas retinas. Mas era preciso que o meu travesseiro fosse feito de flocos muito finos para que eu não tivesse pesadelos nem pensadelos. A minha loucura não se guardava em gaveta alguma. Por isso, eu andava com ela descoberta, desordenada em minha cabeça, revoando pássaros no peito. Os pássaros que invadiam o meu quarto e que só eu era capaz de ver. Os pássaros que não queriam se mostrar para Paulo e para mais ninguém.

No fundo, eu não me sentia louca, como Paulo tinha me chamado. Eu me sentia uma escolhida por ver as coisas que ninguém mais via, por escutar as pessoas que ninguém mais escutava, por sentir os cheiros que não existiam para mais ninguém, por entender os códigos secretos que ninguém mais entendia. Então, aquilo era a loucura? – eu pensava. Adentrar um mundo onde só eu sabia entrar? A minha loucura era um portal ao inexistente. Mas quem poderia dizer que o inexistente não existia em algum outro lugar? Será que eu enxergava, escutava e sentia só as coisas do meu passado? As coisas e os seres que já não existiam mais? Será que eu estava perdida em alguma fração do tempo? Será que os meus olhos só enxergavam através do tempo? Não, eu não sabia, mas sentia que a minha loucura era da cor das nuvens antes da trovoada. E isso era tudo – eu continuava pensando, enquanto guardava algumas roupas no cabide.

Depois, voltei às plantas da varanda e respirei fundo, afundando os meus dedos na terra fofa. De algum modo, eu precisava encharcar as plantas para que elas aguentassem alguns dias sem água, até que eu voltasse da minha pequena viagem. Por isso, fiquei pensando: ah, quando eu saísse de casa, compraria mais sementes de girassol porque havia isso de extraordinário no mundo: quando alguém se sentia só ou com saudade de outrem podia comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Podia até mesmo fazer uma sementeira de violetas. Nesse caso, era preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair algumas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios, eu deixaria para que os outros cuidassem, pois as coisas brutas também precisavam de carícias. À tarde, eu tinha visto um homem pendurado nas vidraças com um pano molhado, eu tinha visto uma máquina acarinhando a outra com a lixa, e tantas outras coisas que eu reparava em meus passeios. Havia muitas formas de cuidar e, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se eu me ocupava das sementes é porque eu escutava o seu silêncio. O silêncio com que elas abraçavam um grãozinho de terra tão brandamente. Era bonito, sim. Havia coisas belas no mundo. Então, por isso, eu não podia me matar – eu continuava pensando, enquanto limpava a terra que caía na mesa da varanda. Aos poucos, tudo ficava limpo de novo.

Eu quase não tinha o controle de nada, pois um dia eu tinha nascido à revelia de mim, sem decidir coisa alguma, sem saber como ou por quê, acontecida. Sim, eu era acontecida no mundo, eu era de repente, mas, ao menos, nunca tinha culpa quando uma flor se abria, mesmo se os meus olhos se esbarrassem na primavera. Eu era inocente. Eu merecia viver – eu continuava pensando, enquanto varria algumas folhas secas do chão. Havia infinitas mortes dentro da vida, eu mesma já tinha testemunhado algumas: a do meu cão, a do meu peixe, a do meu avô e da minha avó, a do meu vizinho, a do meu tio. Havia incontáveis segundos virando memória, e agora, e agora, e agora, mas se Deus tinha perdido o controle do mundo, eu não perderia o meu também. Oh, não, eu não perderia, não. Que Deus cuidasse das suas plantinhas e recuperasse o tino de viver. No fundo, eu acreditava que Ele só havia criado a noite para preparar os homens para a morte. Não, Deus não era bruto. O amor de Deus amortecia o mundo, e isso era tudo.

Então, olhei para o meu próprio braço e, de repente, li mais uma frase: “A gente dorme de olhos fechados que é para poder sonhar por dentro, amor.” Para dizer a verdade, eu nem sei se era isso mesmo o que eu via, ou se eu interpretava alguns rabiscos como sendo aquelas frases, mas foi o que eu li naquele instante. Por isso, lavei as mãos, voltei ao quarto, e me deitei com todo o cuidado na cama, ao lado de Paulo que já dormia, e tentei dormir também. Virei de um lado ao outro silenciosamente, tentando não acordar o meu noivo, mas eu não conseguia parar de pensar. Pensava na minha pequena viagem, e pensava tão alto que, às vezes, olhava para Paulo, certificando-me de que ele não tinha me escutado. Depois, quando eu pensava que estava pensando, aí mesmo é que eu não conseguia dormir de jeito nenhum.

Eu estava com sono, mas a hora do sono era muito vulnerável, e eu sentia que ficava muito vulnerável quando dormia. Qualquer coisa poderia me acontecer quando eu dormisse. Por isso, olhei o desenho que as sombras do abajur faziam nas paredes. Algumas sombras tinham grudado e não saíam mais, até elas estavam escoradas de cansaço, ou era o modo como a parede tinha de abraçá-las. Eu queria que Paulo me abraçasse, eu queria muito, mas desde que ele tinha me chamado de louca, ele não me abraçava mais como antes. Quando ele o fazia, era um abraço empalhado, um espantalho que abria os braços apenas para espantar os corvos.

Depois, quando ele saía para o trabalho, aquele quarto ficava grande demais, e eu queria um quarto onde só coubesse o meu corpo, uma casca de concreto ao redor de mim. Eu não queria muita coisa, eu só queria que as paredes me abraçassem, que alguém me abraçasse, enfim.

Mas ali, de tanto olhar as paredes na penumbra do quarto, eu pensei que era por isso que os seres humanos inventavam casas que se fechavam e se trancavam. De certo, para que ninguém pudesse adentrá-las enquanto todos estivessem dormindo. Havia, portanto, uma tendência natural para o fechamento de si diante do mundo. Eu me fechava dentro de casa, dentro do quarto e, depois, também fechava os meus olhos. Tudo era fechado antes de dormir. Se eu pensasse que a minha casa era segura, eu poderia me entregar à inconsciência do sono durante muitas e muitas horas. Até mesmo quem não tinha paredes para se proteger, quem vivia no meio da rua, adormecia sem ter um abrigo, pois o sono era algo inevitável – eu pensava, enquanto virava para o outro lado da cama. E todo mundo, com ou sem casa, tentava criar alguma forma de proteção. Era muito provável que, se eu conseguisse dormir naquela noite, eu acordaria intacta no outro dia, sem que nenhuma fera tivesse me devorado. O mundo era tão perigoso, havia tantos perigos ao meu redor, mas eu dormia quase todas as noites durante muitas e muitas horas. Era inevitável soltar a guarda. Era incontrolável fechar os meus olhos e me desligar de tudo. Todas as noites, eu me deixava morrer, na esperança de alcançar o amanhã, na esperança de que o amanhã chegaria, ó sim. De qualquer modo, eu nunca o alcançava, pois ele sempre se transformava num hoje, depois num hoje, depois num hoje, infinitamente. Eu nunca conseguira tocar o futuro, nunca conseguira tocar o tempo, nem mesmo o presente, só conseguira tocar as mãos e o rosto enrugados da minha avó, e eles eram tão vastos; as rugas eram sobrepostos de agoras – eu continuava pensando enquanto me virava mais uma vez na cama, com todo o cuidado, para não acordar Paulo que dormia no escuro.

Não é que eu tivesse medo dos amanhãs, mas os amanhãs não combinavam nada de antemão, e eu tinha sempre de viver aos improvisos, com uma venda atada aos meus olhos. Os meus olhos que nada viam adiante. Ora, isso lá era uma vida que se vivesse? A vida tinha de ser toda gravada, repetível, pausável, mas o amanhã atravessava tudo, como sempre. Não havia luz no mundo capaz de antever o acaso, e eu precisava de ter algum controle sobre a alegria, especialmente, sobre aquela que eu daria para alguém – eu continuava pensando, enquanto colocava um outro travesseiro no meio das pernas, eu sempre fazia isso quando não conseguia dormir. Mas era provável que, naquela noite, se eu dormisse muito profundamente, se eu me entregasse ao mais completo sono, no outro dia, eu acordaria sabendo que tinha dormido no dia anterior, eu reconheceria uma pausa entre os dois períodos de vida. Se eu acordasse sendo a mesma pessoa, o meu cérebro se reconheceria. Era provável, então, que, se eu tivesse memória para costurar um dia no outro, apesar do sono, essa pequena morte inconsciente, depois, eu conseguiria sair daquele quarto, sair daquela casa, sair de mim mesma, escrever as cartas para os desconhecidos e ir até a rádio de Aureliano. Mas o mais estranho é que a inconsciência do meu sono não se despejaria na minha consciência, não se espalharia nos dias que eu tinha vivido, não apagaria tudo o que eu havia testemunhado, não iria se confundir com a realidade, mesmo se eu fechasse os meus olhos e me entregasse à mais completa escuridão – eu continuava pensando, enquanto me cobria com o lençol e sentia o velho perfume de flores e de plantas pairando no ar. Bastava fechar os olhos e dormir, apenas isso. Fechar o olhos e dormir. Mas não, eu não conseguia, meu Deus…

Então, virei-me de um lado ao outro e continuei pensando. Por que eu tinha medo de dormir no escuro, se o escuro era tudo o que eu via quando fechava os meus olhos? Por que eu padecia tanto sono se, no sono, eu nada via? Por que a escuridão dos meus olhos levava aos poucos os meus sentidos? Por que, toda noite, eu precisava desistir e me abandonar até adormecer? E por que, desperta, eu piscava tão rápido, frações mínimas de segundo, para umedecer uns olhos já tão alagados de medo? E por que, no medo, eu os fechava: uma gruta gotejando ao explorador a descoberta dos musgos, se tão escura, silenciosa e apartada do mundo? Quem haveria de saber? Fosse lá como fosse, dali a pouco, eu dormiria, os pássaros dormiriam, todo um lado do mundo dormiria também. Todas as noites, durante quase oito horas, o mundo se apagava para mim, enquanto eu sonhava exaustivamente histórias que só aconteciam dentro da minha cabeça, histórias que ninguém mais conseguia ver. Isso também não era estranho? – eu me perguntava confusa, enquanto observava os pássaros que se amontoavam sobre a cama. Ninguém estava louco por sonhar. O mundo ainda me deixava sonhar, a polícia ainda me deixava sonhar, isso ainda era permitido pelas leis e pela Constituição Federal. Por isso, para poder viver entre as pessoas, eu não poderia ter culpa do sonho, eu deveria ser inocente quando abrisse os meus olhos pela manhã. Mas, dependendo dos pesadelos e do quanto eles pesassem em meus olhos, os meus sonhos poderiam cair e se espatifar pelo chão, e eu teria de tomar todo o cuidado ao andar descalça entre eles. Havia muito tempo, eu tinha os pés feridos de pesadelos – eu pensava enquanto, sem saber o que fazer, via um dos pássaros alados se aninhar ao meu lado. Ah, os pássaros, os pássaros sempre voltavam, mas Paulo não os podia ver.

De qualquer modo, todas as pessoas sonhavam e, nem por isso, elas estavam loucas. Isso o mundo ainda aceitava. Isso ainda era permitido. Ninguém era condenado por sonhar os piores sonhos possíveis. Ninguém era julgado por ter tido um pesadelo. Mas era preciso estar com os olhos bem fechados, imóvel sobre uma cama, inofensivo. Era preciso ser inocente do sonho que se sonhava, que ele fosse involuntário, pois o que acontecia no sonho de um não alcançava o sonho do outro. Os sonhos ainda eram incomunicáveis e não podiam ser compartilhados nas redes sociais. Os meus sonhos não tinham cúmplices. Eu também sonhava muito sozinha, nunca tinha sonhado acompanhada de ninguém, nunca tinha sonhado a quatro mãos, e por isso, eu acordava mais sozinha ainda, pesando muitas cenas no meu travesseiro.

De qualquer modo, todas as noites, eu fechava os meus olhos e sonhava por cima da escuridão que me habitava. E, por cima da escuridão que me habitava, havia muitas camadas de sonhos, todas coloridas. Os meus sonhos se sobrepunham em camadas, uma noite após a outra. E, ultimamente, eu era sonhada de escrever até a ponta dos dedos. Se eu não escrevesse, se eu não tocasse o sonho com a ponta dos dedos, eu poderia perder as minhas impressões digitais? – eu me perguntava, enquanto observava pequenos confetes caindo no ar. De novo, os confetes. De novo, os pássaros. De novo, os vultos. Mas Paulo não via, Paulo não os podia ver.

De repente, ao cochilar por alguns minutos, eu sonhei que gritava, e gritei tanto, que acordei gritando de verdade. Paulo se assustou, sentou-se sobre a cama em sobressalto, perguntando-me o que tinha acontecido, pelo amor de Deus. Mas eu lhe expliquei que tinha sido apenas um pesadelo, um pesadelo, apenas isso, e ele voltou a dormir, resmungando qualquer coisa, um tanto contrariado. Meu Deus, eu tinha tentado me virar com tanto cuidado, para não acordá-lo, e depois eu gritava no meio do sonho, acordando Paulo assustado? A cada dia que passava, menos ele tinha paciência com as coisas que eu pensava ou dizia. A cada dia que passava, mais ele se distanciava. E eu tinha gritado, e eu tinha gritado. Agora, tudo estava perdido, meu Deus.

Ah, era disso o que eu mais tinha medo na loucura: desse sonho acordado, desse sonho de olhos arregalados, de ficar sozinha em algum ponto equidistante, sem uma linguagem compartilhada, deixada num país estrangeiro que ninguém mais habitava e que ninguém mais sabia como chegar. Uma ilha cercada de nada para o qual não existissem barcos. Por isso, eu queria dar a Paulo o meu pensamento, para que ele o compreendesse, queria dar a ele uma memória indivisível, mas eu era toda uma pessoa adentro, uma pessoa que ele nunca visitaria em ser, mesmo se o corpo dele adentrasse o meu ventre naquele instante. Desde que eu havia me inaugurado como gente, havia aquela distância intransponível entre nós dois. Desde que eu tinha nascido sozinha, eu precisava de preencher o vão entre mim e Paulo, eu precisava sempre de uma palavra para lhe dar. Mas, naquela noite, como não tinha qualquer palavra extraordinária, decidi preencher o grande vão entre nós dois levando entrelinhas nos braços.

Por isso, antes que ele voltasse a dormir, eu o abracei e tentei lhe explicar que havia o mundo invisível que eu erigia sobre o nada e que podia cair quando uma criança assoprasse. Mas Paulo, caindo de sono, não entendeu o quão tudo era frágil, e apenas resmungou qualquer coisa que eu tampouco entendi. Então, eu tentei lhe dizer, em sussurros quase inaudíveis, que os desconhecidos não eram estranhos, que mesmo quando eles atravessavam anônimos a grande avenida do bairro, eles tinham o mesmo segredo compartilhado: ninguém sabia a morte ou o próximo segundo. Disse, disse tudo isso a ele, triunfante por ter lhe dado um pensamento, mas ele respirou ainda mais fundo, completamente inconsciente. Queria que ele entendesse por que eu sairia de casa, na minha pequena viagem, por que eu escreveria cartas aos desconhecidos: cartas para lhes consolar da morte, cartas para lhes consolar da vida. Alguém tinha de fazer isso. Então, bem baixinho, eu disse a Paulo que tudo poderia ser pior, mas eu tinha aquela preocupação a menos: quando eu morresse, os pássaros continuariam cantando e as pessoas continuariam nascendo, ele não precisaria de se preocupar. E me lembrei do estilete na gaveta.
Depois de um tempo, eu respirei bem fundo, tentando organizar as palavras que me traduziam na esperança de que Paulo as compreendesse, mas depois eu me dei conta de que eu era tão incompreensível para ele, quanto ele era para mim também. Então, percebi que já era tarde: eu já tinha nascido sozinha, e isso era intransponível, ninguém jamais pensaria os meus pensamentos comigo, e tive vontade de chorar. De fato, Paulo não ouvia mais nada do que eu dizia, mesmo estando acordado, e eu pensei que, afinal, era melhor assim. Pelo menos, ele não me chamaria de louca como ele tinha feito naquela tarde. Por isso, eu o deixei dormir profundamente. Acariciei os seus cabelos escuros e lisos, que lhe caíam sobre a face. Era um homem tão bonito e de silêncio tão forte, não poderia traí-lo com Aureliano, com a mácula das flores do meu jardim.

Então, quando ele se virou para o outro lado, eu apaguei o abajur novamente e tentei lutar com a escuridão dentro do quarto. Nos últimos dias, quando eu estava muito confusa, eu me perguntava as coisas bem ao meio da pergunta. O que caísse para um dos lados não seria bem a resposta que eu procurava. Por exemplo: de onde tinha vindo a escuridão? – eu me perguntava, enquanto via a luz da lua entrar pela janela do quarto. A escuridão tinha surgido primeiro do que a claridade? A escuridão, sem a luz, era o estado natural do Universo? Então, se eu o deixasse à própria sorte, o Universo seria escuro? Então, a escuridão existia por si mesma? Existia por dentro de mim? A escuridão estava crescendo por dentro de mim? Por isso, eu estava perdendo a minha lucidez, como Paulo dizia? A escuridão era a única coisa que existia, antes de tudo? Então, em meu estado natural, eu existia, desde as primeiras células, à beira do escuro? Então, eu estava tentando voltar à minha escuridão natural? Eram muitas perguntas que eu me fazia porque o mundo era sempre uma porta fechada para o daqui a pouco – eu pensava, enquanto contava as poucas estrelas do céu, através do vidro da janela. De repente, quando olhei pela segunda vez, o céu ficou empoeirado de estrelas. Eu passei o dedo no ar e assoprei. Foram tantas as estrelas caindo que eu mal conseguia enxergar de tanta esperança.

De repente, a escuridão do quarto escapou de dentro das minhas mãos com a mesma velocidade com que um dos pássaros encontrou uma portinhola aberta. A única chance de tê-lo nas mãos seria quando ferido, mas eu não queria prendê-lo impunemente, apenas para compreender o que eram asas, apenas para escrever melhor. Por isso, eu me levantei da cama e, silenciosamente, espantei os outros pássaros que ainda se amontoavam sobre o edredom, para que eles escapassem dos meus olhos e da minha loucura. E, como num sonho acordado, todos voaram pela janela aberta, em direção à lua. Outros, simplesmente, desapareceram, sem maiores explicações. Era sempre assim.

Acho que eu cochilei por alguns minutos, pois, quando acordei, fui até o armário e tomei mais um pote de escuridão. Havia dezenas de potes dentro do armário, que eu tomava todas as noites, sabendo que até dentro de um velho pote de plástico existia o vazio guardado. Por isso, tomei a escuridão bem devagarinho para não me engasgar. Eu sempre fazia isso quando me sentia muito aflita, pois se eu a tomasse primeiro, ela não me tomaria. Depois, recolhi o vazio com as conchas das mãos e o derrubei com um punhado de sopro. O vazio se espalhou pelo quarto, derramando-se pelo chão, e eu não soube mais o que fazer com os pássaros, com a escuridão, com as estrelas, com o amor que eu sentia pelo Paulo, com as mensagens de Aureliano, com os meus pensamentos. Tudo era tão confuso, tão confuso, meu Deus! Eu sentia que estava enlouquecendo ou que o mundo estava se descortinando pela primeira vez. O mundo estava cheio de pássaros amontoados no quarto, de borboletas sobre Paulo, de vultos que apareciam nas portas, de vozes que não paravam de discutir entre si, de confetes que caíam no ar, de água que escorria pelo chão, de flores que nasciam nas paredes e cresciam, de repente, na palma das minhas mãos, de frases e rabiscos que surgiam sobre a minha pele, de códigos secretos, de mensagens subliminares, de conspiradores, de crianças que já nasciam velhas, de pétalas caindo por toda a cidade, por cima dos prédios e dos concretos.

Mas Paulo continuava dormindo profundamente, como se nada daquilo existisse. Então, eu me levantei com todo o cuidado, fui até a cozinha, abri a geladeira e fiquei procurando uma saída por mim mesma, mas eu ainda não sabia onde a saída ficava. Depois, eu me lembrei que fazia muitas horas que eu não comia nada e me obriguei a sentar à mesa, mesmo sem fome diante da vida. Alimentei-me no escuro, mastigando a noite em meio a um pedaço de pão. Então, tive a sensação de que a noite me quebrava um dos dentes sem piedade. Tirei o dente da boca e continuei pensando que tinha de suportar a noite porque, de algum modo, a noite me ensinava a dividir o sol com o outro lado do mundo. Todos tinham de aprender a voltar para o escuro de onde vinham – eu continuava pensando e pensando, enquanto mastigava a noite, sem um pingo de fome. Mas, enquanto eu comia, eu olhava o relógio da parede mais uma vez. O relógio fazia muitas voltas, mas o tempo, não. E o que era o tempo? – eu me perguntava sem saber. Era como se eu fosse uma a cada instante, e que ficasse largada no tempo, à medida em que o tempo passasse. Por isso, enquanto eu vivia, eu largava os rastros de mim por instantes. Apesar disso, o tempo não me deixava voltar ou reaver aquilo que eu tinha sido, mesmo que eu tivesse sido apenas eu mesma, e ninguém mais do que isso. Não era injusto? Viver somente para o que viria, nunca para o antes de? Será que o tempo só andava para frente? Será que, em direção ao futuro, eu só poderia andar de costas, olhando as pegadas que largava para trás? E se eu me virasse de frente, o passado continuaria sendo aquela cauda imensa que eu arrastava pelo caminho, enquanto andava cega em direção ao futuro? De qualquer modo, eu não conseguia enxergar à longa distância, só quando eu me aproximava o máximo possível do instante, quando eu pisava no instante, quando o instante era – eu continuava pensando, enquanto algumas vozes discutiam entre si, por dentro do meu pensamento. Ah, Paulo, era sempre Paulo que voltava para me dizer certas coisas. Não, não o Paulo que estava dormindo. Todos os outros Paulos do mundo.

Por isso, depois de mastigar a noite e de tomar a escuridão, pensando e pensando sem parar, eu me levantei da mesa, fui até o armário e procurei uma câmera que fotografasse o iminente. Eu a levaria em minha pequena viagem, para que, assim, a memória revelasse de uma vez todas aquelas imagens, pendurando-as na linha do tempo: para secar. Então, se ela fizesse isso, eu descobriria os segredos ocultos do mundo. Mas, não, não encontrei câmera alguma, onde eu pudesse fotografar o iminente. E me apavorei um pouco mais, como se tudo fosse fugir ao meu controle. Às vezes, antes de sair de casa, eu tirava uma foto do mundo para antever os imprevistos que poderiam me acontecer porque a minha câmera, não, ela nunca enlouquecia.

Mas Paulo não compreendia nada daquilo: os meus potes de escuridão, a minha câmera de fotografar o iminente, a minha boina para guardar a loucura, o meu relógio de reverter o tempo, os pássaros que se amontoavam sobre o nosso lençol, os vultos, as vozes, o meu dispositivo secreto de transmissão de pensamentos, os códigos secretos, os conspiradores, o mercado clandestino, o símbolo das cores, as mensagens nas placas dos automóveis, as entrelinhas nos programas de televisão e nas redes sociais, nada. Para ele, tudo aquilo que eu tentava calmamente lhe explicar era simplesmente a loucura. E, quando ele me chamava de louca, era ainda pior: milhares de borboletas escapavam do abismo que se formava entre nós dois. Eu via, eu podia ver o meu noivo coberto de borboletas, mas ele sempre permanecia impassível, como se tivesse nascido com elas pregadas ao seu corpo. O que mais me afligia é que ele não se impressionava com nada daquilo. Meu Deus, como ele conseguia manter a calma em meio ao turbilhão que se formava no fundo do mundo? Sinceramente, eu não sabia. E eu também não entendia como as borboletas, às vezes, simplesmente, desapareciam no ar.

Mas, todos os dias, eu percebia a semelhança entre os sucessivos dias que nasciam; e era como se eu os esperasse também no outro dia, e no outro e mais outro. Então, eu olhava para o calendário pendurado na parede. Todas as folhas, com os dias, desprendiam-se sozinhas, uma folha depois da outra, e o chão ficava forrado de dias que eu não tinha vivido. Eu olhava para as folhas do calendário que, esvoaçantes, caíam sem parar. Eram os dias do meu passado: trezentos e sessenta e cinco dias multiplicados por meus vinte e três anos de vida caíam sem parar, bem à minha frente, e eu não sabia como tirá-los dali antes que Paulo acordasse. O que ele pensaria daquela bagunça? Que, além de louca, eu também tinha me tornado uma grande bagunceira? Já havia os pássaros, as borboletas, as vozes, os vultos, as flores que cresciam nas paredes ou na palma das minhas mãos, as frases, agora, as folhas do calendário espalhadas pelo chão? Não, eu não podia esperar qualquer originalidade do mundo, o amanhecer era um clichê e sempre seria. Sempre isso, sempre o sol, sempre, sempre.

Por isso, fechei os meus olhos com força e permaneci alguns minutos com eles fechados. Quando eu os abri, foi inevitável: eu estava viva de novo, e de novo, e de novo. E tinham sido tantos dias caindo, que eu quase previ a minha existência nos improvisos do amanhã: haveria sol, haveria, sim. Então, eu me agachei e peguei um dos dias do calendário entre as mãos. Era o dia 6 de abril, o dia do meu aniversário. Ah, não era impressionante como eu vivia sobre a terra, dormindo e acordando, fazendo coisas parecidas todos os dias? Quem tinha combinado comigo que seria assim? Ninguém tinha combinado nada, e apesar disso, eu fazia isso todos os dias. O mundo não era uma sucessão de acontecimentos aleatórios. Havia uma certa rotina que, normalmente, me acalmava – eu continuava pensando, enquanto tentava recolher os dias do chão. Mesmo assim, a vida era uma sucessão de dias maiores do que a força dos meus braços e, por isso, eu não tinha esperança de que o tempo não passasse. Oh, sim, ele passaria, sim. Oh meu Deus.

Por isso, exatamente por isso, eu queria inventar um relógio ao contrário que, girando em sentido anti-horário, sempre voltasse do mundo dos sonhos, revertendo o tempo que passava. Secretamente, eu já tinha comprado as suas minúsculas peças e estudado as suas engrenagens, só me faltava descobrir um meio de reverter o tempo. Só Aureliano sabia. Paulo não entendia o que eu queria fazer com todas aquelas peças diminutas, mas eu sempre inventava alguma desculpa que o fazia olhar enviesado. Eu sentia que a paciência dele se esgotava a cada instante, ainda mais, quando ele passou a dizer que eu estava enlouquecendo. Ele me dizia que eu deveria escolher, pois se eu não aceitasse ir a um psiquiatra, ele iria embora de casa. Então, eu andava de um lado ao outro, escondendo a cabeça entre as mãos, pensando, pensando, pensando, prensada contra o irei. Se eu fosse a um psiquiatra, eu deixaria lá o meu nome, o meu endereço, e os conspiradores me encontrariam facilmente. Até então, eles só conversavam em meus ouvidos, por meio de algum dispositivo secreto, mas nenhum deles sabia exatamente onde eu morava, e eu estava, de algum modo, protegida do vazio. Pelo menos, era isso o que eu pensava. E também pensava que as mesmas vozes surgiam em alguns ouvidos, e nunca sabíamos de onde eram ou o que faziam. No entanto, quando às vezes eu andava pelas ruas e escutava vozes, eu até fechava os olhos com força, para que nenhum dos conspiradores descobrisse o meu endereço ou reconhecesse as ruas por onde eu passava. Era isso o que eu fazia. Mas se eu fosse a um psiquiatra, tudo estaria perdido. Eu cuidava muito para não lhes fornecer os meus dados pessoais, eu cuidava até mesmo para não me olhar muito no espelho, para que eles não fizessem o meu reconhecimento facial. Na verdade, eu sentia que as vozes conversavam a partir de um rádio diminuto instalado na minha cabeça, em um sofisticado sistema de comunicação secreta. E, por isso, elas podiam ver através dos meus olhos e escutar a partir dos meus ouvidos e sentir odores através das minhas narinas. Era isso. Eu tinha certeza de que era isso. Há muitos anos, o meu pai ou alguma colega de quarto tinha instalado um dispositivo secreto em meu ventre e, não sabia bem como, eles podiam ler os meus pensamentos. Um dispositivo de comunicação oculta que, eu não sabia bem como, conectava-se com o meu cérebro. Um dispositivo capaz de ler todos os meus pensamentos. Ah, só não via quem não queria ver. É claro que o meu pai tinha sido cooptado pelo mercado clandestino, era isso, estava claro, agora, era isso, era isso, meu Deus.

Mas, naquela noite, parada ali na cozinha com as peças do relógio entre as minhas mãos, olhando para os dias do calendário esparramados pelo chão, eu não sabia o que fazer, e simplesmente afastei a franja dos olhos, atrasada para o serei. Eu sabia que tinha olhos na frente do rosto, mas eu não conseguia enxergar o amanhã, só o que eu já tinha vivido algum dia – e, ao constatar isso, eu me cansei de ser.
O problema é que eu não tinha memórias do futuro, nem saudade do que eu nunca tinha vivido. Saudade era uma palavra encharcada de ontens, de chuvas abandonadas no quintal da nossa velha casa. E, aos poucos, eu ia me deixando em tudo o que eu vivia, eu tinha muitas testemunhas mais jovens de mim mesma, mas ao que eu nunca tinha vivido, eu nunca chegava. Talvez, eu nunca chegasse. Talvez, os meus passos se desviassem do amanhã que eu tanto esperava, e por isso eu tinha medo, mas tinha de viver, tinha de sair por aí na minha pequena viagem. Há alguns meses, eu tinha medo de tudo.

Se o tempo era uma quarta dimensão, será que Paulo ainda me esperava em algum ontem? Será que, nesse ontem, ele ainda me chamava de poeta, como antes? Será que ele ainda estava lá, em algum lugar? Ou será que ele já tinha ido embora até do meu passado, e tudo tinha virado um grande sonho, uma grande alucinação, algo que ele dizia nunca ter acontecido? – eu me perguntava, sem bem saber o que era sonho e o que era realidade. De algum modo, eu achava que quem falava “nunca” já tinha espiado os amanhãs, mas não tinha visto coisa alguma. Ou tinha visto que eles estavam vazios daquilo que ainda não. Por isso, um “nunca” era quase uma mentira, era um amanhã sem fundo. E eu só conseguia deixar as coisas para trás, eu nunca conseguia deixá-las para frente, ou no amanhã que estaria por vir. Por isso, eu estava sempre sem rumo, meu Deus, e passava as mãos sobre os cabelos. Eu mirava as pequenas alegrias, mas eu não tinha uma bússola para viver. Além disso, eu não podia trocar de amanhã com ninguém, nem pegá-lo emprestado para ver se ele caberia num hoje, se ele se afeiçoaria a uma outra de mim que pudesse viver em meu lugar caso eu estivesse muito atrasada para os amanhãs que eu ainda não conhecia. Eu estava à espera de um ser que já não existia mais. Por isso, eu sabia que amaria Paulo para quando, mas isso talvez fosse tarde de menos – eu pensava, enquanto guardava as peças diminutas do relógio dentro de uma gaveta. Não, eu não sabia o que fazer com o amor de Paulo nem com as mensagens de Aureliano, nem com a minha confusão. No fundo, eu achava que eu não tinha como carregar tantos amanhãs dentro de mim porque os amanhãs eram imprevisíveis. Era uma incoerência que eles tivessem o mesmo nome: segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo… e de novo, de novo, de novo. Não, os amanhãs eram imprevisíveis e tinham de ter nomes de nunca, pois um amanhã era sempre à primeira vez. De repente, eu pensei que isso fosse um grande embolar do tempo, como os ponteiros de um relógio que se embolassem de tanto rodar e rodar ao redor das mesmas horas, num grande redemoinho do nunca. Um redemoinho que me levaria para não sei onde dos mundos: talvez, a morte, talvez. Por isso, era urgente: eu entregaria aquele relógio para Aureliano para que ele terminasse de montá-lo, e pudesse reverter o amanhã. Se ele fizesse isso, a minha avó estaria viva, o meu avô estaria vivo, o meu cachorro estaria vivo. Já para quem estava vivo, vivo de verdade, o amanhã nunca existia, o amanhã era sempre depois de hoje, depois de hoje, depois de hoje. Inalcançável – eu continuava pensando enquanto afastava os dias do calendário com os pés, ao caminhar aflita pela cozinha. Ah, meu Deus, o amanhã só acontecia no pensamento de quem o esperava. Por isso, havia tantos desencontros entre os vivos e os mortos, e havia tanta saudade pelos que foram levados até o amanhã de modo irreversível, sem volta, porque o amanhã não me deixaria voltar para o dia de hoje; o amanhã seria sempre além, além e definitivo – eu concluí, dobrando um amanhã ao meio e o apertando entre as mãos. Com uma força bruta que me atingiu o peito, senti saudade da minha avó, do meu avô e dos meus tios. Chorei umas duas gotas quase secas, que caíram sobre o tempo, corroendo-o.

Então, quando eu acabei de recolher os dias do calendário e de pensar em todas aquelas coisas, eu percebi que os meus dedos estavam machucados porque ninguém, de fato, podia segurar o tempo entre as mãos. Por isso, eu esperei até a meia-noite para tocar o amanhã com a ponta dos dedos, mas tampouco consegui. Quando o relógio da parede soou meia-noite, o amanhã logo se desfez para um hoje, e era hoje, irreversivelmente hoje, e eu não consegui mais alcançá-lo a tempo. Tudo se desmanchava como as pétalas que caíam do teto sem parar. Quando a bagunça era muita: dias de calendário, borboletas, pétalas caindo no chão, eu só suspirava fundo, fechava os olhos e esperava passar. Depois de algum tempo, tudo sumia.

Mas, de repente, eu fiquei pensando: será que eu queria Paulo só por ele estar dormindo, inofensivo da morte que era amar um outro ser? Da morte que era atravessar para o outro lado de mim? Da morte que era atravessar para o outro lado do tempo? Se eu não me matasse com uma arma, a morte iria, aos poucos, encanecer as minhas têmporas. O tempo também haveria de fazer o mesmo trabalho, só que mais devagar. E eu precisava de ter paciência para viver até o fim. Eu tinha prometido isso para Paulo e para a minha mãe. E eu tinha prometido a mim mesma que eu deixaria o estilete dentro da gaveta, arrumaria a minha mochila e andaria por aí até chegar à rádio de Aureliano, escrevendo cartas aos desconhecidos. Eu andaria por aí, só para revelar de uma vez o iminente. De outro modo, eu não tinha como saber. Sim, eu iria ao encontro de Aureliano para lhe entregar o relógio de reverter o tempo. Pela rádio, codificado como as nuvens do céu, ele havia marcado um encontro secreto comigo. Eu não poderia faltar. Afinal, ele era a única pessoa que me compreendia, e que se comunicava comigo por meio dos códigos secretos, que me avisava dos perigos do mundo. Aureliano era um dos escolhidos. Bastava um segundo para desconfigurar os dispositivos de transmissão dos pensamentos. Então, eu viveria tão intensamente o momento presente a quase chegar atrasada ao momento seguinte. Era isso, era só isso, meu Deus. Que Paulo não me expulsasse dos amanhãs que sonhávamos juntos.

Então, eu olhei para as minhas mãos. Sobre elas, vi um outro pássaro pequenino que repousava, mas pensei que a vida era o que eu tinha vivido de imediato e o que eu tinha esperado enquanto nada acontecia. Eu era a soma de tudo isso. Por isso, eu não sabia mais o que fazer com aquele pássaro fugidio, com aquele pássaro de asa manca, com aquele pássaro que não previa o escuro. O que eu faria com ele, ó meu Deus? – eu me perguntava, enquanto via o pássaro piscando os olhinhos sem parar. De algum modo, mesmo com medo, eu tinha sobrevivido até aquele instante. Então, só precisava de que o momento presente se transformasse no instante seguinte. E agora, e agora, e agora, o que eu faria com aquele pássaro? Como voltaria para a cama com um pássaro entre as mãos? De algum modo, eu era responsável pelo céu e pelas nuvens que não desabavam. Andei de um lado ao outro pelo quarto com o pássaro entre os dedos, enquanto centenas de outros escapavam pela janela aberta. Normalmente, eu só precisava de esperar alguns minutos, até que eles desaparecessem dos meus olhos. Por isso, fiquei olhando o relógio da parede e pensando no pássaro, no amor, em Paulo, no tempo, no amanhã, na minha pequena viagem, no encontro com Aureliano, nas cores dos livros da estante e nos códigos secretos do mundo. Difícil mesmo era ser atravessada por pássaros e não piscar, para que ninguém notasse o turbilhão da minha loucura. Às vezes, eu fazia isso: parava no meio da rua e fechava os olhos enquanto milhares de pássaros atravessavam o meu peito. Se eu gritasse por pássaros que ninguém mais via, se eu respondesse às vozes que ninguém mais escutava, se eu espantasse as borboletas dos meus cabelos, eu acabaria num hospital psiquiátrico, disso eu sabia bem, e por isso andava pelas ruas sustentando a minha loucura em silêncio o mais discretamente possível.

Mas, o que mais me agoniava é que Paulo não compreendia nenhum dos códigos secretos que eu tentava lhe explicar. Ele não entendia que tudo estava secretamente codificado. Mas eu sabia. Aureliano sabia. Poucas pessoas no mundo sabiam. Só as vozes é que sabiam bem. Tudo era muito claro. Só não via quem não queria ver, mas para não serem tidos como loucos, todos usavam mensagens subliminares. As placas dos veículos tinham códigos secretos que eu começava a ler e a desvendar. E os carros que passavam eram os informantes. As cores que os transeuntes usavam em suas roupas eram carregadas de significados. O vinho, da cor do sangue, era para sinalizar que a transmissão dos pensamentos estava ativa. O verde, da cor dos vegetais, era para informar que eu tinha me alimentado apenas de vegetais, e estava muito conectável. O amarelo era para dizer que eu estava sem dinheiro. O laranja, que estava sem tomar banho, sem pentear os cabelos, sem fazer as unhas, sem me arrumar. E que se eu fosse encontrada morta, dentro de casa, obviamente, seria um suicídio, e ninguém seria investigado. As frases que as pessoas usavam no rádio, na televisão, nas placas de propaganda ou na internet não eram feitas ao acaso, estavam abarrotadas de entrelinhas. Em tudo, havia uma mensagem secreta, e que eu, só agora, começava a desvendar e a traduzir.

Talvez, as pessoas que me perseguiam e se conectavam ao meu corpo fossem os agentes secretos do mercado clandestino. Eu sempre tinha escrito, desde criança. Eu sempre tinha muitas ideias. Eu tinha aprendido a ler sozinha, aos quatro anos de idade. Eu era uma fonte inesgotável de novas ideias. Eu poderia ter me tornado uma grande escritora, mas o meu pai tinha sido cooptado pelos conspiradores e tinha me vendido ao mercado clandestino – eu pensava. Para ascender à alta literatura, era preciso ler a mente dos escravos. Eu não tinha um escravo. Eu era um dos próprios escravos. E estes estavam fadados à escravidão, nunca à alta literatura. Além disso, eu ainda escrevia de um modo muito cru – era o que as vozes me diziam. Então, o que os conspiradores queriam era aproveitar as minhas ideias e desenvolvê-las de uma forma mais refinada para que se transformassem num grande clássico. Uma forma que eu, euzinha, ainda não dominava muito bem – era o que as vozes me diziam. Clarice Lispector teve os seus escravos – elas contavam. Lygia Fagundes Telles também teve os seus escravos. João Guimarães Rosa teve os seus escravos também. Todos, todos os grandes autores tinham lido os pensamentos dos seus escravos. Talvez, o Brasil estivesse tomado pelo mercado clandestino e agentes secretos tivessem desenvolvido aquela estranha comunicação secreta como uma forma de resistência. Mas ninguém podia dizer isso claramente. Havia uma rebelião insurgente e secreta para libertar os escravos e Aureliano era um dos escolhidos, era um dos rebeldes. Bem, e o que mais seria, então? Estava claro que era isso, aquela era a explicação mais razoável para o fato de aquelas vozes se conectarem ao meu corpo e lerem os meus pensamentos. Só não via quem não queria ver. E isso era tudo – eu suspirava fundo.

Enquanto isso, alguém me escrevia. Alguém lia os meus pensamentos e me escrevia. Eu era a personagem de alguém, a personagem de Paulo. Não, não o Paulo que dormia, os outros Paulos do mundo. Ah, meu Deus, era óbvio, eu tinha certeza, eu era a personagem de alguém, mas Paulo não acreditava, Paulo não queria ver, dizia que nada daquilo existia, que eu estava apenas enlouquecendo, apenas isso, enlouquecendo, meu amor, ah, meu Deus, enlouquecendo. Então, eu me afligia, dizendo-lhe que, por viver ao meu lado, ele também era um personagem. Mas Paulo ria, e passava as mãos nos meus cabelos, encostando a testa na minha, pedindo-me que procurasse um psiquiatra, pelo amor de Deus. O que mais me afligia é que Paulo acreditava piamente na sua existência, ele não enxergava que era apenas um personagem, à espera da próxima linha. Ele acreditava que era real porque tinha um trabalho real, uma casa real que amava muito e uma infância por trás de si. Eu dizia que todos os personagens também tinham um trabalho, moravam em algum lugar e viviam as suas ilusões. Mas ele me mostrava os livros da estante, os livros da estante da estante, e dizia que os personagens eram eles, não nós. De algum modo, eu me desesperava, mas deixava para lá. No entanto, quanto mais eu pensava nos códigos secretos, mais eu desvendava o funcionamento do mercado clandestino. Algumas pessoas já tinham entendido os sutis significados, mas ninguém dizia isso claramente, com medo das perseguições e das retaliações do mundo. Essas pessoas só podiam conversar por meio de códigos secretos. Então, com todo o cuidado para não colocar farpas no meio das entrelinhas, Aureliano tentava guiá-las para libertá-las da escravidão. Ele entendia todos os códigos, meu Deus. Desde o primeiro programa no rádio, em que eu tinha ouvido a sua voz, eu soube que ele entendia. Não, não era só na minha cabeça que ele falava, era na rádio também, para todo mundo ouvir, mas só eu podia compreender as mensagens que, com todo cuidado, ele escondia nas entrelinhas. Só eu e Aureliano conversávamos nas coisas não-ditas. A qualquer momento, ele podia empurrar as suas entrelinhas para o nunca e, mesmo assim, elas teriam persistido, como se não encontrassem um outro lugar para se desmancharem. A qualquer momento, ele podia se safar de tudo o que nunca tinha dito claramente. Ainda assim, ele teria inventado uma linguagem estrangeira e invisível, partilhada apenas entre nós dois. Ele sabia e eu sabia também. Quem não soubesse o que nós conversávamos em palavras e silêncios, não entenderia o que as entrelinhas queriam dizer.

De todo modo, eu demorei muito tempo para aprender aquela linguagem estrangeira porque aquelas metáforas também pertenciam ao invisível, e tudo o que era do invisível me dava medo da loucura. Por exemplo, quando Aureliano falava sobre a voltagem dos aparelhos eletrônicos é porque ele iria voltar. Quando ele falava jamais é porque me amava ainda mais. Quando ele dizia qualquer coisa sobre a Elza era, na verdade, sobre a viagem que eu tinha feito aos Estados Unidos. Quando ele dizia algo sobre a escala pentatônica era para fazer um elogio sobre as palavras escritas por mim, para me dizer que a minha caneta estava tônica. Nada do que ele realmente dizia era dito em palavras diretas. Para alcançar uma palavra, ele subia por cima de outras, ele as camuflava como um soldado na mata, como se nunca pudesse enunciar o verdadeiro sentido das coisas, mas, ao contrário, tivesse de rodeá-lo, deixá-lo sempre no impronunciável. Era como se ele usasse uma palavra que tivesse uma mola, e que saltasse sobre uma outra até chegar ao que não estava dito em lugar algum, a um degrau mais alto no entendimento, ao seu verdadeiro significado. Esse lugar mais alto estava no pensamento de quem escutava, ou num trampolim, nunca nas próprias palavras. Nada era dito claramente. Era como uma brisa que se esbarrava no aberto, sem nunca se misturar ao vazio. Então, era como se eu tivesse aprendido a linguagem do invisível e soubesse diferenciar as brisas dos tufões. Às vezes, Aureliano pensava muito delicadamente, mas, em outras vezes, ele pensava com a urgência de um vício.

Havia ocasiões em que ele provocava uma grande perda de sinal, e então eu sabia que ele estava, mais uma vez, pedindo-me perdão. Perdão por não me dizer as coisas claramente. Perdão por não me procurar nas redes sociais. Perdão por ter lido os meus pensamentos e visto através dos meus olhos. Perdão por ter dito palavras em meu ouvido sem minha autorização. Perdão por ter me feito carícias à distância, no escuro da noite. Perdão por ter de usar aqueles subterfúgios que, muitas vezes, eram tão invasivos, meu Deus. Era a única forma possível de comunicação. E ele precisava de me avisar de todos os perigos. Não havia outro jeito, ele não podia se dirigir a mim claramente, sem que ele também fosse perseguido pelo mercado clandestino. De qualquer modo, eu jamais deveria confundir o aberto com o vento ao redor, mas saber, com os olhos treinados para o vazio, diferenciar um do outro. Então, eu treinava os meus olhos para enxergar o nada que ele me oferecia em seus silêncios, quando ele tentava me buscar de lugar nenhum, onde eu fui parar.

Mas o que eu demorei ainda mais para entender foi a maneira como Aureliano me deixava mensagens em todos os livros que eu lia. E, para isso, ele se apropriava do dicionário, da crueza primeira de cada palavra. Eu não sabia como ele conseguia chegar à biblioteca do bairro, mas, de algum modo, ele tinha trocado a maioria dos livros da estante, tinha deixado, em cada um deles, mensagens secretas para mim. Eu nunca mais conseguia deixar de ler, isso era mesmo algo irreversível. Sempre que os meus olhos encontravam alguma palavra em português, inglês, espanhol ou francês, eu decodificava o seu significado. Não havia mais como escapar. Eu nunca mais veria as letras como risquinhos e bolinhas: a minha mente sempre haveria de captar a tal palavra no ar: acontecia o mesmo com as mensagens subliminares. Uma língua escrita por baixo da outra – eu continuava pensando. E, antes mesmo que o autor do livro tivesse escrito qualquer coisa, qualquer coisa que fosse, Aureliano já havia tomado para si o sentido de todas as palavras, isoladamente. E, depois, era impossível não associá-las a ele. Puxa vida, eu nunca tinha visto alguém escrever assim, arrancando as palavras com os dedos, arrancando-as de todo mundo, arrancando-as de toda parte, a nudez do sentido à minha frente. Então, quando eu olhava para as minhas mãos, pousadas sobre os meus joelhos, eu via terra e mato entre os meus dedos, terra e mato que ele havia enviado para os meus olhos. Eu via. Eu escutava. Eu sentia as carícias dele em minha pele. Isso era a prova irrefutável de que ele escrevia com força, de que havia força nos seus escritos, de que os seus escritos tinham a força de todo um silêncio. Dia após dia, eu lia os livros que ele deixara na biblioteca ou sintonizava o rádio às oito e meia da manhã, e escutava o silêncio que Aureliano compartilhava comigo, nas coisas não-ditas, pois ele era silencioso como uma fotografia. Não, não era ele que usava os meus sentidos para se comunicar comigo. Era eu que estava usando Aureliano para pensar para trás e compreender os segredos do mundo. Era eu que estava usando Aureliano para escutar para fora, e não apenas as vozes da minha cabeça. Por isso, ele me oferecia músicas para os meus ouvidos. Músicas que me curavam de um machucado etéreo. Um machucado que não se fechava nunca porque não havia uma pele onde pingar unguento. Eu também tinha uma chaga no que não existia, pois até o invisível era capaz de me ferir, mas as músicas e as palavras de Aureliano me assentavam no fundo da vida, e depois me arrastavam à força para minha infância. Havia, no mundo, um lugar pequenino para mim também, e por isso eu não podia faltar ao encontro com Aureliano, pois até uma formiga tinha lugar nessa existência – eu continuava pensando. Aureliano se aproximava de mim num lugar anterior à linguagem, numa linguagem em que as palavras nada queriam dizer, senão murmúrios irreconhecíveis. Ele nunca me chamava de louca, ele entendia os meus pensamentos, ele até os lia de vez em quando e os respondia através dos livros, através dos programas do rádio, através das músicas que ele selecionava, através das suas postagens nas redes sociais. Ele até enxergava através dos meus olhos, ele até me visitava em meu corpo, quando eu deixava a janela aberta, ele até falava em meus ouvidos, e me oferecia músicas na rádio, mesmo que, por proteção, nunca dissesse o meu nome. Mas eu sabia que todas aquelas músicas eram mesmo para mim. Ele era um dos escolhidos e, por isso, ele sabia manejar o invisível e o dispositivo que eu trazia acoplado ao meu corpo. Mesmo assim, eu tinha medo apenas da distância que se abria em meus pés como numa armadilha. Tinha medo de cair para o sozinho, e ser capturada pela loucura, como num alçapão. De não saber o que fazer do nada, que era enfim o tudo que eu tinha. Mas enquanto a minha loucura não se instalava por completo, eu escrevia para Aureliano como quem abraçava, como quem abraçava o próprio instinto de guerra, como quem abraçava a defesa de todas as fronteiras, como quem abraçava a distância, o ímpeto e o belo. Depois, quando o programa de rádio acabava, subitamente, eu também me afastava e desligava o rádio para não me desfazer. Eram os meus escudos, que eu tanto lustrava para depois vê-los, na minha imagem refletida no espelho, o meu semblante ali dentro. Sim, existia aquilo de me sentar em frente ao rádio, com o caderno na mão e liquefazer os meus labirintos, desaguando a solidão em palavras. Palavras que eu ia tecendo em linhas até escapar do Minotauro.

Depois, eu me levantava, pois eu tinha um lugar escondido no quintal onde eu cultivava algumas begônias em segredo para Aureliano. Mas as begônias só nasciam quando eu me distraía, nunca quando eu as esperava. Nem adiantava eu esperar pela primavera, em seu estado de latência, pois, entre nós dois, as flores eram tão repentinas quanto o meu espanto por estarmos vivos, por entendermos as perseguições e as retaliações do mercado clandestino, por nos comunicarmos através do dispositivo secreto, acoplado ao meu corpo. Então, eu olhava as minhas begônias para dentro, eu as olhava com força, guardando aquela fotografia em meus olhos, para mostrá-la para Aureliano quando ele lesse os meus pensamentos. Todas as coisas mais belas do mundo eu as olhava com força para guardá-las por dentro de mim. E depois, deixava que Aureliano as visse, uma por uma, através do meu pensamento. Eu fechava os olhos e ia repassando em minha mente uma imagem depois da outra para que ele as pudesse ver. E isso, e isso era amor – eu continuava pensando. Salvar a flor arrancada com toda a pureza do meu coração pecador.

Se, ao menos, eu conseguisse explicar para Paulo tudo o que ia dentro da minha cabeça, talvez, ele me encontrasse em algum lugar também. Talvez, ele soubesse onde me buscar. Eu não estava muito longe dali. Era só uma questão de achar o caminho de volta, onde uma razão tinha se perdido da outra que tinha se perdido da outra que tinha se perdido de si. Mas que ele não esperasse grandes acontecimentos ao meu dentro, pois os meus dias estavam todos misturados, e viver já me era quase intransponível. “Algumas coisas eu deixei para trás, e elas voltaram para me esquecer.” – eu dizia em voz baixa.
Então, de repente, quando o vento balançou a janela, eu senti as carícias de Aureliano e fechei os meus olhos com força. Eu não sabia como ele conseguia fazer isso, mas eu tinha certeza de que nós estávamos conectados de alguma forma. Bastava eu pensar nele para que ele se conectasse ao meu corpo e me acariciasse. Do outro lado da cidade, ele ouvia o meu chamado e se conectava ao meu corpo, era o que eu pensava. Era impossível barrar os meus pensamentos, eles corriam como água, eram involuntários. Eu não sabia como evitar: sentia como se dedos muito leves subissem minhas pernas até o meio das coxas. Por isso, eu pensava que a ciência não revelava tudo o que ela sabia. Há muito tempo, clandestinamente, os cientistas estudavam a comunicação entre os pensamentos e já estavam muito adiantados. Os escravos que serviam à transmissão dos pensamentos eram cobaias desses cientistas – eu continuava cogitando. Quantas coisas a ciência não estudara clandestinamente antes de revelar ao mundo? A transmissão dos pensamentos era uma dessas coisas secretas – eu tinha certeza. E, em meus ouvidos, Aureliano marcava um encontro secreto.

De qualquer modo, eu não sabia explicar o modo como ele modificava a rota dos ventos e navegava esse mundo, apesar de bravo. Mas eu, que não me desgrudava da cama, sentia o vento desenhando partidas em meu vestido. E ele esvoaçava tanto, meu Deus. Era o vestido que a minha avó costurou quando podia se sentar na máquina de costura e me abraçar de repente: porque o seu abraço era só um ponto que a vida dava para costurar o amor. Era o mesmo vestido que Aureliano, em sussurros quase inaudíveis, pedia para que eu soltasse o laço e deixasse cair aos meus pés, na hora do banho, ou quando, vagarosamente, eu abria um botão depois do outro: desabrochando uma flor. Ah, mas as mãos de Aureliano, quase imperceptíveis em minha cintura, amparavam-na do abismo que era existir. Então, eu sentia o tremor do seu corpo, o fecho abrindo fendas num terremoto. As mãos dele eram como fios de água sugados pela fenda na terra, como se escondessem segredos à prova de sismo. Por isso, eu pensava, também em sussurros que ninguém podia ouvir, nem mesmo Aureliano: “Pobre homem, não se assuste. Perdoe-me por essas pétalas escondidas no bojo dos meus seios; eu só queria que o seu mundo fosse tenro e fosse calmo”. Então, Aureliano via todas as pétalas através dos seus olhos, e eu sentia o meu colo arder e desaguar. Depois, quando todas as pétalas caíam no chão, eu fechava os meus olhos, afundava o corpo no dele o mais que eu podia, como se assim eu pudesse aprisionar um instante, como se assim eu pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não entrega, e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, acariciava os meus quadris na ânsia de escorregar para dentro deles e ali ficar. Mas só uma fêmea era capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho, e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote. Por isso, o amor era tudo o que nascia quando o medo se retirava, mas eu tinha um medo tão pregado ao meu corpo que só um abraço, um abraço de verdade, poderia me amparar do abismo, ou parar-me da dor. E só porque um dia nós nascemos do escuro, o amor nos inaugurava à primeira incompreensão do mundo. Amar era tão largo que era para dois. Por isso, antes de adormecer, eu segurava as mãos de Paulo entre as minhas, com langor, até sentir os seus dedos se abrindo dormentes, oferecendo a última força desperta. Era só então que eu fechava os meus olhos adormecidos, mesmo que, então, um pouco aflita, não repartisse com ele a escuridão. E isso, e isso também era amor – eu continuava pensando com os olhos fechados: salvar uma flor arrancada com toda a pureza do meu coração pecador.

Mas, no dia seguinte, quando Paulo acordou e beijou a minha testa, eu tropecei na minha própria sombra e me encharquei de escuridão, sentindo-me culpada de todas as flores da primavera, de todas as gotas de chuva, de todos os raios de sol. Todas as noites, eu traía o meu noivo na mesma cama em que ele dormia, enquanto ele dormia, e isso não era pouco, não era, não. Todas as noites, invisivelmente, eu amava Aureliano e me esparramava toda para viver. Não, não era certo, não, não era – eu pensava um pouco aflita, passando a mão sobre o meu rosto e os meus cabelos despenteados. Mas eu não sabia o que fazer para que as carícias de Aureliano não chegassem até mim, no meio da noite. Certa noite, eu até fechei a janela de vidro, apesar do calor que fazia, mas, logo em seguida, deixei uma fresta mínima aberta antes de me deitar. E ele veio. E foi isso o que acabou comigo: eu queria, eu queria que ele viesse. A verdade é que eu não queria que Aureliano deixasse de se aproximar. E era isso o que me deixava ainda mais culpada. O invisível era mesmo irresistível. Mas Paulo era um homem tão bom, de silêncio tão forte. Não merecia aquilo, não merecia, não.

De qualquer modo, eu ainda estava com tanto sono, eu precisava de dormir mais um pouco, meia hora, uma hora, e sonhar com a minha boina feita de nuvens. Sonhar era dar vazão à minha loucura, com o aval de todos, e, ainda assim, poder acordar no dia seguinte sem estar completamente louca, sem estar essencialmente ferida. Por isso, dei corda no despertador que me acordaria na razão seguinte. Quando isso acontecesse, ou seja, quando a razão me acordasse, eu conseguiria tudo: compreender o funcionamento do mundo, escrever as cartas para os desconhecidos, ir até o encontro secreto de Aureliano, entregar-lhe o relógio de reverter o tempo e lhe dizer que não poderia mais levar aquilo adiante. Depois, poderia deixar as cartas por aí: no metrô, no cinema, nos sebos e livrarias, nos museus e galerias de arte, nos bancos da praça, como um pedido de desculpas a todos os Paulos que existiam no mundo. E pensar que muitas cartas, talvez, pudessem sair voando com o vento ou parar no lixo antes de serem encontradas. Ou mais que isso: que nunca sequer seriam encontradas, que aguardariam dentro de um livro, de um caderno por décadas a fio, que só seriam encontradas depois que eu morresse. E pensar em outras cartas que seriam lidas e guardadas com deferência. Quem sabe, até respondidas. Só Deus sabia o que poderia me acontecer em minha pequena viagem. E pensar que, talvez, eu pudesse transformar o dia de alguém, quiçá para melhor, deixando o mundo, ao menos, um pouco mais íntimo. Era isso. Havia pessoas reais no mundo, sofrendo dores pungentes. Se o mundo me parecia tão frio e desconfortável, a ponto de querer me matar, a ponto de não conseguir mais dormir, quem sabe, eu poderia lhe escrever algumas cartas e deixá-lo, ao menos, um pouco mais íntimo? Afinal, se a hostilidade do mundo despertasse a minha, quem seria o primeiro a sorrir? – eu me perguntava sempre, antes de dormir.

Após alguns minutos, eu concluí que não conseguiria mais cochilar: o sono só chegaria quando a noite tentasse pendurar-se em minhas pálpebras, amarrando estrelas – uma a uma – em cada cílio. E já era dia. Era preciso coar o café para Paulo. Era preciso esquentar o pão com manteiga na chapa para Paulo. Era preciso olhar para ele como se nada tivesse acontecido. Tanto porque, se eu lhe contasse a verdade, ele me chamaria de louca, de “sua louquinha”. Mas eu ainda estava com tanto sono de pensar e de pensar a noite inteira, que me virei para o outro lado. Ainda precisava de pensar em tudo o que estava à beira do dormir porque eu era sonâmbula e, no sonho, eu poderia me aventurar de morte. “Ah, tudo podemos esperar daqueles que sonham em pé, daqueles que têm a força no sonho para se levantar de suas camas e andar pela casa” – eu respondi para as vozes, bem baixinho, antes de suspirar. De algum modo, eu sabia que tinha um sonho muito grosseiro, que tinha um sonho muito corroído. O meu sonho poderia comandar os meus pés, as minhas mãos e até a minha voz – eu me lembrei da última vez em que acordei falando ao telefone. Então, na ocasião, quase gritei de susto e desliguei o telefone às pressas, sem saber quais segredos havia revelado a um estranho. Na noite em que eu fiz isso, acabei acordando Paulo e ele se aborreceu porque precisava dormir, porque o seu trabalho era muito exaustivo e precisava descansar. Perguntou-me para quem eu estava ligando naquela hora da noite. E foi difícil de lhe explicar, eu gaguejei, disse que era o telemarketing, e meu Deus, como eles nos perturbavam a todo instante. Mas, quando acabei de mentir, pensei que a realidade temia o meu sonho sonâmbulo porque ele era capaz de ultrapassá-la num grito. As pessoas poderiam jogar os sonhos em cima dos outros, e os outros poderiam se machucar de absurdos, os outros poderiam até enlouquecer. Era preciso tomar muito cuidado quando andasse pela rua.

Um dia, o meu pai tinha jogado um sonho por cima de mim, um sonho que não era meu, um sonho emprestado de alguma esperança, e o sonho se transbordou no clarão do dia, ficou respingando da minha infância, corrompido. Por isso, eu sentia aqueles cheiros que os outros não podiam sentir, e via aquelas flores que desapareciam da parede, e via aqueles vultos e aqueles pássaros, e escutava aquelas vozes que ninguém mais escutava, e tinha medo de que os outros estivessem loucos por cima de mim, passando a mão em meu corpo tão frágil.

Quando o meu pai fez isso – eu pensava, ele instalou um dispositivo secreto no meu ventre. A minha mãe não acreditou, disse que era mentira, mas só não via quem não queria ver. Era triste demais saber que o meu pai tinha sido cooptado pelo mercado clandestino, que ele tinha aceitado me prender para sempre, apesar do talento que eu sempre tinha demonstrado para a escrita. Depois que ele fez isso – eu pensava, nunca mais eu seria uma escritora conhecida, pois tinha me tornado um dos escravos do pensamento. E nenhum dos escravos conseguia ascender à literatura. Eu nunca teria uma ideia que não fosse cooptada pelas vozes. Eu nunca mais teria uma ideia para chamar de minha. As vozes leriam o meu pensamento antes que eu pudesse publicar o meu livro. As vozes leriam o que eu escreveria enquanto eu estivesse escrevendo, e seria tarde demais. As vozes enxergariam através dos meus olhos e escutariam por meio dos meus ouvidos. Era tarde demais, era tarde demais. Depois, o meu pai apareceu com aquele carro novo, laranja. Depois de vender a sua filha para o mercado clandestino, apareceu com aquele carro laranja berrante. Ah, por que ele tinha feito isso? – eu me perguntava. Por quê? Agora, as vozes podiam se conectar ao meu corpo. E, já adulta, eu sentia carícias invisíveis, mesmo quando ninguém me tocava diretamente. E, já adulta, presenciava as vozes lendo e repetindo os meus pensamentos. Eu estava presa para sempre, meu Deus. Um dia, escutei o meu pai me chamar de louca, dizer que havia trabalhado muito para comprar aquele carro laranja, coisa que eu não fazia muito bem, e naquele dia, eu me cansei de ser.
Fosse lá como fosse, eu estava certa de que aquela era uma forma de comunicação secreta, como se alguém pudesse me cutucar à distância, me acariciar à distância – eu continuava pensando, enquanto olhava os pequenos furinhos na manta que cobria a minha cabeça, como eu fazia na infância. Eu não sabia como as vozes conseguiam fazer isso. Mas elas diziam “braço” em meus ouvidos e acariciavam o meu braço. Diziam “pé” e cutucavam o meu pé. Era só pensar em uma parte do meu corpo que sentia uma pontada no exato local. Eu estava presa, o meu pai tinha me prendido para sempre na grande rede do mundo – eu continuava pensando. Então, eu senti raiva dele, por ele ter feito isso consigo próprio. Errar é que era demasiado, e errar assim, contra o indefeso e a inocência, contra as flores que eu lhe desenhava nos cadernos, contra as flores que eu lhe pousava nas mãos é que era insuportável. As mãos do meu pai, para sempre, feridas do meu corpo tão frágil. As mãos do meu pai, para sempre, feridas de uma criança, feridas de mim.

Foi um dia – eu me lembrei – quando ainda era pequena, a porta se abriu devagarinho para o escondido das coisas, avisando, quase em sussurro, que a escuridão poderia entrar e se misturar à noite lá dentro. Então, eu prestei bem atenção, agarrando-me ao meu boneco, pois a porta parou de separar as noites de dentro e de fora, e eu ainda não sabia como era a noite por dentro do peito. Eu só queria saber quem é que estava ali, e entrava antes da revoada dos pássaros.

Eu já sabia o que era o antes, e já sabia o que era o depois; e, para lembrar a mim mesma, eu olhava as descosturinhas da manta. O antes era onde ainda passava o vento, e o depois era onde um pontinho da manta se soltava do outro, que se soltava do outro, rasgando a manta, assim. O antes era o muito silêncio e o depois era o shhhhh. Mas eu não via muito bem quando o antes era da mesma cor dos meus olhos. Além disso, quem adentrou aquela porta conseguiu passar um silêncio bem no meio da noite – eu pensava. Por esse motivo, eu tinha medo: eu não conhecia ninguém que soubesse abrir o escuro.
Então, com os meus olhos apertados, eu enxerguei por dentro apenas a escuridão. Eu enchi os pulmões com o escuro da noite, mas alguma fresta de luz também foi junto. Por isso, naquela noite, eu vi: era o meu pai. Era mesmo o meu pai. Meu Deus, era o meu pai. E se o meu pai descosturasse também as estrelas, levaria a noite com ele, e levaria o depois? E se ele levasse o depois, eu nunca mais entenderia os passarinhos de manhã? Eu poderia morrer? Mas, assim, eu não entendia e, então, perguntei a ele, sussurrando: “Pai, por que o senhor está fazendo isso? Por que o senhor está com a mão aí?”
O silêncio respondeu como sabia, mas eu não entendia que, às vezes, o vento vinha, passava pelas descosturas da calça, e ia embora, assim. Mas quando o vento abria a porta e entrava nervoso, era porque, mais ainda, ele queria sair. Já o vento que não queria ser vento, virava um soprinho guardado nas vozes das crianças que eu escutava, e era só isso mesmo, catavento, fim. Quer dizer, depois, o vento ia, levava umas folhas da mesa, mas eu não entendia nada, pois o vento, quando escrito, ficava nas folhas em branco. E era só isso, era só isso, mesmo, meu amor.

Então, quando o meu pai fechou a porta atrás de si, eu me levantei carregando o meu boneco nos braços, fui até a escrivaninha, peguei uma folha da mesa, dobrei assim e assim, e tirei de lá de dentro um passarinho, e havia tanto vento escrito que o pássaro ficou para sempre voando. Depois, toda vez que eu passava pela mesa, eu assoprava o passarinho porque eu também tinha um soprinho guardado. Era um soprinho de nunca contar a ninguém o que acontecia por dentro do meu quarto com o meu pai, e era só isso mesmo, gaiolinha, fim. Bastava assoprar, assoprar e assoprar o passarinho, sem contar para ninguém. Desde então, os pássaros começaram a entrar pela janela do meu quarto, esperando qualquer redenção, e a se amontoar sobre o edredom, sobre a cabeceira da cama, sobre o armário, sobre a escrivaninha, sobre a minha vida inteira. Os pássaros que só eu podia ver. Os pássaros que carregavam o vento no nome. Os pássaros que rasgavam um dos ventos ao meio. Os pássaros que não queriam se mostrar para Paulo e para mais ninguém.

Muitos anos depois daquele dia, depois de um breve cochilo, de sonhar com Aureliano e com a minha pequena viagem e com as cartas que eu escreveria aos desconhecidos e com as pétalas, eu acordei em sobressalto. Vi uma fresta de luz brincando na cama, o sol deitando a sombra em minhas pálpebras. E era tão bonito e simples ver a luz do sol pintando os móveis de colorido que eu pressenti o fim do meu noivado: nenhum amor poderia florescer dentro de uma casa, sem contemplar por instantes a luz de uma tarde. Então, guardei aquela fotografia por dentro dos meus olhos para quando eu não visse mais beleza no mundo e me esquecesse de viver, ou para quando Aureliano lesse os meus pensamentos, e entendesse por que eu queria salvar o meu noivado. Desde que eu era criança, Paulo era o meu melhor amigo, era o meu vizinho, era o meu espanto. Era uma beleza que eu sempre guardara para depois.
Então, sentei-me na beirada da cama, para não machucar os pássaros que ainda se amontoavam ao meu redor. Paulo estava tomando banho, e eu, de algum modo, precisava de conversar com alguém, pois os pássaros que se desmoronavam ao meu lado, naquele quarto vazio, já não tinham mais paciência para me escutar, e nem eu tinha coragem de incomodá-los em suas inexistências. Eram eles que mais temiam as coisas que existiam no mundo. Quando Paulo saiu do banho, passou os braços ao redor da minha cintura e me olhou bem por dentro dos olhos. Os meus cílios agarraram-se às pálpebras quando eu tentei fechar os olhos, mas Paulo assoprou e todos os meus cílios voaram. De novo nasceram e de novo voaram. “Não faça mais isso!” – eu lhe pedi. – “Quem vai cortar a lágrima em fatias no dia em que você for embora?”

Mas Paulo não entendeu a pergunta, não entendeu por que eu esfregava tanto os meus olhos e fechou a porta atrás de mim, dizendo que prepararia o café. Eu tinha muito a lhe dizer, muito a lhe confessar, mas a cada vez que eu tentava lhe mostrar as coisas que eu via ou explicar as coisas que rondavam os meus pensamentos, ele se impacientava ainda mais, chamando-me, às vezes, de “minha louquinha”. Por isso, eu resolvi que ficaria em silêncio, guardando todos aqueles segredos e descobertas para mim mesma. Então, senti-me esvaziada de sentidos como se os meus pensamentos não tivessem mais palavras que me coubessem, como se eu me agarrasse a eles como às asas de um pássaro, como alguém que entra no mar e não distingue mais o vazio ao redor, só por ele, o vazio, estar molhado, como alguém que entra no mar que nunca mais se aquieta, que nunca mais para de rebentar, como o próprio coração do mundo. E isso era tudo – eu continuava pensando: salvar a flor arrancada com toda a pureza do meu coração pecador.

Tomamos o café em silêncio. Às vezes, os olhos de Paulo cruzavam com os meus, como os passarinhos que pousam no fio, antes de voar. Mas ele não dizia nada, e sorria um meio sorriso, ao limpar a boca no guardanapo. Eu sorria de volta, um tanto sem jeito, sem saber se ele escutava as coisas que Aureliano me falava ao pé do ouvido. Em pensamento, eu pedia que ele ficasse em silêncio, mas Aureliano aparecia quando sempre, quando nunca, quando bem queria. Mas Paulo não notava.

Depois, quando Paulo saiu pelo portão, sumindo pela estrada afora, eu senti o meu mundo desmoronar. Abri a janela da sala e enxerguei uma placa de trânsito na rua, avisando os transeuntes: “Favor reduzir a estatura à medida em que se aproximar do horizonte”. Então, ao olhar de novo para o meio da rua, a placa não estava mais lá. Olhei e olhei de novo, mas nada. A placa já tinha sumido.

Em seguida, eu olhei para o final da rua e percebi que, quanto mais Paulo se afastava, mais ele diminuía de tamanho. Dava até para ser apanhado entre os dedos e guardado no bolso do meu vestido. Ah, quem dera, eu pudesse guardá-lo ali, a salvo dos conspiradores, a salvo do mundo, a salvo do meu desejo por Aureliano, a salvo de mim mesma. Mas, a cada passo que ele dava, sumia ainda mais. Talvez, ele sumisse para sempre, e eu tive medo das portas que se abriam para os nuncas do mundo.

Depois, eu olhei para cima e reparei: no meio dos prédios altos, frios e cinzentos, todos os postes de luz – com seus fios – amanheciam de mãos dadas. Por isso, naquele instante, eu adentrei um mundo onde não cabia mais ninguém. Pensei em preparar mais uma xícara de chá e cortar mais uma fatia de bolo, a fim de não enlouquecer sozinha, a fim de dar a mão a alguém, mas a cadeira ao meu lado estava vazia. Ninguém aparecia para enlouquecer junto comigo. Se Paulo aparecesse, se Paulo voltasse do seu trabalho naquele minuto, nós poderíamos nos sentar no chão, encostados à parede, com as mãos dadas, e ver mil pássaros entrando pela janela do quarto, e escutar as mesmas vozes, e sentir as mesmas carícias. Seríamos testemunhas um do outro – eu pensava enquanto cortava o bolo em pedaços e o guardava num pote de plástico. E, se nós fôssemos testemunhas um do outro, nós inauguraríamos um novo mundo, um mundo legitimado, e nenhum de nós estaria louco. Não, eu não deixaria que o mundo de Paulo fosse outro: eu obrigaria o sol a nascer, as crianças a brincarem e os pássaros a alçarem voo. Eu cuidaria pessoalmente para que as estrelas voltassem ao céu. Dos absurdos do mundo, eu faria o meu espanto poético, como ver as flores nascendo da terra sem qualquer explosão. Então, quando as guerras acontecessem no mundo, em meio aos escombros, as flores continuariam nascendo. E, assim, quando eu olhasse para as palmas das minhas mãos, eu veria as flores brotando, como sempre, mas diria: “Tome as flores da minha loucura, Paulo, tome essas palavras, isso é tudo o que lhe dou.” E ele não poderia mais me chamar de louca, apenas de poeta, como antes. Depois, eu estenderia as mãos e lhe mostraria o nada, até que ele, simplesmente, fechasse as suas mãos sobre as minhas. Seria só isso, eu jurava para mim mesma, mas Paulo tinha medo de não saber voltar ao mundo conhecido, e por isso me deixava em um lugar onde ninguém mais sabia como chegar. Às vezes, eu o escutava chamando, chamando, chamando, mas só escutava a sua voz, não sabia mais onde é que ele estava. Quando eu olhava a casa toda, procurando Paulo por todos os cantos, ele não estava em lugar algum, ele não estava mais lá. Então, eu saía por alguns instantes do mundo, e também me perdia de mim. Por isso, por analogia, concluí que Paulo tinha levado o seu ser por engano e, por isso, eu não sabia mais onde colocar a minha existência. Talvez, eu tivesse derramado um pouco de mim no caminho e me misturado às pedras que sempre existiram. Depois, sei lá, tentei agarrar a vida com as unhas, mas a vida me escapara pelas mãos, abrindo uma ferida que nunca mais se fechou. E você sabe: feridas abertas são como abismos por dentro – eu continuava pensando, enquanto guardava os envelopes dentro da minha mochila, tentando colocar alguma ordem em minha bolsa e nos meus pensamentos. Estava prestes a sair, meu Deus, finalmente, estava prestes a sair.

Então, depois de pensar em tudo isso, eu voltei ao quarto, peguei mais um pote de escuridão dentro do armário e o tomei. Paulo nunca entendia quando eu virava aqueles potes goela adentro, se eles estavam vazios. Mas eu insistia que eles estavam cheios da escuridão da noite passada, e que eu precisava traduzir a escuridão para os cegos, mas não tinha com o que compará-la, pois a escuridão era tudo o que eles tinham visto, afinal. Como se eu tivesse inaugurado uma língua para eles, e nessa língua houvesse nomes para os vários tons de escuridão, assim como os esquimós tinham nomes para os vários tons de neve. Paulo não acreditava e franzia as sobrancelhas, mas eu insistia que precisava de entender a escuridão para não perder de vez a minha lucidez. Aquela era a minha estratégia: cavoucar ainda mais a escuridão para não perder a minha lucidez. Aquele era o lugar mais estreito em que eu conseguia penetrar, e eu só queria que Paulo viesse, apesar do sol que estava fazendo no outro lado do mundo. Pela primeira vez, eu quis que Paulo viesse até o longe, para que eu pudesse me perder, e não soubesse mais como voltar para mim mesma, e experimentasse os olhos dele, a lonjura deles, imaculados da minha loucura. Será que ele viria? Para que eu lhe explicasse tudo isso sem qualquer palavra? Para que ele me entendesse sem nenhum esforço? Para que ele fosse o eu? Para que eu fosse o você? Então, eu não me sentiria tão sozinha no mundo porque haveria alguém para me visitar na loucura, para me enviar notícias do mundo, notícias do mundo pequeno, tatuzinhos, formigas e caracol, para me contar dos cachorrinhos que tinham acabado de nascer, não apenas ciclones, enchentes, terremotos, guerras, códigos secretos, pandemia. Para que alguém soubesse onde a loucura se encontrava no mapa. Então, eu pensei e pensei enquanto um dos pássaros alados piscava os olhinhos e esperava o próximo instante chegar. De fato, eu só precisava mesmo de um mapa em alto relevo para me guiar na escuridão. Era tudo de que eu precisava. Mas Paulo não entendia mais os meus pensamentos, as minhas palavras, os meus pedidos, e uma cratera foi se abrindo do quarto à sala. Para ele, tudo aquilo era loucura. Apenas isso, loucura, loucura, meu Deus. Quando ele chegasse, será que me chamaria de louca outra vez?

Por isso, eu estava decidida: arrumaria a minha mochila para sair de casa. Dentro dela, colocaria o bolo vegano no pote de plástico, algumas frutas, alguns pacotes de bolacha, um saco de pão integral, o caderno vermelho, os envelopes guardados, algumas canetas e as peças diminutas do velho relógio de reverter o tempo. Há alguns meses, eu tentava encontrar os motivos pelos quais Paulo evitava a minha companhia, mas eu não os encontrava de modo algum. Talvez, quando eu saísse de casa, ele sentiria a minha falta. Talvez, quando eu voltasse, ele me chamaria de poeta e me abraçaria novamente como antes, e tudo voltaria ao normal.

segunda parte >>



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