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Como podemos entender a paixão?

A paixão pode ser compreendida de maneira mais ampla quando observada a partir de vários níveis articulados (como o psicanalítico, o psicológico e o biológico), pois ela não é apenas um sentimento intenso, mas uma experiência complexa que envolve o corpo, a mente e a história subjetiva do indivíduo.

No sentido psicanalítico, a paixão está ligada à dinâmica do desejo e às relações inconscientes que o sujeito estabelece com o outro. Para Freud, a paixão amorosa envolve um forte investimento libidinal no objeto amado, muitas vezes acompanhado de idealização. O outro passa a ser visto como portador de qualidades absolutas, e essa supervalorização não diz respeito apenas à pessoa real, mas às fantasias, carências e desejos inconscientes do sujeito. Lacan aprofunda essa leitura ao afirmar que, na paixão, o sujeito ama no outro aquilo que lhe falta, isto é, o objeto do amor ocupa simbolicamente o lugar daquilo que o sujeito sente como ausência em si mesmo. Por isso, a paixão tende a ser marcada por dependência, ciúme, sofrimento e perda de limites entre o eu e o outro, podendo assumir um caráter avassalador e, em alguns casos, autodestrutivo (Freud, 1914; Lacan, 1966).

Do ponto de vista psicológico, especialmente nas abordagens contemporâneas, a paixão é entendida como um estado emocional intenso, caracterizado por forte ativação afetiva, foco quase exclusivo no objeto amado e diminuição da capacidade crítica. Ela se diferencia do amor maduro porque é mais instável, impulsiva e marcada por urgência. Autores como Sternberg descrevem a paixão como um dos componentes do amor, ao lado da intimidade e do compromisso, sendo responsável pela atração intensa e pelo desejo, mas insuficiente, sozinha, para sustentar vínculos duradouros. Psicologicamente, a paixão tende a reduzir a percepção de riscos, aumentar a impulsividade e gerar oscilações emocionais intensas, o que explica tanto seu caráter encantador quanto seu potencial de sofrimento (Sternberg, 1986).

Já no plano biológico, a paixão envolve uma verdadeira reorganização neuroquímica do organismo. Estudos em neurociência mostram que, durante estados passionais, há aumento da atividade dopaminérgica no sistema de recompensa do cérebro, especialmente em áreas como o núcleo accumbens. A dopamina está associada à motivação, ao prazer e à expectativa, o que explica a sensação de euforia, energia elevada e foco obsessivo no outro. Ao mesmo tempo, há redução da serotonina, neurotransmissor ligado ao controle e à estabilidade emocional, o que contribui para pensamentos repetitivos e comportamentos compulsivos típicos da paixão. Hormônios como a noradrenalina também participam, intensificando a excitação fisiológica, a aceleração cardíaca e a hipervigilância emocional (Fisher, 2004).

Assim, a paixão pode ser entendida como um estado de intensa mobilização psíquica e biológica, no qual o sujeito se vê tomado por forças que ultrapassam o controle racional. Ela não é patológica em si, mas representa uma fase ou uma forma de vínculo marcada por idealização, fusão e alta ativação emocional. Quando atravessada pela reflexão, pelo tempo e pela alteridade, a paixão pode se transformar em amor; quando fixada na dependência e na perda do eu, pode se tornar fonte de sofrimento psíquico. Em todos os casos, ela revela algo fundamental sobre o desejo humano, sua vulnerabilidade e sua busca por completude.

Para saber mais:
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1914.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.
STERNBERG, Robert J. A triangular theory of love. Psychological Review, v. 93, n. 2, p. 119–135, 1986.
FISHER, Helen. Why we love: the nature and chemistry of romantic love. New York: Henry Holt, 2004.



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