Para António Damásio, emoção e sentimento não são sinônimos, embora estejam profundamente relacionados. A emoção é, antes de tudo, um conjunto de respostas automáticas do corpo e do cérebro, desencadeadas por um estímulo interno ou externo. Essas respostas envolvem alterações fisiológicas (como batimentos cardíacos, respiração, tensão muscular e secreção hormonal) e ativação de circuitos neurais específicos. Elas ocorrem de modo inconsciente ou pré-consciente, isto é, sem que o sujeito precise perceber ou refletir sobre elas para que aconteçam
Exemplos de emoções incluem medo, raiva, alegria e desejo. O desejo, por exemplo, surge como uma reação automática do organismo diante de algo considerado potencialmente benéfico, preparando o corpo para a ação. Nesse estágio, o organismo já está reagindo, mesmo que a pessoa ainda não tenha consciência clara do que está sentindo.
O sentimento, por sua vez, aparece em um momento posterior. Ele ocorre quando o cérebro percebe e representa mentalmente as mudanças corporais provocadas pela emoção. Em outras palavras, o sentimento é a experiência subjetiva da emoção, isto é, o momento em que o indivíduo se dá conta do que está acontecendo em seu próprio corpo. Para Damásio, sentir é “ter consciência de que se está emocionalmente alterado” (Damásio, 1994).
Assim, enquanto a emoção pertence principalmente ao plano da regulação biológica automática, o sentimento pertence ao plano da consciência. A emoção acontece primeiro; o sentimento surge quando o cérebro mapeia essas alterações corporais e as transforma em experiência consciente. Essa distinção é central na crítica que Damásio faz ao dualismo cartesiano, pois mostra que a mente consciente depende diretamente dos estados corporais. Em síntese, para Damásio: a emoção é uma reação corporal e neural automática, que pode ocorrer sem consciência, enquanto o sentimento é a percepção consciente dessas reações, quando o sujeito passa a experimentar a emoção como vivência subjetiva.
Para saber mais:
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.