A mitologia é o conjunto de narrativas simbólicas criadas por diferentes povos para explicar a origem do mundo, dos deuses, dos seres humanos, da natureza e das normas que organizam a vida social. Essas narrativas, chamadas de mitos, não devem ser compreendidas como simples fantasias ou histórias falsas, mas como formas tradicionais de conhecimento que expressam valores, medos, desejos e visões de mundo de uma determinada cultura (Eliade, 1992).
Do ponto de vista antropológico e histórico, os mitos cumprem a função de dar sentido à experiência humana, especialmente em contextos nos quais o pensamento científico ainda não estava constituído. Eles explicam fenômenos naturais, legitimam práticas sociais e oferecem modelos de comportamento, ao narrar feitos de deuses, heróis e ancestrais. Nesse sentido, a mitologia organiza simbolicamente o real e contribui para a coesão social, transmitindo saberes de geração em geração (Malinowski, 1978).
Para a história das ideias, a mitologia também representa uma forma de pensamento distinta, baseada na imaginação simbólica e no sagrado, em contraste com o pensamento racional-filosófico que se desenvolveria posteriormente na Grécia antiga. Autores como Jean-Pierre Vernant destacam que o mito não é um estágio “inferior” do pensamento, mas uma lógica própria, que articula narrativa, ritual e vida coletiva (Vernant, 1990).
Além disso, a mitologia exerce forte influência sobre a arte, a literatura, a religião e a psicologia. Na psicanálise, por exemplo, os mitos são compreendidos como expressões simbólicas de conflitos universais da experiência humana, funcionando como metáforas profundas da vida psíquica, como no caso do mito de Édipo (Freud, 1900; Jung, 2016). Assim, os mitos continuam operando na cultura contemporânea, ainda que sob novas formas.
Em síntese, a mitologia é um sistema simbólico de explicação do mundo, por meio do qual as sociedades constroem sentidos sobre a existência, o sagrado, a natureza e as relações humanas. Ela não se opõe simplesmente à razão, mas expressa uma maneira específica e historicamente situada de compreender a realidade.
Referências
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1992.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1900/1996.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.
MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.