filosofia

O que é o mal?

Segundo Santo Agostinho, o problema do mal não pode ser resolvido supondo a existência de dois princípios opostos (um do bem e outro do mal) como defendia o maniqueísmo, doutrina que ele próprio seguiu durante parte da juventude. Ao abandonar essa visão, Agostinho reformula a questão a partir de uma convicção central: Deus é sumamente bom, perfeito e onipotente, e, portanto, não pode ser autor do mal (Confissões, VII).

Para Agostinho, tudo o que existe foi criado por Deus e, por isso mesmo, é bom em sua origem. A criação não contém o mal como substância ou realidade positiva. O mal, portanto, não é algo que existe por si, mas uma privação do bem (privatio boni). Assim como a escuridão não é uma coisa em si, mas a ausência de luz, o mal surge quando há uma falta, corrupção ou desordem em algo que foi criado bom (AGOSTINHO, De natura boni).

Essa explicação permite a Agostinho resolver o dilema: se Deus criou apenas o bem, o mal não vem de Deus, mas do uso inadequado da liberdade da criatura. No caso dos seres humanos e dos anjos, o mal moral nasce quando a vontade se afasta da ordem do bem maior (Deus) e se volta para bens inferiores de maneira desordenada. O mal não é, portanto, criação, mas desvio (A Cidade de Deus, XII).

Desse modo, Santo Agostinho afirma que a bondade da criação permanece, mesmo em um mundo marcado pelo sofrimento e pelo pecado. O mal não destrói a bondade originária do ser, mas a fere, a empobrece ou a corrompe. Essa visão preserva, ao mesmo tempo, a bondade de Deus, a responsabilidade humana e a inteligibilidade do mundo criado, sem recorrer a um dualismo metafísico.

Referências bibliográficas:
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Paulus, 2010.
AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus. Tradução de Oscar Paes Leme. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
AGOSTINHO, Santo. Da natureza do bem (De natura boni). Tradução de Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 2005.



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