Os primeiros filósofos gregos, conhecidos como pré-socráticos (porque vieram antes de Sócrates), promoveram uma ruptura decisiva com as explicações míticas tradicionais. Em vez de atribuírem a origem do mundo e dos fenômenos naturais às ações de deuses antropomórficos, como fazia a mitologia, eles passaram a buscar princípios racionais e naturais para explicar a realidade. Essa mudança não significou a negação imediata do mito, mas a inauguração de uma nova atitude intelectual: a tentativa de compreender o mundo por meio da razão (lógos) e da observação da natureza (phýsis) (REALE; ANTISERI, 2003).
Para esses pensadores, a phýsis não era apenas o conjunto das coisas naturais, mas o processo de surgimento, transformação e permanência de tudo o que existe. Diante da diversidade do mundo sensível, eles se perguntaram se haveria um princípio originário (arché) comum a todas as coisas, capaz de explicar tanto a multiplicidade quanto a ordem do cosmos. Essa busca pela arché marca o nascimento da filosofia, pois supõe que a realidade é inteligível e pode ser compreendida sem recorrer a narrativas sagradas (CHAUÍ, 2000).
Tales de Mileto, por exemplo, afirmava que a água era o princípio de todas as coisas; Anaximandro propôs o ápeiron (o ilimitado); Anaxímenes indicou o ar; Heráclito destacou o fogo e o devir. Apesar das diferenças entre essas respostas, o que os une é a convicção de que existe uma ordem racional na natureza, acessível ao pensamento humano. Como destaca Marilena Chauí, o passo decisivo desses filósofos foi substituir o “porque os deuses quiseram” pelo “por que acontece”, inaugurando a investigação racional do mundo (CHAUÍ, 2000).
Assim, o nascimento da filosofia grega representa a passagem do mito ao lógos, isto é, da explicação simbólica e religiosa para a explicação racional e argumentativa. Essa transformação funda não apenas a filosofia, mas também a ciência e uma nova forma de compreender o lugar do ser humano no cosmos (REALE; ANTISERI, 2003).
Referências bibliográficas:
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. São Paulo: Paulus, 2003.