Segundo Ernst Gombrich, a diferença entre a arte do Renascimento e a do Barroco não é apenas uma mudança de estilo, mas uma transformação profunda na função da arte e na relação que ela estabelece com o espectador.
No Renascimento, a arte buscava o equilíbrio, a clareza e a harmonia racional. As obras eram construídas segundo princípios de proporção, perspectiva e ordem, herdados da Antiguidade clássica. Para Gombrich, tratava-se de uma arte pensada para a contemplação distanciada: o observador deveria apreciar a obra com calma, reconhecendo sua composição lógica, sua simetria e sua estabilidade formal. O espectador ocupa uma posição externa à cena, como alguém que observa um mundo organizado e inteligível (Gombrich, 2012).
Já no Barroco, Gombrich identifica uma mudança decisiva: a arte passa a buscar o envolvimento emocional direto do público. Em vez de manter distância, a obra barroca procura aproximar, surpreender e afetar o espectador. Essa mudança está ligada, segundo o autor, ao contexto da Contrarreforma, em que a Igreja Católica passa a utilizar a arte como meio de persuasão espiritual. A função da obra deixa de ser apenas representar o belo e passa a ser comover, convencer e “conquistar a alma” de quem a observa (Gombrich, 2012).
Essa intenção aparece de forma clara na arquitetura barroca, especialmente nas igrejas. Gombrich observa que arquitetos como Bernini criam espaços grandiosos, dinâmicos e teatralizados, nos quais o uso da luz dramática, das curvas e da sensação de movimento produz um impacto sensorial intenso. O fiel não apenas observa o espaço, mas sente-se envolvido por ele, como se participasse da experiência religiosa.
Na pintura, artistas como Caravaggio e Rubens rompem com a composição estática renascentista. As cenas parecem extrapolar os limites da moldura, os corpos estão em ação, os gestos são intensos e o uso do claro-escuro cria contrastes dramáticos. Para Gombrich, essa estratégia faz com que o espectador se sinta quase dentro da cena, emocionalmente implicado no que está sendo representado.
O mesmo ocorre na escultura barroca, na qual as figuras parecem captadas em pleno movimento, como se estivessem prestes a continuar a ação no espaço real do observador. Diferentemente da escultura renascentista, que convida à observação serena, a escultura barroca provoca impacto, surpresa e emoção imediata.
Assim, segundo Gombrich, o Barroco se define por uma arte sensorial, dinâmica e participativa, cujo objetivo principal é provocar uma resposta emocional intensa no espectador. A obra não quer apenas ser vista, mas sentida, mobilizando os sentidos e os afetos como forma de persuasão estética e espiritual.
Referências bibliográficas:
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2012.