Para Alfredo Bosi, o Barroco deve ser compreendido como uma forma estética profundamente ligada às contradições históricas de seu tempo. Ele não surge apenas como um estilo artístico, mas como uma resposta sensível e intelectual a um mundo marcado por conflitos. Na Europa, segundo Bosi, o Barroco nasce em um contexto de crise: de um lado, a tradição religiosa cristã, reforçada pela Contrarreforma; de outro, o avanço da razão moderna, da ciência e do pensamento crítico. Essa tensão entre fé e razão, espírito e matéria, desejo e pecado atravessa a produção artística e literária barroca, que se caracteriza justamente pelo gosto pelo contraste, pelo excesso e pelo paradoxo (Bosi, 1977; 1994).
Essas contradições se expressam na forma barroca por meio de imagens opostas, linguagem rebuscada, dramatização dos afetos e instabilidade do sentido. Para Bosi, a estética barroca traduz uma consciência dividida, incapaz de harmonizar plenamente os valores espirituais com as exigências da vida terrena. O resultado é uma arte marcada pela ambiguidade, pela oscilação entre extremos e pela busca constante de conciliação entre forças inconciliáveis.
No Brasil colonial, Bosi observa que essas tensões se intensificam e assumem contornos próprios. A sociedade colonial era estruturada sobre desigualdades profundas, especialmente a divisão entre senhores e escravizados, riqueza e miséria, poder e submissão. Ao mesmo tempo, havia um forte esplendor religioso, expresso nas igrejas, na arte sacra e na retórica moralizante, que coexistia com uma realidade de violência, exploração e opressão social. Para Bosi, essa contradição estrutural marca profundamente o Barroco brasileiro, conferindo-lhe um caráter ainda mais dramático e desigual.
Assim, segundo Alfredo Bosi, o Barroco no Brasil não é uma simples imitação do modelo europeu, mas uma expressão estética situada, que reflete as tensões específicas da experiência colonial. A arte e a literatura barrocas tornam-se, nesse contexto, formas de dar visibilidade simbólica a um mundo profundamente cindido, no qual o discurso religioso convive com práticas sociais excludentes e violentas. O Barroco, portanto, expressa, tanto na Europa quanto no Brasil, uma estética da contradição, nascida do choque entre valores opostos que estruturam a vida histórica (Bosi, 1994).
Referências bibliográficas:
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.